A Federação Europeia para os Transportes e Ambiente, conhecida por Transport & Environment (T&E) levou a cabo um estudo para apurar a dimensão a que podem chegar as diferenças entre o consumo homologado e o consumo que efectivamente se consegue obter em circunstâncias reais de utilização com um determinado automóvel. Para tal, o organismo europeu partiu dos valores homologados pelos fabricantes e comparou-os com os ensaios realizados pelo Conselho Internacional para o Transporte Limpo (ICCT, na sigla em inglês.) E mais: juntou ainda à análise os dados recolhidos por milhares de condutores no site/app Spritmonitor.

Com base nessa significativa amostra de modelos, a T&E concluiu que o aumento das discrepâncias entre o consumo real e o homologado disparou nos últimos anos, com a diferença média a situar-se actualmente nos 42%.

Na prática, significa isto que, em média, cada condutor está a gastar mais cerca de 550 euros do que aquilo que deveria desembolsar, tendo em conta o consumo homologado. Mais: para se ter uma ideia mais concreta de até que ponto esta diferença se agudizou nos últimos tempos, basta recordar que, há 16 anos, a discrepância entre o consumo real e o homologado andava na casa dos 9%

Considerando os dados por fabricante, o estudo conclui que a Fiat é a marca que melhor fica nesta fotografia, com uma diferença de 35%. No extremo oposto encontra-se uma marca premium, a Mercedes, cuja discrepância entre consumo real e consumo homologado chega a superar 56%. Sim, leu bem: 56%. No caso, com os Classe A e Classe E, se bem que o Classe C (o bestseller da marca) não seja muito melhor: 54% (sendo este, de resto, o valor médio da discrepância detetada pela T&E nos modelos da marca da estrela).

Acha mau? Prepare-se que vai piorar

Já (quase) todos nós sabemos que, entre aquilo que é anunciado pelas marcas, em termos de consumo, e aquilo que é a nossa experiência real de utilização de um carro, há uma diferença. Sucede que esse desvio tende a ser cada vez maior e a coisa não vai melhorar, antecipa o relatório da T&E.

Se, em 2001, a discrepância entre consumo real e consumo homologado era de 9%, de 2012 para 2015, saltou de 28 para 42%. Com o organismo europeu a prever que, em 2020, a diferença média vai ser de 50%.

Esta antevisão baseia-se na continuidade da aplicação do actual ciclo de testes, o New European Driving Cycle (NEDC). Porém, se ao invés dos critérios considerados pelo NEDC for aplicado o World Light Duty Test Cycle and Procedures (WLTP), o cenário muda. E bastante. Nesse caso, perspectiva a I&T que, em 2020, as diferenças entre consumo real e consumo homologado baixariam para 23%. Ou seja, menos de metade da discrepância oferecida pelo ciclo NEDC.

Perante isto, impõe-se uma questão: estão os fabricantes automóveis a agir ilegalmente? Provavelmente, mas não todos. O que os dados agora divulgados demonstram é que os critérios NEDC estão cada vez mais desfasados da realidade, e que há fabricantes que programam os seus sistemas electrónicos para consumir menos no tipo de situações em que os actuais testes de consumo são realizados, que nada têm que ver com as condições reais de utilização.

Resta aguardar, pela introdução do novo ciclo de homologação RDE (Real Driving Emissions), que ainda está em desenvolvimento. Estima o ICCT que, uma vez aplicado este ciclo, o desvio entre consumo real e o homologado reduzir-se-ia até 5%, em média.