Se os governos se lembrassem de taxar as pessoas que sofrem de distúrbio de múltiplas personalidades como uma pessoa colectiva, Kevin Crumb, o perturbado protagonista de “Fragmentado”, o novo filme de M. Night Shyamalan ia à ruína num abrir e fechar de olhos. Crumb tem dentro de si nada mais nada menos do que 23 identidades diferentes, que se vão manifestando à vez, cada qual com o seu tempo de antena gerido por uma delas, Barry, um homossexual estudante de moda. Só que três das identidades, Dennis, um tipo patibular obcecado com a limpeza e a arrumação, Patricia, uma senhora inglesa afectada e sinistra, e Hedwig, uma miúda irritante, começam a sobrepor-se às outras, pondo-se ao serviço de uma 24ª, anunciada como possuindo poderes sobrehumanos. É para esta, chamada A Besta, consumar um ritual quando da sua chegada, que Dennis rapta três raparigas e as fecha num subterrâneo.

[Veja o “trailer” de “Fragmentado”]

A carreira de M. Night Shyamalan, que tão precipitada como tolamente foi apelidado de “O novo Spielberg” por publicações como a “Newsweek” apenas devido aos seus dois primeiros filmes que tiveram sucesso, “O Sexto Sentido” (1999) e “O Protegido” (2000), tem andado numa jiga-joga de picos e buracos, sendo que bateu na subcave com a execrável fantasia “O Último Airbender” (2010) e a ficção científica “Depois da Terra” (2013), um risível “projecto de vaidade” de e com Will Smith e o filho. Após o apenas curioso “A Visita” (2015), onde Shyamalan voltou a recorrer ao efeito que o tornou célebre (o “twist” final, a surpresa que fecha e esclarece a história) e chegou a ser copiado nos tempos em que o autor de “A Vila” era a sensação do momento em Hollywood, o realizador parece querer regressar aos bons velhos tempos com “Fragmentado”.

[Veja a entrevista com M. Night Shyamalan]

https://youtu.be/yTCTYPhbmy4

É que o cinema de Shyamalan não se limita nem sem esgota no tique do “twist” final. Os seus melhores filmes são devedores, nas atmosferas, na estrutura e na forma de criar “suspense” e construir o medo mostrando pouca coisa e deixando-nos a especular sobre o que poderá estar oculto, de séries de televisão clássicas do género como “The Twilight Zone”, bem como da tradição do cinema de série B fantástico e de terror, que é boa e longa nos EUA. Rodado numa Filadélfia invernosa, “Fragmentado” volta a ser um filme de Shyamalan com todos esses paladares, ambientes e essas características, um “thriller” psicológico sombrio que evolui para o sobrenatural e está mais dependente das personagens, das interpretações e da construção narrativa, do que de efeitos especiais (e desta vez, surpresa! há não um mas dois ou três “twists” finais).

[Veja as entrevistas com James McAvoy e Anya Taylor-Joy]

Aproveitando uma oportunidade para brilhar que os actores raramente têm quando lhes é proposto um “tour de force” destes, James McAvoy atira-se que nem gato a bofe às várias identidades de Kevin e sai-se muito bem. Isto embora, devido ao seu ar juvenil, lhe seja mais difícil projectar ameaça e medo quando está na pele de Dennis, e os efeitos especiais lhe façam muito jeito quando a Besta finalmente se manifesta. Mas nem por isso a veterana Betty Buckley no papel da terapeuta de Kevin, e que serve de “explicadora” aos espectadores da condição deste e da luta de poder entre as várias identidades, nem a jovem Anya Taylor-Joy (já vista no magnífico “A Bruxa”), que faz de Casey, a mais inteligente e arguta das três reféns, que tenta pôr em conflito as identidades de Kevin e tem um segredo trágico de família que a ajuda a lidar com o(s) seu(s) captor(es), ficam na sombra da multi-interpretação de McAvoy.

[Veja a entrevista com Betty Buckley]

https://youtu.be/yEMIm4N05nw

É uma coincidência bastante curiosa que seja com “Fragmentado”, um filme sobre um homem com uma personalidade pulverizada, que M. Night Shyamalan esteja a recuperar a sua identidade de cineasta com vocação privilegiada para o fantástico e o terror, “realista” ou sobrenatural. Uma boa notícia para quem é entusiasta destes géneros, cada vez mais maltratados pelos açougueiros do “gore” e pelos trambiqueiros do choque a martelo.