Há uma cena em “O Divã de Estaline”, o terceiro filme de Fanny Ardant enquanto realizadora (e o segundo rodado em Portugal, após “Cadências Obstinadas”, de 2013), passado na URSS nos anos 50, no final da vida de Estaline, em que se vê brevemente um disco de uma célebre pianista russa, Maria Yudina, nas mãos da personagem interpretada por Emmanuelle Seigner, Lídia, a amante do ditador comunista. Foi uma das formas que a actriz e realizadora francesa encontrou para frisar, obliquamente, o tema principal do filme: resistir ao poder totalitário, ou vender-lhe a alma, como explica Fanny Ardant numa conversa que teve com o Observador.

“Maria Yudina é uma personagem extraordinária. Disse sempre ‘não’ a Estaline, e ele nunca lhe tocou. Certa vez, ele deu-lhe um prémio artístico em dinheiro, e ela escreveu-lhe uma carta onde dizia o seguinte: ‘Caro José, agradeço-lhe pelo dinheiro. Vou rezar a Deus para que lhe perdoe os pecados que cometeu para com o povo russo. Quanto ao dinheiro, vou dá-lo á Igreja, que bem precisa dele. A sua devotada, Maria Yudina’. E mesmo assim, ele nunca a perturbou.”

O mesmo já não sucedeu ao poeta Osip Mandelstam, de quem Ardant, grande apaixonada pela cultura e pela história russa, reproduz um verso mesmo no final do filme, e que morreu em 1938, num campo de concentração na Sibéria: “Da primeira vez, Mandelstam foi condenado não ao Gulag mas ao exílio no campo, não se podia aproximar de uma grande cidade até uma certa distância. Mas tinha uma casa para se abrigar e estava com a mulher, embora passasse fome porque ninguém o ajudava, por medo. Só que um dia ele não aguentou mais e voltou a Moscovo. E aí, foi preso, metido num vagão e enviado de comboio para a Sibéria. Estaline respeitava os poetas e os artistas, mas ficava doente quando eles não se ajoelhavam aos seus pés. Mas foi Mandelstam que acabou por ganhar. Hoje, podemos falar de Mandelstam como uma luz que é eterna, como um extraordinário ser humano, enquanto que falamos de Estaline como uma força do mal.” É este Estaline que Fanny Ardant filma aqui.

Baseado no livro homónimo de Jean-Daniel Baltassat, “O Divã de Estaline”, foi rodado no Palace Hotel do Bussaco, que passa pelo palácio de um grão-duque, confiscado pelos bolcheviques após a revolução de Outubro.

O triângulo da história tem os seus vértices no próprio Estaline (Gérard Depardieu), na sua amante, Lídia (Seigner), à beira de perder os favores dele, e em Danilov (Paul Hamy, de “O Ornitólogo”, de João Pedro Rodrigues), um jovem artista escolhido por Lidia para criar um grande monumento à glória do líder soviético, e que também está alojado no palácio, sob cerrado escrutínio do KGB e do próprio Estaline, para que se ajuíze se ele é ideologicamente de confiança e digno da tarefa para que foi seleccionado.

Numa das salas do palácio há um divã, que pertenceu a Sigmund Freud e onde ele ouvia os seus pacientes. Agora, é Estaline que se deita lá e conta os seus sonhos a Lídia, para que ela os interprete.

A história do divã é ficcional, mas Fanny Ardant andava à procura de um bom papel para Gérard Depardieu, e essa busca cruzou-se com a leitura de “O Divã de Estaline”, como ela conta: “A história tinha unidade de tempo, de lugar e de acção, e um papel à medida do Gérard, embora o divã seja uma ficção. O autor do livro, Jean-Daniel Baltassat, contou-me que foi à Rússia e que visitou um palácio na Geórgia que havia sido de um grão-duque e ficava junto a umas fontes termais. Estaline costumava lá ir fazer curas de águas. Ao visitar o palácio, ele viu, de repente, no quarto onde era o escritório de Estaline, um divã que o fez pensar nessa imagem do divã de Freud que toda a gente conhece. E disse para consigo: ‘Vou inventar uma história a partir deste divã’.”

A realizador revela ainda que “o livro centra-se muito nos sonhos de Estaline onde ele fala do seu tempo no poder”. Mas o objectivo de Fanny Ardant não era tanto “dar uma aula de história”: “Mudei os sonhos – que não são o mais importante para mim – para mostrar como é que um ser humano continua a sê-lo perante o poder. O que é que ele vai perder ou o que é que ele vai ganhar. É esse o dilema do pintor interpretado por Paul Hamy”.

“O Divã de Estaline” tem um enquadramento histórico, factual, e é uma história realista até certo ponto, mas existe numa atmosfera como que de conto de fadas, de fábula, como se tudo se passasse no castelo de um ogre. Daí que Fanny Ardant tenha escolhido como cenário o Hotel do Bussaco: “Recebi muitas cartas a dizer que Estaline não era como o mostro no filme, mas eu nunca quis fazer uma ilustração nem um documentário. Para mim, Estaline é o arquétipo do poder absoluto. Procurei durante muito tempo um lugar que tivesse pertencido aos antigos senhores da Rússia, aos Romanov, mas ao dar com o Hotel do Bussaco, e como eu queria contar uma história do tipo ‘Era uma vez…’, e estilizar tudo, com torres, com gárgulas, como nas catedrais, exclamei: ‘É isto mesmo!’ E existe aquela floresta ao pé, como que uma floresta mágica e selvagem. E há a bruma, também… Já ouvi dizer que esses tempos foram definidos como sendo tempos ‘entre cão e lobo’, onde as pessoas não sabiam quem era o inimigo, quem ia trair e ia ficar puro, e quem se tinha vendido. Neste filme, eu procurei não a realidade, mas a verdade dos seres face ao poder.”

O medo é o sentimento predominante em “O Divã de Estaline”. Toda a gente tem medo, desde a mais anónima criada até aos generais que o tirano humilha, e mesmo o próprio Estaline, como refere Ardant: “Nem ele se sente bem. Há uma altura em que ele diz: ‘Toda a gente mente a Estaline’. Até Estaline tinha medo. Medo de quê? De ser traído, medo da morte, do tempo que passa. Sim, é um filme onde toda a gente tem medo. E como filmar esse medo? Não é mostrando muitos soldados armados de metralhadoras, pelo contrário.”

A actriz e realizadora recorda um ditado francês: “‘A vítima suscita o carrasco’. Porque eles têm medo. Porque se comportam como um rebanho de ovelhas. E isso excita o carrasco. Estaline sente o medo no pintor. Danilov pensa que se vai safar mas não tem a chave da manipulação. Ele é ambicioso, já vendeu a alma, mas é um ingénuo. Acha que ganhou, mas perdeu. Estaline sabe que ele já traiu, e voltará a trair. É como um jogo em que o gato brinca um bocadinho com o rato antes de o estraçalhar”.

Fanny Ardant não quis transformar Gérard Depardieu num sósia de Estaline, à custa de muita maquilhagem, preferindo confiar nos dotes do actor para se meter na personagem. “Eu aqui parto do princípio que toda a gente sabe quem era Estaline, ele está presente na memória colectiva das pessoas. E disse ao Gérard que o bigode, o cabelo penteado para trás, as botas e o uniforme militar bastavam. E disse-lhe mais duas coisas que tinha lido: que Estaline falava com uma voz doce, e que tinha sempre um sorrisinho como o dos gatos que contemplam os ratos antes de os matar.

“Foi o génio do Gérard que o fez entrar neste papel”, continua. “Sem estardalhaço, compondo um Estaline silencioso, de olhar fixo, já crepuscular, que sente a morte chegar.” E se o Estaline de Depardieu nos pode evocar uma personagem com uma dimensão shakespeareana, isso não acontece por acaso, como realça a realizadora. “O Gérard tem uma dimensão rabelaisiana, shakespeareana. Por isso, pedi-lhe também que interpretasse Estaline como se fosse uma personagem de Shakespeare, um Ricardo III, um Macbeth. Eles são monstros trágicos, mas interessam-nos, captam a nossa atenção.”

Os três filmes assinados por Fanny Ardant, “Cinzas e Sangue” (2009), “Cadências Obstinadas” (2013) e este “O Divã de Estaline” têm em comum o facto da actriz nunca entrar neles e preferir ficar atrás das câmaras, e contarem “histórias de conflitos trágicos”, como a própria os descreve. Apesar de já ter feito vários papéis cómicos no teatro e na tela, Ardant não se vê a realizar uma comédia. “É muito difícil fazer comédias. Mesmo como actriz, acho que não tenho uma natureza cómica, sou muito ‘pesada’. Já fiz comédias, claro, no palco e em cinema. Mas prefiro dramas e tragédias.” E remata: “Gostava de filmar uma história ligeira, mas creio que nunca o farei. E certamente, nunca uma comédia”.

[“O Divã de Estaline” estreia-se quinta-feira, 26 de janeiro, em Portugal]