É costume apontar-se o 21 de junho como o dia mais longo do ano, só que, calma lá, isso até nem é bem assim. Basta passar ciclicamente os olhos pelo 31 de janeiro, o último do mercado de Inverno. Que trabalheira, chi-ça. É um entra e sai danado, um carrossel de emoções sem igual. Em Portugal, tudo começa em 1993. É o Porto o pioneiro nesta dança da estação, na contratação de Ljubinko Drulovic ao Gil Vicente. “E eu que era só para passar cinco ou seis dias em Portugal”, relembra o extremo jugoslavo.

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Em julho 1992, Drulovic aterra, por assim dizer, em Barcelos, oriundo de Belgrado, via Rad. “Era Verão e tempo de experiências. O Gil Vicente quis testar-me e acabei por ficar. Veja lá o que aí construi”, graceja Drulo, em relação aos 14 títulos nacionais (cinco campeonatos, quatro Taças e cinco Supertaças), todos conquistados pelo FCP, embora também tenha vestido a camisola do Benfica entre 2001 e 2003, sem esquecer ainda o Penafiel, em 2004. Na primeira época pelo Gil, o pé esquerdo de Drulo assina dez golos em 34 jogos. Na segunda, de Agosto a Novembro 1993, mais sete em 14, o que motiva o interesse do FCP, então sem pedalada para o ritmo de Benfica e Sporting. Com a inovação da reabertura das inscrições, o FC Porto é o único grande a atirar-se de cabeça ao mercado. Primeiro, Drulovic. Depois, Bobby Robson. A aliança rende golos e o Porto acaba mesmo o campeonato em segundo lugar, à frente do Sporting, no tal ano do 6-3.

Nesse curto período de dezembro a maio (em 1993, e até 2002, o mercado só abria em dezembro), Drulovic marca 11 golos, mais que Kostadinov e Domingos, os seus companheiros de ataque. Mais tarde, viria Jardel, com quem Drulovic se entende de olhos fechados, à base daqueles cruzamentos com a parte exterior do pé esquerdo, porque, como diz amiúde, jogava “muito pouco com o direito”. Depois de Drulovic, vieram mais de 150 jogadores para os três grandes no mercado de Inverno. Alguns, vá, melhores que Drulo com o pé direito, nenhum melhor com o esquerdo. No ano seguinte, só o Benfica se mexe no Inverno, através do brasileiro Paulo Pereira. O Sporting, quietinho, estreia-se finalmente em 1995, com o trio Peixe, Skuhravy (aquela bola à trave em Chaves, uisch) mais Mauro Soares. Daí para a frente, é um forrobodó. O ano mais intenso de sempre é o de 1997, com sete sportinguistas, cinco benfiquistas e dois portistas. Até hoje, há mais flops que tops. Basta mencionar os nomes começados por capa: Kandaurov, Koke e Kaviedes,

Falemos só dos tops. No Sporting, a figura maior é André Cruz. Em 1999, o central brasileiro chega a Alvalade ao mesmo tempo de Mpenza e César Prates para festejar o 1-0 ao Porto (livre directo) e o bis em Vidal Pinheiro, no jogo do título de campeão nacional, o primeiro ao fim de 18 anos. O destaque do Porto é Deco. Quer dizer, o homem entra nas Antas em 1998, juntamente com Esquerdinha e Baía, para mudar o futebol. Do Porto, sim, e também o de Portugal. Desde o Euro-2004 até ao Mundial-2010, a selecção nacional está dependente da superior categoria do brasileiro, um digno 10 aqui e em qualquer parte do mundo (Barça, Chelsea e Fluminense confirmam-no em absoluto). Então e o Benfica? Há Poborsky, Tiago e até David Luiz (que negócio das Arábias: dos 500 mil euros via-Vitória até aos 25 milhões para o Chelsea). Só que há Nuno Assis. Em 2005, o Benfica vai buscá-lo ao Vitória SC e a vida de Trapattoni muda para melhor. Com dois golos e quatro assistências, Nuno Assis é o jogador ideal para ajudar Petit cá atrás e Simão + Geovanni + Nuno Gomes + Mantorras lá à frente.

Como é este ano, então? Drulovic, tranquilo – renovas o estatuto de “rei do inverno” até janeiro de 2018. O Porto vai buscar Soares ao Vitória SC e o Sporting recupera Gauld, Podence mais Geraldes ao Moreirense (fazem o caminho inverso, o brasileiro Wallyson e o angolano Ary Papel) enquanto o Benfica saca Pedro Pereira à Sampdoria, Hermes ao Grémio e ainda Filipe Augusto ao Rio Ave. Zero atrevimento. Sinal dos tempos. Na arte de despachar serviço, o Sporting varre Meli, Petrovic, Elias e Markovic, todos eles reforços do Verão.

Em contraponto com a escassez de dinamismo dos três grandes, o Estoril. Semi-finalista da Taça de Portugal e 16.º classificado da 1.ª divisão, a equipa quer entrar na linha com o avançado Licá (Nottingham Forest) e o central Gonçalo Brandão (Belenenses). E o que dizer do trajecto Braga-Boca Juniors de Óscar Benítez (sem passar pela casa de partida)? Ah poizeeeee, o argentino do Benfica passa de jogar na Pedreira para a Bombonera. Um salto jeitoso na carreira. Tal como o de Xeka, do Braga para o Lille, e o de Sérgio Oliveira, sem lugar no FCP de Nuno para o Nantes de Conceição.

Lá fora, a movida é mais intensa. Pudera. A grande sensação é Jesé Rodríguez. No Verão, o suplente mais eficaz do Real Madrid aventura-se no PSG e não se consegue impôr ao ponto de pedir a transferência para voltar ao que era. O Liverpool atravessa-se-lhe no caminho. Uauuuu, está feito. Ou…? Pois, Jesé é um rapaz nascido e criado em Las Palmas. Vai daí, força a saída para o clube da sua cidade. O amor genuíno acaba por vencer e é ver Jesé de amarelo vestido, mais orgulhoso que nunca. Na sua apresentação, a sala de imprensa é pequena para a invasão de mil adeptos. E a bancada central do estádio enche-se.

Ainda em Espanha, há o caso de Roman Zozulya. O homem acorda em Sevilha, como jogador do Betis (13.º lugar da 1ª divisão espanhola), e é informado da transferência para o Rayo Vallecano (17.º classificado da 2.ª divisão). Às tantas, perto da hora do jantar, o negócio vai abaixo por culpa das convicções políticas do avançado ucraniano (um fervoroso adepto da ultra-direita). Desejoso de jogar, Zozulya escreve uma mensagem aos adeptos do Rayo a esclarecer o mal-entendido. Que não, não é um neo-nazi. O Rayo lê, aceita e dá-se a reviravolta no último instante.

A movida dos três grandes no Inverno

1993-94
Drulovic (FCP)

1994-95
Paulo Pereira (SLB)

1995-96
Mauro Airez (SLB), M. Soares, Peixe e Skuhravy (SCP), Quinzinho e Matias (FCP)

1996-97
Akwá, Amaral, Glenn Helder, Hadrioui, Ronaldo, Tiago e Valdir(SLB), Ramirez e Saber (SCP), Butorovic e Silvino (FCP)

1997-98
Amaral, Deane, Kandaurov, L. Carlos e Poborky (SLB), Assis, Edmilson, Damas, Leão, Patacas, Paulo Alves e Renato (SCP), Doriva e Secretário (FCP)

1998-99
Cadete, Charles, Harkness e Saunders (SLB), Acosta, Heinze, Marcos e Nené (SCP), Esquerdinha, Deco e Baía (FCP)

1999-2000
João Tomás, Machairidis, Sabry e Uribe (SLB), André Cruz, Afonso Martins, Mpenza, Spehar e César Prates (SCP), Caju e Clayton (FCP)

2000-01
André, Ednilson, Ricardo Esteves, Roger e Rui Baião (SLB), Caceres e Tello (SCP); Folha(FCP)

2001-02
Armando, F. Aguiar, Tiago e Jankauskas (SLB), Nalitzis (SCP), Kaviedes e McCarthy (FCP)

2002-03
Bossio, Geovanni e Vasco Firmino (SLB), João Paulo (SCP), Marco Ferreira (FCP)

2003-04
Fyssas e Thornton (SLB), Tinga (SCP), Carlos Alberto, Maciel e Conceição (FCP)

2004-05
André Luiz, Delibasic e Nuno Assis (SLB), Mota (SCP), Cláudio Pitbull, Ibson, Leandro, Leandro Bomfim e Léo Lima (FCP)

2005-06
Robert, Manduca, Marcel, Marco Ferreira e Moretto (SLB), Abel, Caneira, Koke e Romagnoli (SCP), Adriano e Anderson (FCP)

2006-07
David Luiz e Derlei (SLB), Pereirinha (SCP), Mareque e Rentería (FCP)

2007-08
Makukula, Sepsi (SLB), Tiuí e Grimi (SCP), Hélder Barbosa e Rabiola (FCP)

2008-09
Cissokho e Madrid (FCP)

2009-10
Kardec, Airton e Éder Luís (SLB), Addy e Rúben Micael (FCP), Pongolle, João Pereira, Mexer e Pedro Mendes (SCP)

2010-11
Iturbe (FCP), Carole e José Luis Fernández (SLB)

2011-12
Janko, Danilo, Lucho (FCP), Xandão (SCP)

2012-13
Izmailov, Liedson, Fucile e Souza (FCP), Miguel Lopes (SCP)

2013-14
Quaresma (FCP), Heldon e Shikabala (SCP)

2014-15
Hernâni (FCP), Jonathan Rodríguez (SLB), Ewerton (SCP)

2015-16
Marega e Suk (FCP), Grimaldo e Jovic (SLB), Coates, Marvin, Barcos e Rúben Semedo (SCP)