Os presidentes dos EUA e da China falaram esta quinta-feira sobre “inúmeros tópicos” que ligam os dois países e, “a pedido” de Xi Jinping, o país vai respeitar o princípio de uma “China única”. Foi a forma de Donald Trump emendar a mão, depois de em dezembro ter apostado numa provocação diplomática, quando era ainda presidente-eleito, ao ligar diretamente à presidente de Taiwan, saltando uma etapa no diálogo com aquela líder: uma chamada para Pequim.

A Casa Branca garante que a conversa entre os dois líderes foi “extremamente cordial”. Entre os muitos temas em cima da mesa, o líder chinês quis voltar à chamada telefónica de Trump para Tsai Ing-wen, que em dezembro foi notícia por tratar-se de corte com a tradição nas relações entre Washington e Pequim. Trump, presidente eleito, pegou então no telefone e ligou para a presidente de Taiwan. A regra ditaria que, antes do contacto com Tsai Ing-wen, o ainda futuro presidente norte-americano tivesse dado conta dessa intenção a Xi Jinping.

O que significa uma China única

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O que é o princípio de uma “China única”? É a assunção, por parte de Washington, de que só existe um Governo chinês. Isso é particularmente relevante no que toca a Taiwan, território que Pequim considera uma província chineses que deve ser reunificada com o país.

A BBC explica que esse reconhecimento de décadas, por parte do EUA, não significa uma ausência de contacto com Taiwan. De resto, Washington vende as armas que Taiwan usa para defender-se de ataques externos.

De qualquer modo, a China usa o braço que estende sobre Taipei para gerir as relações diplomáticas com outras potências. Caso pretendam que o diálogo se estabeleça e se mantenha numa clima saudável, os países interlocutores de Pequim devem respeitar o princípio da China única.

Desde 1979, sob a presidência de James Carter, que os EUA reconhecem a política imposta por Pequim.

Trump não deixou a questão ficar pelos sinais. Dias depois de fazer a tal chamada, o presidente-eleito admitia poder não seguir a política de décadas de que o poder reside em Pequim, no que a Taiwan diz respeito. “Compreendo perfeitamente a política de ‘uma China’, mas não sei porque temos de estar obrigados a ela, a menos que façamos um acordo com a China sobre outros assuntos, incluindo trocas comerciais”, disse Trump, ainda em dezembro, à Fox (aqui citado pela Reuters).

A atitude do presidente eleito não passou despercebida, tanto nos EUA como na China. A Time considerou-a “um mau sinal” para a política externa que Trump se preparava para por em prática, ao desafiar abertamente Pequim. “Trump não quer saber daquilo que foi acordado no passado”, escrevia a publicação. Sobre a chamada “pouco ortodoxa”, o antigo embaixador dos EUA em Pequim dizia ao New York Times tratar-se de uma forma de “refrescar” a relação entre as duas superpotências.

Mas em Pequim a leitura foi clara: a Associated Press referia que os media estatais chineses consideravam a opção — que classificavam de “desprezível” — um sinal da “inexperiência” política e diplomática do então presidente eleito dos EUA. Num editorial bastante crítico do norte-americano, o tablóide chinês considerava que “no passado”, Trump tinha “enfurecido” as autoridades do país. “Mas agora consideramo-lo risível”.

A conversa desta quinta-feira veio por água na fogueira diplomática que tinha sido ateada há pouco mais de dois meses. As relações entre os dois países estavam suspensas desde 14 de novembro, a semana seguinte à da vitória de Trump sobre Hillary Clinton, escreve o New York Times. Aliás, Xi Jinping só terá aceitado retomar o diálogo com os EUA depois de Trump garantir que ia assumir publicamente o respeito pela política de uma “China única”.

Isso mesmo foi dito com tom reforçado, já depois da conversa telefónica, pelos media chineses. Trump “sublinhou que compreendeu a enorme importância de a Administração norte-americana respeitar a política de uma China única”. Donald Trump deu um passo atrás e o assunto ficou resolvido: “O Governo dos EUA adere à política de uma China única”, replica o NYT dos media chineses.