O Reino Unido deverá anunciar uma saída limpa e dura da União Europeia e procurar uma nova relação comercial com o bloco europeu. A primeira-ministra Theresa May vai revelar esta terça-feira o seu guião para concretizar o Brexit em 12 passos e passar uma mensagem: o Reino Unido não quer ficar metade fora e metade dentro.

Num discurso que terá lugar em Londres, e que está previsto para o final desta manhã, May deverá afastar-se dos grupos económicos que pressionam pela manutenção de relações próximas com a Europa e anunciar que espera que os britânicos saiam do mercado único, revendo as ligações à união alfandegária, de acordo com uma fonte conhecedora citada pela Bloomberg.

O Telegraph diz que este será discurso mais importante da primeira-ministra britânica desde que tomou posse em julho do ano passado quando David Cameron se demitiu na sequência do referendo que deu a vitória ao Brexit. May deverá falar às 11.45 da manhã, perante uma audiência onde estarão presentes embaixadores europeus na Lancaster House, na capital inglesa.

A primeira-ministra não tem interesse em manter uma relação parcial ou o estatuto de membro associado com a União Europeia ou qualquer coisa que fique a meio caminho, o Reino Unido não quer ficar “metade fora e metade dentro” e rejeita uma meia saída, de acordo com extratos dos discurso divulgados pelo seu gabinete.

“Vamos procurar uma parceria nova e entre iguais – entre um Reino Unido independente global e independente e os nossos amigos e aliados da União Europeia. (…) Não procuramos um modelo que já é usufruído por outros países. Não nos queremos agarrar a bocados da União Europeia quando sairmos”.

As 12 prioridades do guião de May para sair da União Europeia deverão incluir a saída do mercado único e a retoma do controlo total das fronteiras britânicas, o que deverá fortalecer os receios de um “hard Brexit”, uma saída dura, o que vai penalizar a libra que tem desvalorizado para níveis recorde face ao dólar. A primeira-ministra vai contudo deixar uma nota de salvaguarda para os direitos dos britânicos expatriados que vivem na UE.

Sair do mercado único de serviços será um desapontamento para a banca, uma indústria poderosa para a economia britânica, o que deverá levar as instituições financeiras a deslocalizar as suas operações e empregos de Londres para outras cidades dos 27 estados membros. São por isso esperadas pressões sobre a líder do governo britânico para negociar um período de transição para dar tempo de ajustamento às empresas exportadoras.

O discurso deverá ainda piscar os olhos aos mais conservadores com a garantia de que o Reino Unido fora da União Europeia vai ser uma “nação de comércio grande e global”, respeitada em todo o mundo, ao mesmo tempo que “forte, confiante e unida” dentro de portas.

Há meses que os parceiros e instituições europeias pressionam o Reino Unido para fornecer um guião detalhado sobre a sua saída da União Europeia e agora o seu gabinete sinaliza que Theresa May está em condições de apresentar o plano completo e final para as negociações do Brexit.

Até agora, a primeira-ministro britânica tem tentado dizer o mínimo possível sobre a sua estratégia, argumentando que ficaria de mãos atadas se adiantasse o rumo das negociações antes destas começarem. Estratégia negocial, mas também política, já que antecipar os objetivos e prioridades iria expor May às inevitáveis críticas vindas dos que querem ir mais longe ou menos longe no Brexit.