Acontece frequentemente, diz Fernando Ulrich. O presidente-executivo abre as páginas dos jornais e, sobretudo, liga a televisão e ouve “jornalistas e, sobretudo, comentadores” dizerem que os contribuintes perderam fortunas a resgatar os bancos. Vai daí, Ulrich encarregou uma equipa dentro do banco para fazer um estudo e convocou os jornalistas da área financeira para tentar desmontar este argumento. E quais são as conclusões?

A primeira é a de que, na opinião de Fernando Ulrich, os contribuintes foram “bem protegidos pelos sucessivos governos” e terão uma perda efetiva entre 4,4 mil milhões e, no máximo, 6,4 mil milhões — o que não é muito, comparativamente com outros países. A segunda conclusão é a de que desde 2001 houve uma “destruição colossal de capital” e quem sofreu, acima de tudo, foram os acionistas dos bancos — mas “os bancos não são todos iguais” e Ulrich aproveitou para defender a sua dama.

Numa “reflexão sobre o sistema bancário”, que a equipa do BPI preparou apenas com recurso a informação pública e assumindo já como adquiridos dados sobre recapitalizações em curso (como as da Caixa Geral de Depósitos e do BCP), o BPI aparece como o banco que teve o maior equilíbrio entre o capital que foi buscar ao mercado (853 milhões de euros) e os dividendos que distribuiu (799 milhões de euros). Os dados, que dizem respeito ao período entre 2001 e 2017, apresentam uma seleção de bancos composta por BES/Novo Banco, Millennium BCP, Caixa Geral de Depósitos, BPN, Banif e, claro, o BPI.

BES/Novo Banco – 13,1 mil milhões em capital injetado, 1,4 mil milhões em dividendos. Uma diferença, em desfavor do acionista, de 11,7 mil milhões. (o valor inclui obrigações sénior que passaram para o Novo Banco em dezembro de 2015 e outros efeitos)

MillenniumBCP – 9,4 mil milhões em reforços de capital ao longo deste período. Uma discrepância, portanto, de 7,6 mil milhões no banco que está a reforçar os capitais junto de grandes investidores mas, também, de várias dezenas de milhares de pequenos acionistas que estão a ponderar se devem ou não acompanhar o aumento de capital, ou seja, investir mais para manter a participação.

Caixa Geral de Depósitos – 8,5 mil milhões em capital, contra 2,5 mil milhões em dividendos pagos. Seis mil milhões de “prejuízo” para o acionista, isto é, o Estado. Já se inclui, aqui, a operação em curso.

BPN – 5,8 mil milhões em reforço de capital, incluindo pelo Estado, e 123 milhões em dividendos. Mais de 5,7 mil milhões de diferença.

Banif – 4,7 mil milhões em capital injetado no banco, incluindo na resolução de final de 2015, e 181 milhões de euros em dividendos. Uma diferença de 4,5 mil milhões.

35,5 mil milhões de euros que os acionistas perderam em 16 anos. Em contraste com estes números, o BPI calcula que reforçou os capitais com 853 milhões de euros e, neste período alargado compreendido entre 2001 e 2017, pagou 799 milhões de euros em dividendos aos acionistas. Apenas se perderam, portanto, 54 milhões, segundo as contas de Fernando Ulrich.

Isto serve para demonstrar, diz o presidente-executivo do BPI, que “os bancos não são todos iguais“. E, diz Ulrich, os “destinos” diferentes que cada banco teve e os tratamentos diferentes que cada um deu aos respetivos acionistas levam o presidente do BPI a pensar que, possivelmente, isto explica muito porque é que as várias tentativas de consolidação (fusões e compras) no setor bancário falharam. Incluindo as que envolveram o BPI, que teve em cima da mesa a possibilidade de se unir ao Banco Espírito Santo e ao BCP. “Havia diferenças de agenda grandes”, afirma Ulrich, que agora se compreendem à luz dos números apresentados esta quarta-feira pelo banco.

Houve uma destruição de capital acionista colossal” neste período de 16 anos, diz Fernando Ulrich, calculando que esta equivale a 19% do Produto Interno Bruto de Portugal em 2016. E a destruição de capital não caiu do céu, explica-se por práticas de banca que, na altura, provocaram, também, uma “distorção brutal da concorrência” — penalizando aqueles que “queriam ter uma gestão rigorosa” — e uma “distorção brutal na alocação de recursos” na economia.

Isto causou uma distorção brutal da concorrência. Houve uma parte importante do mercado que se pôde dar ao luxo de destruir capital acionista e quem teve de fazer uma gestão mais rigorosa teve mais dificuldades”.

Mas quando se fala em perdas na banca e em imparidades, Fernando Ulrich lembra que o dinheiro saiu dos bancos na forma de créditos “e não foi para a Lua“. O dinheiro foi emprestado e foi aplicado na economia. “Quem beneficiou do crédito usou o dinheiro, o dinheiro continuou a circular na economia”, atirou Ulrich, desafiando os economistas e os académicos a estudarem o impacto (positivo) na economia que tiveram esses créditos que viriam a revelar-se incobráveis. É claro que “a economia estaria muito melhor se este dinheiro não tivesse sido perdido e se tivesse sido investido em negócios mais eficientes”, mas o líder executivo do BPI mostrou curiosidade em saber para onde foi o dinheiro e que impacto ele teve na produção.

O deve e o haver do Estado com a banca

Na relação com o Estado, Fernando Ulrich recusa a ideia de que neste momento se possa dizer que os bancos estão a custar milhões aos contribuintes. No caso dos empréstimos de 2012 (ao BPI, BCP, Caixa e Banif), o Estado teve, nas contas do BPI, uma margem positiva superior a 800 milhões de euros graças aos juros avultados que esses empréstimos (as cocos) comportavam. Só o BPI pagou ao Estado mais de 100 milhões de euros. “É verdade que o Estado teve capital em risco, em determinado momento, mas esse capital foi reembolsado e o risco foi remunerado”, argumenta o presidente-executivo do BPI.

Entre juros das cocos (820 milhões), a margem do Estado com o Fundo de Resolução (23 milhões), as comissões com as emissões de dívida garantidas pelo Estado (643 milhões) e os dividendos da CGD (2,5 mil milhões), o Estado teve um ganho bruto total de quase quatro mil milhões de euros, diz o BPI.

Por outro lado, houve injeções de capital na CGD (quase oito mil milhões), os custos com a resolução do Banif (2,6 mil milhões) e as perdas com a nacionalização do BPN (quase 5,5 mil milhões, nos cálculos do BPI). No total, cerca de 16 mil milhões, dos quais oito a 10 serão irremediavelmente perdidos.

Ou seja, será uma perda líquida entre 4,4 mil milhões e 6,4 mil milhões de euros, o que equivale a 2,4% a 3,5% do PIB num ano, o que Fernando Ulrich não considera um montante excessivo à luz da forte crise que se viveu e da comparação com outros países. E um valor, sobretudo, que Ulrich não considera que justifique que na sociedade portuguesa se alimente a noção de que os bancos custaram fortunas aos contribuintes e que podem vir a custar mais. E quem diz que assim é, porque o diz? “Acredito que as pessoas estão de boa fé, dizem-no por falta de informação, acredito“, respondeu o presidente do BPI, referindo-se, em especial, a “comentadores, alguns dos quais até concorrem com jornalistas porque também querem dar notícias, mas não estão vinculados às mesmas regras de ética e deontologia profissional“.