Atenção, muita atenção, hoje é dia de abrir o dicionário de minhotices. Tupenear? Adormecer. O que significa “dala”? Lava-loiça. Sostra? Pessoa sem presença de espírito. Trugalhona? Desastrada. Insensar? Atrapalhar. Saraiva? Chuva gelada. Côca? Tola, esquecida. Murrinha? Chuva miudinha. Criquices? Coisas sem importância. Escachado? Aberto. Peteiro? Mealheiro. Borra-botas? Zé-ninguém. Broeiro? Rude. Benda? Mercearia. Carcela? Braguilha. Fox? Lanterna. Chaço? Máquina velha. Telhudo? Teimoso. Sendeiro? Trapaceiro. Brunir? Passar a ferro. Lorpa? Pessoa pouca dinâmica, sem ambição. Bolas, é de ficar com a testa encurricada, não é? Encurriquê? Encurricada. Dobrada, portanto.

Bem-vindo ao mundo minhoto, abram alas para a final da Taça da Liga no Algarve, entre Braga e Moreirense. Pela primeira vez em dez edições, a classe média do futebol português está duplamente representada numa decisão. É um dia histórico, bonito, inesquecível. Caramba, uma final sem os três grandes é tão raro que merece uma celebração a sério (só para se perceber a ideia, a última data de 1999, entre Beira-Mar e Campomaiorense). Vá, que se encham os comboios, os Alfas e os outros, para cruzar o país e entrar na festa. Ao todo, qualquer coisa como 600 quilómetros.

Braga e Moreirense, duas equipas com um ponto em comum na época 2016-17: três treinadores. O Braga começa com José Peseiro, continua com Abel (aquele 1-0 em Alvalade) e desagua com Jorge Simão. Já o Moreirense arranca com Pepa, muda para Leandro Mendes e assenta com Augusto Inácio. É este senhor que comete a proeza de eliminar o Porto na fase de grupos (1-0 em Moreira de Cónegos) e o Benfica nas meias-finais (3-1). Agora o céu é o limite. O Moreirense está numa final. Brilhante, fantástico. O Braga também, verdade seja dita. Só que o Braga tem todo um histórico de categoria nacional e até internacional. Veja-se lá bem, é a única equipa portuguesa a ganhar os dois primeiros jogos na UEFA (1-0 e 3-2 vs AEK Atenas em 1966-67). E é o clube com mais anos seguidos de 1.ª divisão, à excepção dos três grandes (desde 1975-76). Então e o Moreirense? Cabe-lhe a honra de estar escarrapachado no currículo do melhor do mundo. Com Manuel Machado ao leme, o Moreirense é campeão da zona norte em 2001 e depois da 2.ª divisão em 2002. Honra que lhe vale a estreia na 1.ª divisão. Às tantas, na noite de 7 Outubro 2002, a visita a Alvalade reveste-se de história pelo slalom de Ronaldo para o 2-0. É o primeiro golo profissional de Cristiano.

Braga e Moreirense, outro ponto em comum: duas equipas da Associação de Futebol de Braga. Espectáculo. Quer dizer, uma final entre equipas da AF Lisboa é como os chapéus do Vasco Santana na Canção de Lisboa: há muitas. A primeira de todas é um Benfica-Belenenses em 1940. Segue-se todo um ziguezaguear impressionante entre Benfica-Sporting, Sporting-Belenenses, Benfica-Estoril, Sporting-Atlético e Benfica-Atlético. Ao todo, 17 finais entre Taça de Portugal (16) e Taça da Liga (1). Em 1961, a AF Porto entra ao barulho nesta estatística com o FCP-Leixões. Em 1984, há o FCP-Rio Ave. E em 1992, o FCP-Boavista. Agora, em pleno século XXI, saúdem a AF Braga.

Braga e Moreirense, juntos e ao vivo. Quem será o campeão de Inverno? A julgar pela época 2016-17, o Braga – vencedor do único jogo da época, a 22 Dezembro, com golos de André Pinto, Dramé e Ricardo Ferreira na Pedreira (2-1). A julgar pelo balanço de sempre, o Braga – em 15 jogos, oito vitórias e só uma derrota (Jorge Jesus 2 Jesualdo Ferreira 1 em Maio 2005). Braga e Moreirense, que delírio da massa associativa. Já agora, quando se inicia a teima entre eles? Somos obrigados a dar uma cambalhota até sábado, 21 Novembro 1987. É a 3.ª eliminatória da Taça de Portugal, no 1.º Maio. O Moreirense, recém-promovido à 2.ª divisão, zona norte, via-2.º lugar na série A da 3.ª, joga com 11 portugueses. No outro lado, o Braga de Manuel José reúne dois búlgaros (o guarda-redes Velinov e o maestro Kostadinov, que não esse mais mediático), cinco brasileiros, um cabo-verdiano e, vá, três portugueses (todos defesas: Carlos Carvalhal, Toni e Ernesto). Ao intervalo, 0-0. No fim, 3-0. Golos de Gersinho (61′), Santos (64′) e Sérgio Paulo (78′, na própria baliza). Daí para cá, mais 14 jogos. O de hoje é o 16.º e mais decisivo de sempre. Quem ganhar, leva a Taça. E os tais 600 quilómetros passam a correr, com um grande basqueiro. Basquê? Basqueiro = barulho. É a festa da Taça, é a alegria do Minho.