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Sérgio Sousa Pinto reagiu logo pela manhã ao que Pedro Nuno Santos dissera no dia anterior sobre o PS nunca mais precisar da direita para governar. Para o deputado Sousa Pinto esta afirmação “não encontra apoio no passado nem no presente” do partido. E não está sozinho, Francisco Assis que considera que as palavras do governante e dirigente do PS estão “ao nível do apparatchik estalinista de segunda categoria“. E entretanto, Pedro Nuno Santos já deu resposta aos dois.

Os ânimos socialistas subiram na última semana, depois de Assis ter dado uma entrevista a apontar para os riscos que diz ver na estabilidade política e a falar mesmo nas vantagens de eleições antecipadas. As palavras de Pedro Nuno Santos vieram em reação a estas e, desde aí, o choque em cadeia entre os socialistas ainda não parou. Este sábado Assis voltou à carga no Expresso, chamando à posição de Pedro Nuno Santos “esquizofrenia política no seu mais elevado grau”. E logo pela manhã, na sua conta de facebook, Sérgio Sousa Pinto, sem meias palavras, defendeu que “a cultura do PS, e a sua contribuição maior para a democracia portuguesa, foi a denúncia desta mundividência maniqueísta, saída da vulgata marxista, segundo a qual existe um lado certo da história, onde estaríamos solidamente instalados e acolitados por compagnons de route com projectos afins“.

“O Sérgio não entendeu ou não quis entender o que eu disse. Eu percebo-o, ele é contra esta solução governativa, achava mesmo que o PS devia ter dado aval a um novo Governo PSD/CDS”. Esta é a resposta de Pedro Nuno Santos, em declarações ao Observador. O dirigente socialista explica a sua frase sobre a direita, dizendo que “é uma afirmação de autonomia e independência do PS” e repete: “Nós nunca mais ficaremos reféns da direita para governar. Eu fico feliz com isso”.

Recorde-se que Sousa Pinto — tal como Assis — não concordou, em novembro de 2015, com esta solução parlamentar negociada por António Costa, para o PS governar apoiado nas forças políticas à sua esquerda: PCP, BE e Verdes. Aliás, Sousa Pinto saiu mesmo da direção de Costa no partido por discordar deste caminho. No texto que publicou na rede social, Sousa Pinto diz mesmo que o PS se bateu “duramente pelo (maltratado e mal-amado) parlamentarismo que temos, fundado no confronto e no compromisso, na aceitação de racionalidades concorrentes, que se enfrentam num diálogo democrático que é um fim em si mesmo”.

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Convicções fortes sim, mas nunca reclamámos o monopólio da razão, nem nunca nos pareceu que a esquerda tivesse sido ungida com tal monopólio. O socialismo do PS não tem nada a ver com isto, ou pelo menos nunca teve“.

No dia em que se começou a delinear a aposta de Costa nesta solução governativa (depois de ter perdido as legislativas), em outubro de 2015, Sérgio Sousa Pinto foi o socialista que publicou no facebook uma imagem do comício da Fonte Luminosa, em 1975, pleno PREC. Agora, volta a recordar: “O único frentismo a que o PS aderiu foi pelos valores democráticos, contra quem nós sabemos e ao lado de quem também sabemos”. E é duro sobre Pedro Nuno Santos, deixando um conselho “aos camaradas que tentam acertar o passo com este tempo novo, e avançam confundidos e desengonçados” para que “se esforçassem menos”.

Os marxistas do equilíbrio orçamental não podem arregimentar a história e a razão. No PS cabemos todos, os que têm mais orgulho na nossa história, e os que têm como propósito, cada vez menos subliminar, reescrevê-la”, remata Sousa Pinto no facebook.

Mas para Pedro Nuno Santos, “as críticas” de Sousa Pinto “têm sempre como pano de fundo o passado do PS, dos outros partidos e do país” e desafia o camarada de partido a “refletir o presente e o futuro à luz das circunstâncias históricas da atualidade”. Já quando confrontado com o ataque se Francisco Assis, o dirigente socialista diz que “o debate político exige elevação e deve ser feito de argumentos e não de insultos”.

O insulto proferido por Francisco Assis diz mais sobre ele do que sobre mim”, atira Pedro Nuno Santos.

Este artigo foi atualizado às 16h30 com as declarações de Pedro Nuno Santos, tendo também sido alterado o título.