Benoît Hamon ganhou a primeira volta das primárias da esquerda francesa, que escolhem o candidato às presidenciais, segundo os resultados parciais divulgados pela agência de notícias Reuters.

Hamon, ex-ministro da Educação socialista, com 49 anos, terá conseguido 36% dos votos e Manuel Valls, ex-primeiro ministro, de 54, terá ficado em segundo lugar com 31%. Em terceiro aparece, com 18,7% dos votos, Arnaud Montebourg, ex-ministro da Renovação Industrial, que já pediu aos seus apoiantes para transferirem esse apoio para Benoît Hamon na segunda volta.

Em baixo, Hamon agradece aos franceses pelo “belo exercício democrático”.

Após a divulgação dos resultados, Hamon disse que a votação “foi uma mensagem clara de esperança e de renovação” e “uma demonstração de convicção” que mantém as expectativas em aberto para as presidenciais. Hamon apelou ainda ao fim da “velha política” e apresentou como prioridade “mudar o modelo de desenvolvimento” apostando na ecologia.

Hamon conseguiu colocar no centro do debate medidas como a atribuição de um salário universal de 750 euros a todos os franceses maiores de idade, a legalização da marijuana, a redução das penas de prisão e a aplicação de um imposto aos robots, que seduziram novos votantes, sobretudo jovens.

Já Manuel Valls disse que se iniciava agora “uma nova campanha”.

“Apresenta-se-nos, a nós e a vós, uma escolha muito clara: a escolha entre o fracasso garantido e a possível vitória, entre promessas irrealizáveis e uma esquerda credível que assume as responsabilidades do país”, sustentou.

Valls, ex-número dois do atual Presidente, François Hollande, argumentou que a esquerda que ele representa tem hipóteses de vencer as eleições presidenciais de abril e maio próximos e disse ser “um lutador” que aposta numa esquerda “forte e credível”.

Numa crítica direta à proposta mais emblemática de Hamon – a atribuição de um salário mensal de 750 euros a todos os cidadãos franceses -, Manuel Valls disse não acreditar numa medida “com custos exorbitantes”, que implicaria “aumentar de forma maciça os impostos e os défices”.

“Recuso-me a abandonar os franceses à sua sorte, a promessas impossíveis de cumprir”, prosseguiu, acrescentando ainda que não quer também deixar os franceses sozinhos perante a extrema-direita de Marine Le Pen ou a direita “dura e liberal como nunca” do conservador François Fillon, perante os Estados Unidos do Presidente Donald Trump e a Rússia de Vladimir Putin.

Apesar de tomado as redes sociais de assalto e ter exaltado plateias de jovens universitários não é toda a gente que concorda com as medidas propostas por Benôit Hamon. Num artigo de opinião publicado no jornal Le Temps, Richard Werly, que escreve sobre política interna, diz que “Hamon é o candidato de uma esquerda que não governa” e que o ex-ministro da Educação tem “uma agenda de renovação socialista e não um programa de governo”. Segundo escreve o analista, algumas das medidas propostas por Hamon (que detalhamos em baixo) podem acabar por se revelar demasiado onerosas como a de atribuir um salário universal de 600 euros a todos os cidadãos, o que resultaria numa conta de 300 mil milhões de euros.

O vencedor destas primárias, não tem garantias de conseguir chegar à segunda volta das presidenciais, estando a campanha a ser dominada pela direita, com François Fillon, e pela extrema-direita, com Marine Le Pen.

No final de uma campanha marcada por três debates televisivos em oito dias, o escrutínio mobilizou entre 1,5 e dois milhões de eleitores que tinham de escolher um de sete candidatos.

Estes números contrastam com os mais de quatro milhões de pessoas que se deslocaram às urnas para as primárias da direita, em novembro passado.

Qual é o programa de Hamon?

Foi uma espécie de Blitz. Chegou em último à corrida e venceu-a com um cadernos de promessas que passam pela “renda universal” pelo investimento em medidas de proteção ambiental e algumas propostas de alterações constitucionais.

A primeira medida defendida por Hamon é o aumento do Rendimento Social (RSA) em 10%, de modo a atingir os 600 euros, até 2018. Um valor que também seria transferido para todos os jovens dos 18 aos 24 anos, depois de uma análise aos seus rendimentos. O sonho de atribuir um rendimento universal de 750 euros a todos os cidadãos com mais de 18 anos, uma medida já estudada em países como a Finlândia, “tem que ser bem discutido numa grande conferência de cidadãos e pode não acontecer antes de 2022”, escreveu Hamon numa página do Le Monde, onde os candidatos às primárias poderam deixar esclarecimentos sobre os seus programas políticos aos leitores.

As reformas constitucionais também estão na agenda. Hamon quer, por exemplo, limitar a utilização do artigo 49.3 – que permite adotar uma lei sem votação parlamentar – apenas para documentos do orçamento e aqueles que se referem ao financiamento dos serviços públicos. Além disso, Hamon pensa também estender o direito de voto aos estrangeiros nas eleições locais e tornar o mandato de sete anos não renovável.

Quanto ao ambiente, uma bandeira da ala mais à esquerda dos socialistas na qual ele se inclui, Hamon quer lutar contra o abuso animal, acabar com os carros a gasolina até 2025, reduzir a parte que o nuclear hoje detém na produção de eletricidade para 50% além de querer abrir uma guerra ao desperdício alimentar que passaria por legislar contra os piores “pecadores” como algumas grandes superfícies.

E o que defende Valls?

Manuel Valls fala um pouco mais de segurança, terrorismo, união e identidade francesa do que Hamon. O seu programa para uma “França forte e unida” inclui a criação pelo menos mil novos postos de trabalho por ano na polícia , um aumento do orçamento da defesa que chegue a 2% do PIB isto porque Valls reconhece a necessidade de “atuar incansavelmente contra o Islão radical”. Também nesta luta contra o extremismo, o ex-primeiro ministro incluiu a necessidade de promover a integração social porque “a cidadania pode ser aprendida” — uma das suas frases mais citadas. Isto pressupõe, segundo o manifesto de Valls, “a reafirmação do secularismo em todos os lugares, que protege, sem ferir e sem humilhar qualquer um que luta contra o extremismo sem apontar o dedo a nenhuma crença”.

No funcionalismo público, Valls quer aumentar o salário dos professores e um investir mil milhões no ensino superior. O candidato da esquerda está também atento à discriminação das mulheres e dos mais pobres no acesso aos melhores empregos e ao hiato que existe entre a remuneração dos dois géneros. “Um Estado consciente é aquele que reconhece a necessidade de encorajar a promoção social para os mais pobres”, disse Valls.

Quanto à Europa, Valls mostra-se um pouco cético. A sua reforma é, para o socialista, essencial à sua sobrevivência. O candidato quer organizar uma “conferência refundação” que deve “criar as condições para um consenso essencial para a sobrevivência do projeto europeu”. Valls diz que todos os países são diferentes e que “uma Europa diferenciada, com base em diferentes círculos, deve deixar de ser um tabu” até porque a UE “não é um estado e não pretende se tornar um”. Quanto à adesão da Turquia à União: “não deve e não pode” aderir.

No plano da proteção social, Valls quer criar um “rendimento social digno”, criado pela “fusão de todos os suplementos de ajuda social, este rendimento digno será atribuído, tendo em conta, primeiro, os recursos de cada um, a qualquer pessoa com idade superior a 18 anos e residir legalmente no país.”

Outra medida interessante do manifesto é a promessa de que qualquer pessoas que tenha necessidade imediata a uma qualificação que lhe permita encontrar um emprego deve poder fazê-lo, imediatamente, através da garantia de pelo menos 400 horas de treino num centro de estudos ou escola profissional.