Uma espécie de “cartão amarelo”, sem que seja exatamente claro o que pode acontecer se houver um “cartão vermelho”. O Irão está “formalmente sob aviso”, avisou Donald Trump, depois do lançamento do míssil balístico num teste feito no domingo por Teerão. O Presidente dos EUA foi-se deitar com o Twitter ligado (para falar do acordo com a Austrália sobre os refugiados) e, mal acordou, voltou à rede social para se dirigir ao Irão dizendo que o país devia estar “grato” aos EUA pelo acordo nuclear celebrado com Barack Obama, em 2015, numa altura em que o Irão estava prestes a dar o “último suspiro”.

Depois de criticar o “acordo idiota” celebrado por Barack Obama com Austrália, sobre os refugiados, Trump considerou “horrível” outro acordo liderado pelo seu antecessor: o acordo nuclear com o Irão. Um acordo que, para o novo Presidente dos EUA, correspondeu a pouco mais do que uma linha de crédito de 150 mil milhões de dólares. O Irão “devia estar grato” aos EUA, em vez de estar a disparar testar mísseis (algo que pode ter sido uma violação da resolução das Nações Unidas que foi redigida após o acordo nuclear Washington-Teerão).

A Casa Branca está a estudar como reagir ao lançamento do míssil balístico, que o Irão garante não ser uma violação da resolução da ONU, e os especialistas dizem que pode haver novas sanções económicas a Teerão, o que seria um passo atrás em relação ao acordo celebrado em 2015 e que pôs fim a essas mesmas sanções. A iniciativa de Teerão e a retórica de Trump levam a crer que podem acentuar-se novamente as tensões entre os EUA e o Irão e, também, no seio do Médio Oriente.

Na quarta-feira, o principal conselheiro de Trump, o controverso Michael Flynn, foi à sala de imprensa da Casa Branca para falar sobre a questão iraniana. Flynn garantiu que “a postura das forças armadas norte-americanas em relação ao Irão, na sequência do lançamento teste do míssil”, mas deu sequência às críticas de Trump de que o Irão devia estar grato aos EUA. Pelo contrário, disse Flynn, o Irão está a sentir-se “empolgado”.

Além do lançamento do míssil no domingo, houve também, na segunda-feira, um ataque a um navio saudita à costa do Iémen — um ataque promovido por militantes afetos ao regime iraniano. Os dois acontecimentos demonstram “o comportamento desestabilizador” do Irão naquela região, asseverou Michael Flynn.

Em resposta, um dos principais conselheiros do Líder Supremo Ayatollah Ali Khamenei garantiu que o Irão não vai amedrontar-se às “ameaças” norte-americanas. “Esta não é a primeira vez que uma pessoa inexperiente ameaça o Irão. O Governo norte-americano vai perceber que ameaçar o Irão é inútil”, afirmou o conselheiro, Ali Akbar Velayati, acrescentando que “o Irão não precisa da autorização de qualquer país para se defender”.

Citado pela Reuters, Simon Henderson, um especialista em geopolítica do Washington Institute for Near East, diz que, além da retórica, será importante perceber qual é a estratégia efetiva do Irão. Pode acontecer uma de duas coisas, diz o especialista: “O Irão pode pensar oh meu deus, este tipo está a falar a sério, mais vale nós nos comportarmos” ou, em alternativa, pode pensar porque é que não o provocamos um pouco mais, para ver exatamente até onde ele está disposto a ir“.