Possuir um automóvel em que (quase) tudo pode ser controlado remotamente pelo fabricante tem vantagens, mas também tem inconvenientes. No passado mês de Dezembro, a Tesla decidiu intervir sobre a performance dos seus modelos, nomeadamente limitando, até certo ponto, a potência debitada pelos respectivos motores quando estes eram sujeitos a demasiados arranques “a fundo” (a célebre função Launch Control, que permite tirar o máximo partido da mecânica para garantir o melhor sprint possível).

As razões para esta medida eram as mais justificadas: proteger alguns componentes do automóvel, que poderiam ser afectados pelo uso repetido e intenso do Launch Control, perfeitamente em linha com o que fazem a Ferrari, a Porsche e a Lamborghini. Só que nestes casos, como não há ligação remota, surge no seu lugar um ou mais sensores de temperatura que, assim que se ultrapassam determinados valores, o veículo entra em modo de segurança.

O problema é que a casa de Palo Alto decidiu não informar os seus clientes desta medida. E, sabendo-se da relação fortemente emocional que a esmagadora maioria dos proprietários de um Tesla mantém com o seu veículo, e com a empresa que o constrói, era fácil de prever que, uma vez descoberta a “graça”, as reações não seriam as melhores.

E não foram… Tanto mais que não só os componentes em questão têm de estar cobertos pela garantia de fábrica, como é direito dos proprietários fazer uso do não menos famoso modo Ludicrous (aquele em que as versões mais potentes dos Tesla dão o melhor de si), sem que isso possa ser considerado utilização abusiva do automóvel (ou seja, sem perda de direito à cobertura da garantia). Não esquecendo que as prestações “estratosféricas”, sobretudo em termos de aceleração, são mesmo uma das principais razões pelas quais boa parte da clientela da Tesla opta por um dos seus modelos.

E assim surgiu o inevitável conflito de interesses. De um lado, a Tesla, pensando que ao limitar a potência dos motores, aquando da repetição intensa de arranques no modo Ludicrous, garantiria uma melhor saúde da mecânica e logo, incorreria num menor risco de ter de substituir peças ao abrigo da garantia. Do outro, uma clientela exigente e ciosa dos seus direitos, que nem sequer foi avisada desta medida, e que não tem noção de quantos arranques serão necessários para afectar negativamente a mecânica.

Só que as actualizações “sem fios” que a Tesla pode efectuar nos seus modelos também têm as suas vantagens. Juntamente com a mais recente, o construtor californiano difundiu uma mensagem de alerta, informando os utilizadores que os tais arranques repetidos poderão causar desgaste prematuro e danos substantivos à mecânica, embora sem fazer qualquer referência a restrições de potência.

Essa coube a Jon McNeill, presidente da Tesla para a área de vendas e assistência, que no fórum do clube de fãs da marca confirmou que a medida estaria a ser revista: “Com base nas vossas observações, decidimos remover todo o software de redução da performance relacionada com o uso da potência máxima. Estas alterações serão aplicadas com a nossa próxima actualização de software (dentro de cerca de três semanas)”. Mais uma vez demonstrando a importância que tem para a marca ouvir os seus clientes, e corrigir o que não está bem com a máxima brevidade, McNeill não só explicou que a redução da potência constituía uma forma de proteger a mecânica, como fez saber que, a partir de agora, a Tesla passará a monitorizar o respectivo estado, informando os seus clientes em caso de necessidade de assistência, para que possam, mais uma vez proactivamente, ser substituídos, em caso de necessidade, os componentes eventualmente afectados, de forma a manter intocada a performance dos veículos.

Os componentes que necessitem de ser substituídos continuam a estar cobertos pela garantia, não incorrendo os proprietários em quaisquer custos adicionais em resultado de tais intervenções.