Atenção ao intervalo entre a subida do preço e a qualidade do serviço. Se fosse um aviso do metro, a reivindicação do Bloco de Esquerda no debate marcou de urgência — após fazer uma viagem na linha verde entre o Cais de Sodré e o Intendente — podia soar assim. O aviso é dirigido ao Governo. No debate desta quarta-feira, potestativo (imposto pelos bloquistas), o deputado Heitor Sousa acusou o Governo de tomar “a inoportuna decisão de um aumento de 1,5% nos transportes públicos“. Para o BE, pelo contrário, “os preços deviam baixar, pelos menos até os serviços voltarem aos níveis de antes de 2011“.

Na resposta, o ministro do Ambiente (que tutela os transportes), José Matos Fernandes, admitiu que 2016 foi um “ano de sobressaltos” nos transportes públicos — que resultou do “grau de fragilidade” em que o Governo encontrou as empresas públicas de transportes — mas que não houve “corte de oferta”. O governante garantiu ainda que, por exemplo na Carris e no Metro, só a “partir de meio deste ano” será possível “aumentar a oferta para voltar aos níveis de pré-2011.” O ministro destaca que, por exemplo, no caso da Carris “entre 2011 e 2015 não foi comprado um único autocarro”.

Matos Fernandes garantiu ao Parlamento que 2017 vai ser “o ano de viragem das empresas de transportes, mantendo inalienado o seu caráter público.” O ministro diz que a “fundamental diferença em relação ao passado” é que o Governo “gosta das empresas” e não olha para elas como um peso que “agrava o défice”.

O PSD, através do deputado Carlos Silva, acusou o Bloco de Esquerda de marcar o debate de urgência para “fingir que não tem nada a ver com isto”, dizendo que os partidos à esquerda do PS também são responsáveis. “Não fujam com o rabo à seringa”, atirou o deputado do PSD. Carlos Silva lembrou ainda que no tempo do governo PSD/CDS, os sindicatos “faziam greves todos os dias” e agora “estão calados” e são os “utentes que reclamam”.

O BE, tal como o PCP e o PS, defenderam que na origem destes problemas está o anterior Governo. Nas palavras de Heitor de Sousa, a coligação de centro-direita deixou as empresas numa “austeridade miserável”. Já Carlos Silva diz que “o serviço vem-se a deteriorar e isso aconteceu nos meses mais recentes”. Ou seja: já no governo PS.

Heitor de Sousa falou de “lágrima de crocodilo” do PSD, que ao chorar pelos transportes públicos só pode ser “um filme do mesmo realizador que esperava que o diabo aparecesse até ao final do ano passado”, já que o objetivo do Governo de centro-direita foi sempre a “delapidação patrimonial, para preparar as empresas para a sua privatização.” Ao Governo socialista, os bloquistas pedem investimento público no setor.

Já o deputado do CDS, Helder Amaral, considera que a alegada defesa socialista dos transportes públicos é um “embuste”, já que o PS inscreveu no “memorando [de entendimento com a troika] a privatização da CP e da TAP, além de que “o PS é o pai do modelo de gestão privada no Metro do Porto”. E ainda provocou a bancada socialista numa referência às polémicas frases do ministro Augusto Santos Silva sobre a concertação social: “Aqui não é possível haver feira de gado. Sabe porquê? Na feira de gado, palavra dada, é palavra honrada.”

PCP propõe grupo de trabalho

E se o Bloco propôs um debate potestativo sobre transportes, o PCP não ficou atrás. Os comunistas, através do deputado Bruno Dias, lembraram que a Assembleia da República “tem sido confrontada com a grave situação das empresas de transportes e com os problemas sentidos pelos utentes e trabalhadores do setor”. O PCP alertou para “um quadro de dificuldades operacionais que não podem ser ignorados.”

Ora o PCP considera que a AR deve “conhecer diretamente a situação real do transporte público, e isso pode e deve passar, quer pela visita e observação do Metro de Lisboa, à Transtejo ou à STCP, quer pelo contacto direto com a situação no terreno quanto ao Ramal da Lousã ou Linha do Douro.” Para isso, os comunistas propõe que a comissão de Economia “constitua um grupo de trabalho para os Transportes Públicos, no sentido de desenvolver o acompanhamento ao sector e às medidas apontas para as empresas em causa.”