O rapaz sentou-se ao nosso lado debaixo da estátua na praça Luís de Camões em Lisboa. Perguntou como nos chamávamos, disse que se chamava André mas avisou que “na rua ninguém tem nomes”. Toda a gente tem passados, ainda assim. Conta-nos que tem 23 anos e que é de Coimbra. O pai é um advogado muito reconhecido, os irmãos estudam na universidade e a mãe é uma mulher de sucesso. Mas ele foi expulso de casa à conta do vício das drogas para onde, diz, os amigos o arrastaram. Perguntamos-lhe porque chama amigos a quem o arrastou para a rua. “Porque eu é que devia ter dito que não a tempo. Não posso culpar ninguém pelos meus erros além de mim mesmo”. Diz que não pensa em regressar a casa porque sabe que ninguém o receberia de braços abertos: “Eu perdi as oportunidades que me deram. Agora tenho de viver um dia de cada vez. Mas já ando a parar de fumar”, promete. No final da conversa inesperada à hora de almoço pede para ficar com o que não tínhamos bebido do nosso refrigerante. Quer ficar também com as migalhas das batatas fritas que tínhamos na mão. Mas não quis que lhe comprássemos almoço.

Não há muito que torne os sem-abrigo portugueses diferentes dos fotografados por Mikaël Theimer em Montreal, no Canadá. Dormem em frente às luxuosas montras das lojas de marca, fazem dos bancos de jardim a sua cama e do céu nublado o seu teto. E, garante o artista, também não há muito que diferencie o comportamento de quem passa por eles de casaco vestido e sacos de compra nas mãos: “Sabem exatamente o que querem dizer. Nós vemos um sem-abrigo a alguns metros de distância, então começamos a acelerar o passo, começamos a mexer no telemóvel ou a olhar para o outro lado da estrada. Tudo para nos certificarmos que evitamos aquele momento desconfortável em que ele vai pedir os nossos trocos e nós vamos dizer que não”, escreve Mikaël Theimer na sua página de Facebook.

Cansado do esforço que a humanidade faz para “não ver os sem-abrigo”, Mikaël Theimer decidiu documentar a verdadeira vida nas ruas. Diz que não quer julgar esse comportamento até porque “fogo, eu costumava ser assim”, confessa. Mas sublinha que precisamos de começar a olhar para os sem-abrigo como merecedores da mesma dignidade que qualquer ser humano merece: “Como é que chegámos a este ponto de pensar que era possível que haja tanta gente miserável a viver entre nós?”.

As imagens captadas pelo fotógrafo estão na fotogaleria.