“Reafirmo todas as minhas declarações proferidas no dia 5 de janeiro”. Foi nestes termos que Luís Campos e Cunha — ministro das Finanças no Governo formado por José Sócrates em março de 2005 –, escreveu uma carta ao presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) à Caixa Geral de Depósitos, a reiterar tudo o que disse aos deputados, apesar dos desmentidos do ex-primeiro-ministro socialista e do seu amigo Armando Vara (ex-administrador da CGD).

O ex-ministro e professor de Economia tinha revelado aos deputados alegadas pressões para demitir a administração da Caixa Geral de Depósitos e substituí-la por outros elementos mais próximos dos socialistas: “A relação com a CGD não teve um período de maturidade suficiente, porque estive apenas quatro meses no Governo”, disse Campos e Cunha no Parlamento. “Desde o início, como ministro das Finanças, fui pressionado pelo primeiro-ministro [José Sócrates] para demitir o presidente da CGD e a administração da CGD”, afirmou o ex-governante, garantindo que não acatou essas orientações.

No texto enviado esta segunda-feira à CPI, Campos e Cunha diz-se disponível para “qualquer outro esclarecimento, se porventura a Comissão assim o entender”. E afirma:

As declarações, comunicados e entrevistas em reação às minhas declarações na Comissão de Inquérito são para mim muito surpreendentes, mas significativas. Sabemos que atacar o mensageiro quando não se gosta da mensagem é um expediente bem conhecido.”

Na audição com os deputados, Campos e Cunha contou que não demitiu a administração da CGD “por razões de princípio e de interesse da própria Caixa”. Podia admitir mudar alguns nomes “por razões específicas profissionais”, mas recusava demitir as administração nos termos em que lhe eram alegadamente exigidos: “Pedi ao dr. Vítor Martins [social-democrata, então presidente da CGD] que me passasse a sua proposta para alteração do modelo organizativo. Essa proposta nunca me chegou porque entretanto saí. Eu não demiti ninguém da CGD, nem convidei para assumir funções na CGD”.

Luís Campos e Cunha disse mesmo que a primeira pessoa a quem comunicou a sua saída das Finanças foi ao próprio presidente da Caixa: “Eu sabia e ele também sabia que o destino dele estava traçado. Uma semana depois [da saída de Campos e Cunha] toda a administração foi demitida, mas não foi por mim”, afirmou à CPI.

Campos e Cunha acrescentou ainda que a pressão para substituir a equipa de gestão do banco público não foi o motivo principal da sua “guerra” com Sócrates, mas também pesou na hora de resignar ao cargo de ministro de Estado e das Finanças. “Tive grandes dificuldades em falar com o primeiro-ministro durante esses quatro meses [enquanto pertenceu ao executivo] e até para entregar a carta de demissão tive que pedir para lhe ser entregue em mão. Saí numa quarta-feira à tarde e na quinta-feira de manhã já era anunciado um novo ministro das Finanças [Fernando Teixeira dos Santos]”, disse Campos e Cunha aos deputados.

Quando foram públicas as declarações de Campos e Cunha, José Sócrates emitiu um comunicado a desmentir as declarações do seu antigo ministro:

Sinto que tenho o dever de o desmentir: as suas declarações a propósito da Caixa Geral de Depósitos são falsas e sem nenhuma correspondência com a verdade. (…) Esclareço que nunca fiz qualquer pressão para demitir a administração daquele banco. Esclareço ainda que a vontade de substituir a referida administração sempre me foi manifestada pelo então ministro das Finanças que, ao contrário do que agora é afirmado, na altura considerava que não estava à altura da missão do banco”.

O desmentido do ex-primeiro-ministro foi acompanhado por uma entrevista de Armando Vara ao jornal i, em que acusou Campos e Cunha de estar a mentir. “Não disse a verdade no Parlamento”, acusou o antigo administrador da Caixa e depois do BCP. Segundo Armando Vara, Campos e Cunha estava “nervosíssimo” por causa da lei que não permitia acumular salários com pensões no dia em que almoçou com ele no restaurante do CCB. De acordo com Vara, o então ministro “estava a pensar mexer na Caixa Geral de Depósitos”.

No mesmo dia em que José Sócrates emitiu aquele comunicado, Campos e Cunha declarou ao Observador que nunca demitiu a administração da Caixa porque não quis: “Por amor de Deus, estive quatro meses no cargo e não demiti a administração da CGD. Mas, quando saí, esta foi demitida no dia seguinte por outra pessoa”.