Reportagem em Washington D.C., EUA

Donald Trump falava há menos de um minuto quando começou a chover. Washington D.C. acordou na manhã deste 20 de janeiro de 2017 sob um manto de nuvens, ora esbranquiçadas, ora cinzentas.

“Juntos, vamos escolher o rumo da América e do mundo durante muitos e muitos anos pela frente. Vamos encarar desafios, vamos ter de lidar com dificuldades, mas o trabalho vai ser feito”, disse Donald Trump na fase inicial do seu discurso, pouco depois de ter feito o juramento que o consagrou como o 45º Presidente dos EUA.

Michael Mattings, 35 anos, veio de propósito de Filadélfia, no estado da Pensilvânia, para ver este momento. Assim que começa a chover, tira a mochila das costas e abre um guarda-chuva pequeno sobre a cabeça rapada com uma lâmina. “A chuva está cá para nos dizer que isto não vai ser fácil, mas que nós damos conta do recado”, diz, apanhando a ideia de Donald Trump, cujo discurso segue a partir de um ecrã gigante junto ao Washington Monument. Os bilhetes para a tomada de posse há muito que estão esgotados.

Não é a primeira vez que Michael vem a Washington D.C. para este fim. A primeira foi em 2005, aquando da reeleição de George W. Bush. Ainda assim, garante que a sua alegria de então não é de todo comparável com a euforia que sente hoje. “Não há comparação possível”, diz. “Desta vez, havia muito mais questões centrais em jogo. Era a sobrevivência do nosso país que estava em causa e agora vamos tê-lo de volta”, assegura.

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Michael viajou de propósito desde Filadélfia para assistir à tomada de posse. Diz que o país não deverá ter união, mas que aqueles que venceram merecem o respeito de quem perdeu

Já com a cerimónia em andamento, mas ainda antes de Donald Trump ter começado a falar, Michael saudava cada nova fase protocolar com um berro de excitação. “Vamos a isto, vamos a isto!”, grita. “Já não era sem tempo!”

Quando se solta nestas exclamações, algumas pessoas juntam-se-lhe, num momento de catarse partilhado entre apoiantes de Donald Trump. Muitos levam na cabeça um boné vermelho igual ao que a campanha do 45º Presidente dos EUA tratou de tornar no símbolo que fica das eleições de 2016 — aquelas que poucos previram que ele podia vencer.

Ainda assim, o cenário nas ruas de Washington está longe de ser um mar de vermelho com “Make America Great Again” estampado a letras brancas. Um pouco por todo o lado, entre uma maioria de apoiantes de Donald Trump, há também aqueles que vieram a Washington D.C. protestar contra ele. Nestes casos, em vez de um boné vermelho, muitas mulheres usam um chapéu de lã cor-de-rosa, com orelhas de gata. São os pussy hats — e remetem para a gravação de 2005 que foi tornada pública a um mês das eleições onde Donald Trump dizia que agarrava as mulheres pelas partes íntimas (“pussy”, sinónimo de gata e não só, foi a palavra escolhida pelo agora Presidente dos EUA) sem pedir permissão.

Quando Michael tem os olhos bem fixos no ecrã gigante, uma jovem passa perto dele. Não tem um desses chapéus com orelhas de gata, mas não parece estar conformada com a tomada de posse desta sexta-feira. Isso fica claro quando grita para o ar: “Que se foda o Donald Trump!”. Ninguém reage, à exceção de Michael, que lhe grita: “Ah é? Vai mas é para o inferno!”.

“Queremos acabar com esta treta hoje!”

Michael está impaciente — e não é de agora. Tem-na desde 20 de janeiro de 2009, quando Barack Obama tomou posse pela primeira vez. Para ele, tudo o que se passou nos últimos anos foi um “erro enorme”. “Aqui na América, a maior parte das pessoas quer viver com o Governo longe, querem ser independentes, querem decidir o rumo das suas vidas. E nestes anos o que é que o Obama fez?”, pergunta. “Inchou o governo, engordou-o até não poder mais”, responde. “Queremos acabar com esta treta hoje, ponto final.”

“Esta treta” é sinónimo de Barack Obama, o 44º Presidente dos EUA que agora deixa a Casa Branca depois de oito anos no poder. É também a ele que Donald Trump se refere no início do discurso, deixando-lhe uma breve nota de agradecimento pela sua “graciosa ajuda” no processo de transição. Mas, logo a seguir, diz que o que se consumou esta sexta-feira em Washington não é “apenas a mera transferência de poderes de uma administração para a outra”. “Nós estamos a transferir o poder de Washington D.C. para devolvê-lo a vocês, o povo”, Donald Trump completa. Michael, que até então assistia ao discurso em silêncio, lança um urro de aprovação e ergue o punho direito cerrado sob a proteção do guarda-chuva. “É isso mesmo, que se lixe Washington!”, diz, apesar do chão que pisa.

Não muito longe de Michael está Maria Vollmar, de 20 anos. Veio de propósito da Califórnia, onde vive e é estudante universitária, para ver este momento — mas não é que ele lhe agrade. À primeira vista, é isso que parece, um boné vermelho igual ao de tantos apoiantes de Donald Trump. Nele, pode ler-se o já conhecido slogan, “Make America Great Again”. Maria comprou-o esta manhã, quando vinha a caminho do centro de Washington D.C., e logo tratou de transformá-lo a seu gosto. Com um marcador preto, riscou “Great” e escreveu “Gay” ao lado. “Make America Gay Again”, que é como quem diz “Vamos Tornar a América Gay de Novo”.

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Maria, que é lésbica, comprou um boné de campanha de Trump, riscou o Great de “Make America Great Again” e escreveu ao lado “Gay”

“Eu tinha de vir aqui, para mim não havia outro remédio”, diz ao Observador. “Sinceramente, tinha de vir aqui para poder ver isto tudo com os meus dois olhos para perceber que isto não é nenhum pesadelo e que é a mais crua das verdades.”

Maria é lésbica — e isso leva-a crer que, juntamente com as minorias étnicas, é um “alvo” de Donald Trump e do seu vice-Presidente, Mike Pence. Este último, enquanto governador do estado do Indiana, chegou a defender a instituição de um programa pago com o dinheiro dos contribuintes para reconverter homossexuais. No programa da sua campanha em 2000, prometia “ajuda àqueles que procuram mudar o seu comportamento sexual”.

“Só a ideia de que este homem que aqui está a apresentar-se perante nós só fala para aqueles que são como ele, esquecendo-se das mulheres, das minorias, de todos os que não são homens e brancos como ele, é algo assustador e que me deixa profundamente preocupada”, diz. “O nosso país nunca esteve tão dividido como está agora.”

“Como é que ele tem lata para falar de Deus?”

Na sua fase inicial, o discurso de Donald Trump ficou marcado por um retrato negro do país, que ali foi classificado como decadente e fraco, à custa de uma economia em queda e da impunidade daqueles que vivem uma vida de crime. Tudo isto, ao lado daqueles que assistem a esta realidade sem poder para mudá-la. Isto é, até agora, segundo Donald Trump. “Os homens e as mulheres que foram esquecidos no nosso país já não vão ser esquecidos”, diz, repetindo uma ideia que já tinha sido central no discurso que fez em julho, quando aceitou a nomeação do Partido Republicano.

Pouco depois de Maria ter dito estas palavras, e após Donald Trump ter ultrapassado a parte inicial do seu discurso, marcado por um tom negativo e negro, o 45º Presidente deu a volta ao texto e falou de união — um tema recorrente nos discursos de tomada de posse, mas hoje especialmente pertinente. “Nós dizemos o que está na nossa cabeça abertamente, debatemos de forma honesta os pontos os nossos desacordos, mas queremos sempre chegar à solidariedade”, diz. Maria abana a cabeça em desacordo.

“A Bíblia diz-nos o quão bom e agradável é quando os povos de Deus vivem juntos em união”, continua Donald Trump. Aqui, Maria ri-se de forma sarcástica, atraindo os olhares de algumas pessoas em seu redor. “Por amor de Deus, este gajo casou-se três vezes, é um porco para tudo o que é mulher, é um cão raivoso para todas as pessoas que são diferentes dele”, diz, exaltada. “Como é que ele tem a lata para falar de Deus?”

Aquilo que desagrada Maria agrada a Michael. “Está a ser um grande discurso”, diz o homem de Filadélfia, que entretanto já pousou o guarda-chuva. “Muito inspirador.”

Para Michael, é “impossível” unir o país. “Nos EUA há gente que não consegue respeitar a democracia, não sabem o que significa uma pessoas ganhar e outra perder. Ele ganhou as eleições e as pessoas têm de se habituar a essa ideia”, diz. “Se a união é impossível, então ao menos devem ter respeito.”

Maria também acha que, por mais discursos que agora sejam feitos nesse sentido, o país não voltará a estar unido. “Já não estava há muito tempo e não é agora, depois de tudo o que este homem fez e ainda com tudo o que ele vai fazer, que vai ficar unido.”

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Donald Trump, porém, termina o seu discurso precisamente a falar de união e de igualdade. A mensagem vai para “todos os americanos em todas as cidades perto e longe, pequenas ou grandes, de uma montanha à outra, de um oceano ao outro”. “Oiçam estas palavras: vocês nunca mais vão ser ignorados”, promete.

“Juntos, nós vamos tornar a América forte de novo, vamos tornar a América rica de novo, vamos tornar a América orgulhosa de novo, vamos tornar a América segura de novo. E, sim, vamos tornar a América grande de novo.”

Nesta altura, a chuva abranda e os guarda-chuvas que estavam em riste já estão no chão. Quando Donald Trump diz estas palavras e começa a dar o seu discurso de tomada de posse por terminado, Michael tem lágrimas a escorrerem-lhe pela cara. Maria também. Mas, mesmo nessa particularidade que os une, estão mais separados do que nunca.

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