“Um coisa é pregar, outra é garantir sustento”, disse Mariano Rajoy, primeiro-ministro espanhol, no 18º congresso do Partido Popular (PP), em que foi reeleito com 95,6% dos votos. O alvo destes recados seriam os esquerdistas do Podemos também reunidos em congresso este fim-de-semana.

Logo a seguir, o primeiro-ministro assegurou que o PP é o “o maior partido, tão extenso como a superfície de toda a Espanha” acrescentando que não diria que “há alguns que cabem numa praça de touros” porque “não queria ser mal interpretado”. O Podemos está reunido no Palácio Vistalegre, uma arena de touradas. Rajoy quis ainda sublinhar o longo legado do partido, por oposição à curtíssima vida do Podemos: “Nós somos adultos”, disse Rajoy.

No congresso, os populares aprovaram ainda uma moção que remete para mais tarde a tomada de posição sobre a interrupção voluntária da gravidez já que “é preciso consultar especialistas nos campos ético, jurídico e científico” e “proceder a um debate sério e sossegado” antes que o partido possa adotar uma posição pública e unânime sobre esta questão.

Claro ficou também que o PP não apoiará qualquer remodelação constitucional durante a corrente legislatura, o que reforça a oposição do PP à realização do referendo pela independência que se discute atualmente na Catalunha. “Defendemos a integridade da soberania nacional como qualidade inerente e indelegável do povo, da qual ninguém pode dispor de forma autónoma e que ninguém deveria questionar de forma unilateral. Reafirmamos que não cabe no nosso país nem na nossa Constituição um referendo de autodeterminação”, podia ler-se na moção aprovada sem emendas, pelos presentes.

Podemos ou não?

Começou como prodígio eleitoral e exemplo de coesão ideológica para se tornar em partido bicéfalo, também por isso enfraquecido — esta é a história do Podemos que o Observador explica, em detalhe, aqui .

No Palácio Vistalegre, a palavra de ordem foi “unidade”, um esforço claro das cúpulas do Podemos em afastar a ideia de que o partido está divido entre o caminho defendido por Pablo Iglesias, secretário-geral do partido, e o seu número dois, Íñigo Errejón. Há, de facto, uma divisão, uma vez que há duas listas a concorrer à liderança do Podemos, mas a ideia que ambos quiseram transmitir este sábado foi a de que as divisões provocam um enfraquecimento da luta.

Reforçando que a luta do Podemos é contra o status quo, Pablo Iglésias disse que tanto o Partido Popular como os socialistas do PSOE são “representantes do projeto das elites” e que “é preciso uma nova ordem”.

Mas foi nos discursos de outras vozes fortes que se notou a divisão latente no partido. De um lado, os discursos emocionais de Irene Montero e Rafa Mayoral — dois destacados dirigentes apoiantes de Iglésias — que pediram um renovado empenho na luta “de rua”; do outro, os “errejonistas”, mais comedidos, que pedem um Podemos para todos, que possa mudar as coisas a partir de dentro e pensar alianças com vista à governação.

Domingo, por volta do meio dia, serão conhecidos os resultados da votação que elege a lista que deverá liderar o Podemos no futuro. O número de participantes na votação superou todas as expectativas.