O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem, o tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem.

Num prato de trigo tragam três tigres. Três tigres tragam trigo num prato dum trago. Tragam o trigo aos três tigres que eles tragam o trigo no prato. Tragam o trigo aos três tigres que eles tragam o trigo no prato dum trago.

O rato roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia. O raio do rato roeu a rolha do rei da Rússia. O raio do rato roeu a rolha da garrafa de rum do rei da Rússia. O raio do rato roeu a rolha redonda da garrafa de rum do rei da Rússia. O raio do rato roeu a rolha redonda da garrafa de rum de Roberto, o rei da Rússia. O raio do rato roeu raivoso a rolha redonda da garrafa de rum de Roberto, o rei da Rússia. O raio do rato roeu raivoso e rápido a rolha redonda da garrafa de rum de Roberto, o rei da Rússia. O raio do rato roeu raivoso e rápido a rolha redonda da garrafa de rum de Roberto, o ruidoso rei da Rússia.
– Raio! – ralhou o rei. – rato rapace!
– Raça! – rugiu o rato. – é rija a rolha!

Se passa os três níveis sem dar um nó cego à língua, está habilitado a continuar a ler. É uma tarde de sol, cheia de Luz. O estádio abre as portas e mais de 55 mil pessoas entram com a perspectiva de assistir à nona vitória seguida do Benfica. Nem pensar, discorda o Boavista, sem vencer na Luz desde Março 1999 (aquele mítico 3-0 de Ayew, Ayew e Luís Manuel na estreia promovida por Souness dos laterais Harkness e Charles), A equipa de Miguel Leal sai com a bola e impede o Benfica de fazer dois toques seguidos do meio-campo para a frente. Tanto assim é que o primeiro lance digno de registo é uma falta defensiva de Luisão, aos 5′. E o segundo é mais do mesmo, aos 7′. Só a partir dos 10′ é que o Benfica dá um ar da sua graça e encontra o caminho para a baliza de Kamran, com um remate de Samaris (titular tão-só pela segunda vez no campeonato 2016-17, após o 1-1 no Dragão) ao lado. No quadradinho seguinte, Rafa dribla por ali fora e serve Gonçalo Guedes, cujo pontapé mais em jeito do quem força sai também ao lado.

A partir daqui, o Boavista dá espectáculo. Ou melhor, Iuri Medeiros aparece em jogo: assina o 1-0 de livre directo (14′), assiste Lucas para o 2-0 aos 20′ e oferece o 3-0 a Shrembi aos 25′. Num piscar de olhos, o Boavista marca três golos em menos de meia-hora e faz história. Nunca uma equipa nacional conseguira tal feito na Luz – nas provas europeias, só o Manchester United para a Taça dos Campeões 1965-66. Nesses três golos, o 1-0 começa numa falta sobre Rafa não assinalada pelo árbitro Luís Ferreira e o 3-0 é irregular porque Shrembi tira partido do fora-de-jogo para encostar o passe altruísta de Iuri. Sempre ele, Iuri. O rapaz merece. Tem qualidade nos pés e cabeça, muita cabeça. Vai daí, marca o quarto golo da sua história ao Benfica (um pelo Arouca em 2014-15, dois pelo Moreirense em 2015-16 e agora pelo Boavista em 2016-17). O último português chama-se Gomes, Fernando Gomes. Um clássico dos anos 80. Iuri vira um clássico do século XXI.

Em desvantagem por 3-0, o Benfica continua sem encontrar o fio de jogo. Se a defesa é mole, o ataque é macio. Rui Vitória mexe aos 38 minutos e saca Rafa. Quem entra é Mitroglou e é precisamente ele quem assina o 3-1 antes do intervalo, na sequência de um passe de Salvio após defesa incompleta de Kamran a um pontapé de Pizzi de fora da área (o grego já é o melhor marcador do Benfica no campeonato, com sete golos, mais um que Pizzi). Um-três ao intervalo. Qual é o último na Luz, para o campeonato? Em Outubro 1959, com o Lusitano Évora. Surpresa das surpresas, o Benfica ganha esse jogo por 5-3. nas duas anteriores situações de 3-1 ao intervalo, o factor casa faz a diferença (4-3 ao Sporting em 1949 mais 5-3 ao Belenenses em 1935).

A segunda parte traz um Benfica ligeiramente diferente, com Cervi no lugar do capitão Luisão (quem leva a braçadeira é André Almeida). E é o argentino quem agita o Boavista, com a falta sofrida por Edu Machado de que resulta o 2-2 de Jonas, de penálti, aos 53′, e o cruzamento para o autogolo de cabeça de Fábio Espinho, aos 68′. Com mais de 20 minutos de jogo, o Benfica acredita na reviravolta. Só que Miguel Leal faz as suas substituições e a entrada do lateral-direito Mesquita trava o andamento de Cervi. Sem o turbo boost, o Benfica perde intensidade. O tempo passa e nada de bolas ao poste, à trave ou salvas na linha por Kamran. Aliás, é Ederson quem evita o 4-3 do Boavista em duas situações relâmpago, aos 80′ (Renato Santos) e 82′ (Anderson Carvalho). Quando Luís Ferreira apita para o fim, uma confusão imensa instala-se no meio-campo por obra e graça de um desentendimento entre Kamran e Jardel (suplente). É o sétimo 3-3 na Luz para o campeonato. Será que algum candidato ao título aproveita este brinde? É caso para desatar o nó com o tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem, o tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem.

Estádio da Luz, em Lisboa
Árbitro: Luís Ferreira (Braga)
BENFICA: Ederson; Nélson Semedo, Luisão (Cervi, 46′), Lindelof e André Almeida; Salvio, Pizzi, Samaris e Rafa (Mitroglou, 38′); Gonçalo Guedes (Zivkovic, 66′) e Jonas
Treinador: Rui Vitória (português)
BOAVISTA: Kamran; E. Machado, P. Sampaio, Lucas, Talocha; Idris, A. Carvalho, F. Espinho (Makhmudov, 89′); Iuri Medeiros (Mesquita, 76′), R. Santos, Schembri (Bukia, 65′)
Treinador: Miguel Leal (português)
Marcadores: 0-1, Iuri Medeiros (14′); 0-2, Lucas (20′); 0-3, Shrembi (25′); 1-3, Mitroglou (41′); 2-3, Jonas (53′, gp); 3-3, Fábio Espinho (68′, npb)