Algés já foi, no início dos anos 80, o centro das guerrilhas internas do PS, onde se conspirava — no sótão de António Guterres — contra liderança de Mário Soares. Esta quinta-feira à noite, Algés voltará a ser o centro de um encontro partidário informal, mas com o objetivo inverso: calar os críticos internos de Passos Coelho no PSD. Os líderes das distritais já confirmaram quase todos a presença no jantar, que foi organizado por alguns destes dirigentes. Os objetivos, contou um dos líderes distritais ao Observador, é “discutir as eleições autárquicas, preparar um forte combate ao Governo” e “mostrar que não são os barões que falam pelo partido.”

A ideia do jantar partiu do presidente do PSD/Viseu, Pedro Alves — que não quis prestar declarações por entender que este é um evento coletivo e não deve ser individualizado — e rapidamente encontrou o apoio de outros dirigentes distritais como Nuno Serra (Santarém), Bruno Vitorino (Setúbal) ou Maurício Marques (Coimbra). Os restantes líderes juntaram-se à iniciativa que, embora tenha surgido à margem da direção nacional, é vista com bons olhos por Passos Coelho. É um movimento forte de apoio ao líder.

Um líder distrital explica ao Observador que o jantar é importante porque “há figuras que publicamente, como Marques Mendes ou Silva Peneda, vêm criticar o líder do partido e a estratégia definida. Ora, nós próprios aprovámos essa estratégia. E o partido somos nós, não são eles. Somos nós que representamos os militantes. Queremos esvaziar a crítica interna”.

O mesmo dirigente não esconde que “o objetivo é travar crises internas ou a ideia de que elas existem, porque quem fala pelo partido, quem está autorizado a falar pelas distritais são os líderes e não notáveis que até têm assento nos órgãos, mas só criticam o partido na comunicação social.” E acrescenta: “Também não são outros que se julgam donos do aparelho, sejam Marcos ou Miguéis, que mandam ou falam pelo partido. O aparelho somos nós.”

Um outro líder distrital explica que o “encontro só não é assumidamente de apoio ao líder ou para fortalecê-lo porque isso podia dar a ideia que ele está fragilizado. E não está. As coisas estão a decorrer normalmente, como aconteceu no congresso”. Os líderes distritais não escondem, no entanto, que estão “solidários com a direção nacional no partido”. Um outro dirigente distrital acrescenta que “não são os comentários na televisão ao domingo que definem se o partido” e que “está na hora de enterrar o velho PSD, dos barões e baronetes.”

Ao Observador, outro líder distrital que estará presente avisa que “o poder não anda na rua” e que “está na hora de dessacralizar os barões e defender os interesses do partido.” Muito do debate ao jantar será então para preparar as próximas eleições autárquicas. Os líderes distritais querem o “partido a rumar todo no mesmo sentido para que se consiga atingir o objetivo que o presidente defendeu no Congresso: vencer as autárquicas”.

Do encontro pode ainda sair um documento com alguns pontos que andarão à volta destes temas. Há algumas distritais que são mais “passistas” que outras e, de um momento para o outro, o jogo pode mudar. No entanto — apesar de algumas jogadas de bastidores nesse sentido — nenhuma se atreveu a declinar o convite. Se houver ausências, serão justificadas com questões de agenda. Ao início da tarde apenas o presidente da distrital de Aveiro não teria confirmado a presença, precisamente por não ter a certeza se conseguiria vir, mas tendo comunicado que estava solidário com os restantes líderes distritais.

A ideia é que o encontro — que será informal e à margem dos que acontecem com o líder do partido — tenha uma periodicidade fixa e sirva para que os líderes distritais “se conheçam e debatam abertamente os desafios do partido”.