São três letras apenas e o Presidente da República nunca as pronunciou ao jantar: P-S-D. No dia em que se celebrou um ano das eleições, 24 de janeiro, Marcelo Rebelo de Sousa realizou mesmo um jantar, como o Observador tinha noticiado, com os antigos coordenadores de campanha, na Messe da Força Aérea em Monsanto, mas foi omitido da agenda. Num discurso mais institucional do que o habitual, segundo contaram alguns dos presentes ao Observador, o próprio Marcelo terá admitido que foi “maçador na intervenção, ignorou o facto de estar perante dirigentes partidários, mas insistiu na tese de que é preciso que as “oposições sejam fortes.

De acordo com a agenda oficial do Presidente o encontro não se realizou: fez parte da parte da agenda que não é pública. Naquele dia, apenas houve três eventos: a receção aos candidatos que derrotou em 2o16, uma audiência com a central sindical CGTP e a apresentação do livro “Um ano depois”, na sua antiga sede de campanha, no nº528 da Rua da Junqueira (a antiga pastelaria Chique de Belém).

Na agenda oficiosa, estava então o encontro com os antigos mandatários e coordenadores, que incluía diversos dirigentes do PSD, uma estrutura com base no aparelho do partido que Marcelo nunca admitiu que estavam por detrás da sua máquina de campanha. O Presidente pediu aos convidados que estivessem em Belém às 18h30, tendo chegado uns minutos atrasado. O jantar era só às 20hoo, em Monsanto. No tempo que passou até lá, Marcelo autografou, um a um, vários exemplares do livro que acabara de lançar na mesma tarde. O Presidente ofereceu mais de 40 exemplares da obra “Um ano depois” (disponível online) aos seus antigos coordenadores. Ainda houve tempo para uma visita-relâmpago por algumas das salas do Palácio de Belém.

Ao jantar, veio o discurso. Marcelo, à semelhança do que tinha feito minutos antes na apresentação do livro com os jornalistas, terá optado por um discurso longo. Tanto no discurso como nos apartes, o Presidente “ignorou estoicamente o facto de nós sermos dirigentes do PSD, falou como se fôssemos todos independentes, pessoas absolutamente neutras, e todo o apoio tivesse surgido da sociedade civil“, contou um dos presentes ao Observador.

Marcelo começou por dizer que estava a fazer a “revisão da matéria dada”, fazendo um “balanço do último ano” e projetado o ano seguinte. Segundo fontes presentes, “não muito diferente do que fez publicamente.” O Presidente terá falado nos desafios da Europa, do equilíbrio das Finanças Públicas e da estabilidade política, voltando a lembrar que não existia quando chegou ao poder.

Fontes contactadas pelo Observador, falam de um discurso “politicamente correto” e “bastante mais formal do que é habitual”. O próprio Marcelo, contam as mesmas fontes, “pediu desculpa no final do discurso por ter sido maçador”. Sobre “o PSD propriamente dito, nem uma palavra, mas insistiu que quanto mais coesas forem as oposições melhor”.

O jantar realizou-se na Messe da Força Aérea em Monsanto, foi onde Marcelo Rebelo de Sousa almoçou com Marcello Caetano depois das eleições para a Assembleia Nacional em outubro de 1969. O presidente do Conselho convidou Marcelo, então com 20 anos, e outros jovens em quem confiava como João Salgueiro, Freitas do Amaral, Miguel Galvão Telles, Jorge Tavares Rodrigues e Caetano Carvalho. Marcello Caetano queria ouvir o “esclarecido jovem Rebelo de Sousa” e os restantes sobre a criação de partidos políticos em Portugal. Todos disseram que sim. O agora Presidente da República terá defendido “a criação de associações cívicas, que a seu tempo evoluíssem para partidos políticos.”