Cinema

“La La Land, Melodia de Amor”: mais calma com a dança

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O musical está nomeado para 14 Óscares e sete Globos de Ouro, mas há que pôr alguma água na fervura do entusiasmo em redor de "La La Land: Melodia de Amor". Eurico de Barros dá-lhe três estrelas.

Autor
  • Eurico de Barros

Do que Damien Chazelle, o realizador de “La La Land:Melodia de Amor” se lembrou, já a muitos outros, vivos ou mortos, esqueceu. E esses outros são Stanley Donen e Gene Kelly, Vincente Minnelli e Jacques Demy, entre os mortos, ou o Martin Scorsese de “New York, New York” e o Francis Ford Coppola “Do Fundo do Coração”, o musical que acabou de facto com os musicais (e com a produtora e as finanças do seu realizador). Por mais bem feito que “La La Land: Melodia de Amor” seja (estreia-se quinta-feira), trata-se de um decalque, de uma “segunda mão”, de uma aplicada e sentidíssima homenagem de um grande, autêntico e talentoso fã do género, mas que não lhe traz nada de novo. Ao contrário do que se tem para aí proclamado, dito e escrito, Chazelle não inventa coisa nenhuma, nem reinventa o musical para um novo século e uma nova geração. O máximo que faz é comprovar que o musical é um género extinto, tal como o “western”, e este filme é a saudade de uma alegria irrecuperável.

[Veja o “trailer” de “La La Land: Melodia de Amor]

Como explicar, então a histeria geral, o jacto contínuo de encómios, os recordes nas nomeações para prémios (sete Globos de Ouro, 14 Óscares, um novo recorde para um filme do género) em redor de “La La Land:Melodia de Amor”? Em parte, e primeiro, pelo desmesurado “hype” que tem vindo a ser criado em redor do filme desde a estreia no Festival de Veneza, a que aderiu o próprio director do certame, Alberto Barbera (que puxou a brasa à sua sardinha, claro), ao dizer que a fita punha o musical “num novo ponto de partida”; além desta cerrada promoção, deste contínuo “é o que está a dar”, amplificado sem o menor sentido da medida pelos media e pelas redes sociais, há a cada vez maior falta de memória (ou memória curta) cinematográfica de muitos jornalistas e críticos; e depois, e também muito importante, há uma massa de apreciadores há muito tempo sequiosa de um bom filme musical, e que acolheu este como se fosse o lince da Malcata do género. É preciso pôr alguma água na fervura.

[Veja a entrevista com o realizador Damien Chazelle]

Os dois primeiros filmes de Damien Chazelle já eram musicais ou tinham muito a ver com música, “Guy and Madeline on a Park Bench (2009), inédito em Portugal, e “Whiplash-Nos Limites” (2014), sobre o confronto em um jovem baterista de jazz e o seu exigentíssimo professor, e que ganhou três Óscares. Este “La La Land: Melodia de Amor” é como que o corolário dessas duas fitas, onde Chazelle se revela um profundo e exímio conhecedor dos temas e convenções formais, sentimentais, visuais e coreográficas do musical, que referencia e reverencia abundantemente. E até consegue pôr em tensão, sem deixar que a corda estale, o musical clássico, mais artificioso, elaborado e sempre feliz, dos tempos de glória da MGM, e o mais contemporâneo, pop e “naturalista” (os de Scorsese e Coppola), com uns tiques de teledisco aqui e ali. Este confronto é repercutido no próprio filme, através das personagens de Sebastian (Ryan Gosling), o pianista e purista irredutível de jazz, e de Keith (o músico e cantor John Legend), adepto do “mix” e da evolução.

[Veja a entrevista com Emma Stone]

A história de “La La Land: Melodia de Amor” é o “bê-á-bá” do género. Sebastian (Gosling) e Mia (Emma Stone, que leva o filme pela mão só com o olhar, a voz e a forma como se movimenta), uma empregada de café aspirante a actriz, conhecem-se em Los Angeles. Começam por embirrar solenemente um com o outro e acabam por se apaixonar, enquanto tentam, cada um por seu lado, chegar ao topo, ele abrindo um clube de jazz clássico, ela tornando-se numa “estrela”, e a certa altura vão ter que escolher entre o amor ou a realização dos seus sonhos através das carreiras (e não é difícil adivinhar como as coisas acabam). O que, pelo caminho, lhes dá, e ao filme, muito pano para mangas de cortar na casaca de Hollywood, a cidade do falso, da pose sem conteúdo, dos sonhos traídos ou perdidos e outros lugares-comuns do filme passado em Los Angeles sobre gente que quer vingar no mundo do entretenimento.

[Veja a entrevista com Ryan Gosling]

O filme tem um grande, descomunal, trunfo do seu lado. É uma bomba nuclear de cor, luz, alegria e movimento, rodado em película e Scope (perde muito, quase tudo, em ser visto noutro sítio que não numa sala de cinema) numa cidade onde o sol brilha sempre, surgindo a contrapelo destes tempos cinzentos e dos filmes carregados que eles têm gerado. Damien Chazelle escolheu actores que não são cantores nem bailarinos, o que dá um toque – deliberadamente – prosaico, terra-a-terra, às canções e às sequências de dança, mas evitando o desconchavo de um “Toda a Gente Diz que te Amo”, de Woody Allen. A belíssima sequência de dança anti-gravitacional com as estrelas no Observatório Griffith (o mesmo de “Fúria de Viver”), um dos pontos altos do filme, juntamente com a da visão da vida alternativa que Mia tem no final, vive, por isso, dos efeitos especiais, o que seria impensável num musical clássico.

[Veja aspectos da rodagem do filme]

É o óbvio e assolapado amor que Damien Chazelle vota ao musical, combinado com os seus dotes cinematográficos, o seu profundo conhecimento do género e a fervorosa sinceridade com que concebeu, elaborou e lhe enviou a arrebatada carta de amor que tem a forma de “La La Land: Melodia de Amor”, que evita que o filme seja apenas uma atarefada e calculista regurgitação de tropos, piscadelas de olho e clichés. Mas uma obra-prima do cinema musical, como quer o “hype” e por aí se anuncia? Nessa dança não vou.

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