Não querem fazer (já) oposição a Passos Coelho, mas mantêm a sua esfera de influência para no futuro terem uma palavra a dizer no PSD. Seja como candidatos a líder ou não, José Eduardo Martins, Pedro Duarte e Pedro Rodrigues têm em comum o facto de terem sido líderes ou dirigentes nacionais da JSD, serem desalinhados (e muitas vezes críticos) do atual líder e terem marcado terreno no PSD nos últimos dias. José Eduardo almoçou na quinta-feira com Passos e deu uma entrevista à Antena 1; Pedro Duarte juntou, no mesmo dia, deputados, presidentes de distritais e ex-governantes num jantar em Lisboa; Pedro Rodrigues convidou todos os ex-líderes para conferências do movimento que criou como alternativa à linha da direção nacional.

Pedro Duarte foi líder da JSD e secretário de Estado da Juventude, mas tem andado afastado dos cargos do partido, dedicando-se à sua vida profissional como diretor da Microsoft. Na última quinta-feira organizou um jantar em Lisboa, no qual participaram várias figuras do aparelho social-democrata, como o antigo presidente da concelhia do Porto, Ricardo Almeida ou o presidente do Núcleo Ocidental do Porto, Luís Osório (reeleito em novembro, tendo Rui Rio e Aguiar-Branco como subscritores da lista) ou líderes distritais próximos de Passos como Bruno Vitorino (Setúbal) ou Pedro Alves (Viseu). O deputado Emídio Guerreiro e antigo secretário de Estado do Desporto, também não faltou à chamada do “grupo de amigos”.

Fonte que participou no jantar garante ao Observador que “não está a ser preparado nada subversivo, nem contra o Passos, é um jantar de um grupo de amigos que se reúne trimestralmente”. Mas acrescenta que “estando juntos é mais fácil intervir um dia no partido, quando for caso disso“. Pedro Duarte voltou a ganhar um élan no partido ao ter sido diretor da campanha vitoriosa de Marcelo Rebelo de Sousa nas Presidenciais, que, aliás, fez com que reforçasse a sua rede no aparelho “laranja”. Outra fonte presente desvaloriza: “Temos um grupo no WhatsApp, onde vamos lançando as nossas larachas e, de vez em quando, marcamos um jantar. Não somos um movimento.”

Ex-líderes convidados para dar conferências

Entretanto, vão surgindo outras movimentações internas, como o movimento “Portugal Não Pode Esperar”, lançado em outubro pelo antigo líder da JSD, Pedro Rodrigues, que tem reunido mensalmente o grupo de 45 militantes e que incluem autarcas, presidentes de concelhias, atuais e antigos dirigentes nacionais da JSD e do PSD e atuais e antigos deputados e ex-membros do Governo.

Pedro Rodrigues conta ao Observador que, nas últimas semanas, o grupo tem estado a escolher os “coordenadores dos grupos de trabalho”, não anunciando ainda quem são porque quer “apresentá-los todos de uma vez”. Embora assuma que há antigos governantes a coordenar esses grupos: “Há ex-secretários de Estado que são coordenadores”.

A primeira fase de ação do movimento foi criar grupos de trabalho. A segunda, será organizar conferências e debates. Entretanto, Pedro Rodrigues já convidou todos os ex-líderes do PSD para darem conferências, o que inclui nomes como Manuela Ferreira Leite, Luís Filipe Menezes, Luís Marques Mendes, Pedro Santana Lopes, Durão Barroso, Marcelo Rebelo de Sousa, Fernando Nogueira ou Cavaco Silva. “Estamos neste momento a negociar datas com alguns que já aceitaram”, explica o antigo presidente da JSD.

Pedro Rodrigues não sabe se, por exemplo, Marcelo aceitará o convite, já que é “Presidente da República, não deve querer participar em ações partidárias, mas também é imprevisível e, por isso, nos convites não foi feita qualquer distinção: foram todos convidados.”

O ciclo de conferências não deve, no entanto, ser visto como um incentivo à crítica à liderança. Para evitar essa leitura, Pedro Rodrigues já conversou pessoalmente com Passos Coelho sobre o assunto e convidou-o para encerrar o ciclo de conferências. O presidente do PSD aceitou.

Quem também foi a jogo esta semana foi o antigo secretário de Estado do Ambiente, José Eduardo Martins. Começou por uma entrevista à Antena 1 onde disse que, se estivesse no lugar de Passos Coelho, se demitiria caso perdesse as eleições autárquicas. José Eduardo Martins disse também que não tinha “apoiantes, nem claques, nem aparelho”. E acrescentou: “Nem ando a fazer o roteiro da carne assada”. Ainda assim, as suas intervenções públicas posicionam-no para o futuro.

No mesmo dia em que deu a entrevista à Antena 1, almoçou com Passos Coelho na qualidade de coordenador do programa autárquico em Lisboa. Voltou aos holofotes, pois foi noticiado que teria sido sondado para candidato à câmara municipal, o que desmentiu na mesma tarde.

Os três ex-dirigentes da jota vão marcando terreno no PSD. Não para agora, mas para manterem alguma visibilidade pública e influência no aparelho para quando se colocar a questão da sucessão ao líder. Seja em 2017 (ano de autárquicas), 2018 (ano de Congresso) ou 2019 (ano de legislativas). Mantêm-se ativos, como diz uma das expressões mais utilizadas por Passos Coelho, “para futuro”