Um tubarão-zebra fêmea conseguiu ter crias sem ter mantido relações sexuais com nenhum macho, desvendou um grupo de cientistas num estudo publicado na revista Nature. As três crias nasceram no início do ano passado, mas a progenitora não tinha contacto com nenhum tubarão-zebra há mais de quatro anos. Embora haja alguns tubarões com capacidade de se reproduzirem sem cruzamento, este é o primeiro caso documentado numa fêmea que já tinha tido um companheiro.

Leonie é da espécie Stegostoma fasciatum, uma das mais comuns no Oceanário de Lisboa. Em 1999 ganhou um companheiro macho com quem se cruzou durante treze anos num aquário em Townsville, na Austrália. Vinte e quatro filhos depois, em 2012, o macho foi retirado do mesmo aquário que Leonie e a fêmea nunca mais teve contacto com nenhum outro tubarão. Os testes genéticos feitos às três crias que nasceram em 2016 provaram que o seu ADN tem material genético apenas da progenitora, o que descartou a possibilidade de a fêmea ter armazenado esperma do companheiro ao longo do tempo para o usar na sua ausência. Isso significa que Leonie teve as crias através de reprodução assexuada: a fêmea deu origem a três crias geneticamente iguais a ela – são clones da mãe.

De acordo com Russell Bonduriansky, um dos cientistas australianos envolvidos na descoberta, “em espécies que são capazes de se reproduzirem das duas formas [como alguns tubarões, perus, dragões de Komodo, raias e cobras], há bastantes observações de um animal mudar de reprodução assexuada para reprodução sexuada, com cruzamento entre um macho e uma fêmea. No entanto, é muito menos comum observar mudanças de uma reprodução sexuada para assexuada”. Até porque isso traria desvantagem aos tubarões, que não conseguiriam garantir a sobrevivência por muitas gerações: a reprodução assexuada cria menos diversidade genética e, por consequência, menor capacidade de adaptação e sobrevivência. Por isso é que este tipo de reprodução apenas é observado em fêmeas que vivem num ambiente onde não há machos disponíveis para acasalar.

O caso de Leonie é de reprodução por partenogénese, em que um embrião se desenvolve sem necessidade de fertilização entre um óvulo e um espermatozoide. É muito comum em plantas e em invertebrados, mas tem sido cada vez mais observado em espécies vertebrados, principalmente quando mantidas em cativeiro durante toda a sua vida reprodutiva.