O Estado português financiou-se nesta quarta-feira em 1.750 milhões de euros com a emissão de dívida a seis e a 12 meses, excedendo o máximo da meta prevista antes deste leilão duplo de bilhetes do Tesouro (1.500 milhões). O IGCP aproveitou a procura para vender os títulos a um preço que significa uma rendibilidade negativa para os investidores, algo que se compreende à luz da política monetária agressiva, de juros baixos, seguida pelo BCE.

Apesar da subida dos juros nos prazos mais longos em Portugal, a política do Banco Central Europeu (BCE) — designadamente a taxa de depósitos negativa em -0,4% — está a ser suficiente para assegurar que os países da zona euro conseguem financiar-se a custos muito baixos, neste caso levando os investidores a perder dinheiro na aplicação em dívida pública.

A Agência de Gestão de Tesouraria e Dívida Pública (IGCP) colocou 1.250 milhões de euros em dívida a 12 meses, a uma taxa média ponderada de -0,047%. Esta rendibilidade é calculada a partir do preço a que os títulos foram vendidos — o Estado recebeu 100,048 euros por cada 100 euros que terá de reembolsar daqui a um ano, daí a taxa negativa.

Em novembro, na última emissão de dívida a 12 meses os títulos foram colocados a uma taxa ligeiramente positiva — 0,005%.

Foram, também, colocados 350 milhões de euros em dívida a seis meses, onde o custo foi igualmente negativo. Os títulos foram colocados a uma taxa de -0,091%, contra os -0,027% do último leilão comparável.

As taxas negativas na emissão a curto prazo é “resultado da descida de taxas desde a semana passada em toda a dívida soberana europeia”, explica Filipe Silva, diretor de gestão de ativos do Banco Carregosa. “A taxa das dívidas soberanas a 10 anos, por toda a Europa, teve um certo alívio e isso acabou por influenciar a emissão de hoje”, acrescenta o especialista.

Filipe Silva acrescenta que “o país conseguir-se financiar em 1750 milhões a uma taxa negativa é muito positivo para o Estado, mas trata-se de dívida de curto prazo, o que lhe retira grande significado”, já que é muito baixa a perceção de risco associada aos bilhetes do Tesouro. “O mercado agora vai estar atento é ao que se vai passar amanhã, na reunião do BCE, para saber se há alguma novidade em relação ao plano de compra de ativos e se, em face das melhorias quanto à inflação, se haverá alguma orientação futura sobre as taxas de juro”.