Nome: “As Afinidades Electivas”
Autor: Johann Wolfgang Goethe
Editora: Bertrand Editora
Páginas: 320

goethe capa

O enredo de As Afinidades Electivas é simples: Charlotte e Otto Eduard, que se amam desde a juventude, casam em segundas núpcias e vão viver para um lugar relativamente isolado, onde planeiam viver sossegadamente o resto dos seus dias, para assim recuperarem o tempo perdido. Algum tempo depois, por insistência de Eduard, junta-se ao casal Ottilie, a sobrinha de Charlotte, e um velho amigo de Eduard, que também se chama Otto, mas que o narrador trata por ‘capitão’. Desta convivência amigável, nascem dois novos amores: o que une Charlotte ao capitão e o de Eduard e Ottilie.

Há, no entanto, nesta aparente trivialidade, uma complexidade que pode ser melhor compreendida à luz do interesse de Goethe pela filosofia da ciência e pelas inovações no ramo da química no princípio do século XIX. Goethe trata as personagens do seu romance exactamente como se fossem minerais ou agentes químicos colocados em interacção uns com os outros, o que deixa o escritor aparentemente na posição de um cientista que observa de fora o produto da sua experiência, e por isso mesmo faz sentido falar de experimentalismo a propósito de As Afinidades Electivas.

Goethe, que vê os homens como criaturas que permanecem no essencial “inalteradas e inalteráveis” (página 297) ao longo da vida, reagindo apenas àquilo que lhes acontece, limita-se a acrescentar a um ecossistema estável (o casal) um homem honrado e trabalhador, sempre preocupado com as aparências e com o dever, e uma jovem delicada e inocente, e, como se nos quisesse convencer de que a sua escrita é apenas o desencadear de um efeito dominó, senta-se à espera de ver o que daí resulta.

Ao fazer isto, Goethe não só gera o desequilíbrio no ecossistema descrito no primeiro parágrafo deste texto como consegue realçar o carácter de Charlotte e, essencialmente, o de Eduard, que corria o risco de permanecer dissimulado. Eduard começa por nos parecer um homem delicado e atencioso, mas cedo se percebe que o marido de Charlotte “não estava habituado a renunciar ao que quer que fosse” (página 37), sendo a partir das suas acções que o caos absoluto que encontramos no fim da obra nascerá.

Eduard, cego pela vontade de fazer o que bem lhe apetece, despreza a preocupação de Charlotte com a introdução do capitão na vida quotidiana do casal, argumentando que este acrescento só seria perigoso “com pessoas que vivem cegamente, mas não com as esclarecidas pela experiência, que têm mais consciência de si” (página 35). Ao ver que, ainda assim, Charlotte se mostra relutante, Eduard lamenta-se e sugere que trazer o capitão para casa iria “fechar em certa medida toda a sua existência” (página 38). É da ilusão de que o seu mais recente capricho é o último que abnegadamente solicita à vida que Eduard se alimenta, sendo que esses favores, aliás sempre concedidos, vão apenas conduzir passo a passo todas as personagens à tragédia final.

Eduard quer, ainda antes do romance começar, que a sua mulher e o marido de Charlotte morram; depois, que Charlotte queira casar consigo; depois, que o Capitão se junte a eles; depois, que Ottilie o ame; e que Charlotte queira ter relações sexuais consigo; e que se lance fogo-de-artifício no aniversário de Ottilie logo a seguir a, graças à sua imprudência, uma criança quase ter morrido afogada; e que Ottilie o beije; e que Ottilie fique; e que Charlotte o deixe; e que o capitão queira casar com Charlotte, ainda que isso não seja a vontade nem do capitão nem de Charlotte; e que o seu próprio filho morra e, finalmente, que Ottilie o receba. Eduard quer isto tudo e sugere várias vezes que estes seus desejos são os últimos que precisa de ver cumpridos e que só os deseja por abnegação e altruísmo. E, para seu grande infortúnio, tudo lhe é concedido.

No seu único momento lúcido, Eduard, em conversa com Mittler, o mediador de conflitos da zona, amaldiçoa os felizes como Mittler, porque esperam de um infeliz como Eduard apenas espectáculo, esperam que se comporte com nobreza nas maiores dificuldades e nas maiores angústias e que, na altura da sua morte, “tombe diante dos seus olhos com dignidade, como um gladiador” (página 156). Se esta crítica aos felizes nos parece sensata, Eduard estraga tudo logo de seguida quando se tenta descrever a si próprio não como um destes infelizes numa angústia tão grande que deixam de saber comportar-se nobremente mas antes como um gladiador que faz o que altos valores morais lhe ordenam.

Recorrendo ao seu simplismo característico, Eduard explicará a Mittler, nessa mesma conversa, que a escolha que tem que fazer, ao ter que optar entre Charlotte e Ottilie, é entre a miséria e o prazer. O que Goethe tenta mostrar em As Afinidades Electivas é que as coisas são muito mais complicadas do que isso, uma vez que não existe nenhum caminho que evite a miséria nem nenhuma maneira de obter prazer, o que se torna evidente quando analisamos a fundo um episódio relativamente lateral do romance.

Quando Eduard e Charlotte se casam, têm como projecto de vida a escrita das memórias de Eduard, sendo que, para isso, Charlotte se tornaria na sua secretária e dactilógrafa. Alguns meses após a chegada de Ottilie, encontramos esse projecto travestido na cena em que a sobrinha de Charlotte transcreve arduamente um contrato de venda de uma granja, empenhando-se tanto em copiar bem o texto de Eduard que copia inclusivamente a sua caligrafia. Este parece ser o grande problema d’ As Afinidades Electivas: a escolha entre uma empatia tão tremenda que torna um membro do casal indissociável do outro e uma relação com um escopo maior, em que o projecto de vida não visa um objectivo meramente terreno (no duplo sentido da expressão), mas antes a criação de uma vida a longo prazo.

Visto à luz disto, torna-se claro que, mais do que para forçar o paralelo entre processos químicos e relações humanas, a escolha de uma variação de um mesmo nome (Otto, Charlotte e Ottilie) para todas as personagens serve para explicar o que Goethe quis dizer quando afirmou, numa carta que João Barrento cita no prefácio, que “em As Afinidades Electivas não há uma única linha que eu próprio não tenha vivido”, apontando para a universalidade de um problema em que somos sempre alternadamente o capitão honrado e sério, a mulher determinada e perseverante, o mediador que, de cima, todos julga e condena, ou o pateta que faz o que lhe apetece.

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