Elementos da equipa de Donald Trump — incluindo o general Michael Flynn, que se demitiu esta semana do cargo de Conselheiro de Segurança Nacional — estiveram em contacto permanente com os serviços de informações da Rússia durante a campanha eleitoral, revelam vários meios de comunicação norte-americanos. Citando oficiais dos serviços de informações americanos, a CNN avança por exemplo que estas comunicações foram detetadas em operações de rotina de recolha de informações. Além de Flynn, estaria também envolvido nas comunicações com a Rússia o então responsável pela campanha eleitoral, Paul Manafort.

Ligações da equipa de Trump à Rússia abrem primeiras brechas na administração

Destacando que a existência de contactos entre candidatos à Casa Branca e oficiais russos não é inédita, a CNN sublinha que os investigadores terão desconfiado da elevada frequência das comunicações. Além disso, o envolvimento de altos oficiais da campanha também despertou a atenção dos serviços de informação. O The New York Times acrescenta que os contactos entre Flynn, Manafort e os russos foram descobertos na mesma altura em as autoridades norte-americanas investigavam a possibilidade de hackers russos terem interferido na campanha, nomeadamente através da divulgação dos emails do Comité Nacional Democrata.

O antigo responsável da campanha de Trump, Paul Manafort, já veio negar o seu envolvimento nos contactos com os russos. “Isto não é 100% verdade, pelo menos para mim. Não consigo acreditar que me estão a incluir numa coisa como esta, não estive envolvido em nada disto”, afirmou à CNN, acrescentando que nunca teve “qualquer contacto com Putin ou com o governo russo, antes, durante ou depois da campanha”.

O mesmo não pode dizer Michael Flynn, que em 2015 se sentou ao lado de Vladimir Putin num jantar de gala da Russia Today, uma cadeia de televisão russa patrocinada pelo Kremlin, e ainda recebeu dinheiro para participar no jantar. Flynn está no centro daquele que pode ser o primeiro grande escândalo da presidência de Trump, depois de se ter demitido, esta segunda-feira, na sequência destes contactos com os russos.

Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Michael Flynn, demite-se

Michael Flynn, que ocupava até agora o cargo de conselheiro do presidente para a Segurança Nacional, foi forçado a demitir-se depois de, alegadamente, ter enganado o vice-presidente, Mike Pence, sobre os contactos que manteve com os russos. O contacto em questão remonta às sanções impostas pelo presidente Barack Obama à Rússia (a expulsão de diplomatas na sequência das interferências nos serviços de informações russos nas eleições). Na altura, Flynn terá falado ao telefone com o embaixador Sergey Kislyak, com quem terá conversado sobre as sanções, combinando levantá-las quando Trump tomasse posse. No entanto, Flynn não comunicou à Casa Branca o conteúdo integral dessas comunicações, pelo que os restantes membros da presidência negaram sempre qualquer combinação.

Na carta de demissão, Michael Flynn admitiu as várias chamadas telefónicas com o embaixador russo e confirmou que forneceu “informação incompleta” sobre o conteúdo. A admissão de que as sanções podem ter sido um assunto debatido entre Flynn e Kislyak acabou por levar à perda de confiança de Trump no seu conselheiro, que acabou por resignar esta segunda-feira depois de vários dias sob escrutínio do FBI.

Esta quarta-feira, Donald Trump usou o seu meio de comunicação favorito, o Twitter, para reagir à polémica, atacando os jornais e garantindo que são “notícias falsas” divulgadas por meios de comunicação “loucos com as suas teorias da conspiração”. E dirigiu o ataque: “NBC e CNN são impossíveis de ver”, mas “a Fox é ótima”. Depois, acrescentou que “esta ligação sem sentido à Rússia é uma mera tentativa de encobrir os muitos erros feitos na campanha perdedora de Hillary Clinton”.

O The Washington Post escreveu esta terça-feira que a saída de Michael Flynn está a dar origem a uma crise interna na Casa Branca, depois de o senador republicano Mitch McConnell, o líder da maioria parlamentar no Senado, ter afirmado que era “altamente provável” que estes contactos, que levaram à demissão de Flynn, ajudem a comprovar a interferência da Rússia nas eleições norte-americanas. Isto porque Donald Trump já estaria informado do real conteúdo dos contactos entre Flynn e o embaixador russo — terá sido o conselheiro Donald McGahn quem informou Trump num briefing, segundo disse o porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer.

Segundo Spicer, Trump soube dos contactos entre Flynn e o embaixador russo logo após a procuradora interina, Sally Yates, ter alertado para as diferenças substanciais entre as escutas e as declarações de Mike Pence sobre o assunto. Na altura, o estratega Stephen Bannon e o chefe de gabinete, Reince Priebus, juntaram-se a Trump para debater a melhor forma de lidar com o assunto. Durante este tempo todo, Flynn foi questionado várias vezes sobre as chamadas telefónicas e negou sempre ter discutido as sanções.

O porta-voz da Casa Branca explicou, numa conferência de imprensa esta terça-feira, que a administração Trump tinha vindo a perder a confiança em Flynn ao longo dos últimos dias, e negou qualquer influência do presidente Donald Trump nas conversas sobre as sanções à Rússia. “Temos vindo a rever e a avaliar este assunto respeitante ao general Flynn diariamente nas últimas semanas, para tentar averiguar a verdade”, sublinhou Spicer aos jornalistas.

Sean Spicer durante a conferência de imprensa desta terça-feira. (Imagem: SAUL LOEB/AFP/Getty Images)

A posição de Sean Spicer está a ser interpretada como uma mudança de versão da história por parte da Casa Branca. A revista The Atlantic, por exemplo, escreve que Sean Spicer “tentou controlar uma narrativa que estava rapidamente a sair do controlo”, e destaca os principais pontos que o porta-voz tentou defender. Por um lado, Spicer tentou defender que o conselheiro para a Segurança Nacional não tinha cometido nenhuma ilegalidade ao conversar com o embaixador russo — caso se confirme que de facto as sanções foram um assunto, isto poderá não ser assim, uma vez que um cidadão norte-americano que não esteja em funções públicas não está autorizado a discutir políticas dos EUA com representantes de nações estrangeiras.

Além disso, Spicer sublinhou que a demissão de Flynn se prendeu apenas com a falta de confiança de Trump, que já estava informado do assunto desde janeiro, e destacou que nem Trump nem ninguém da sua equipa deu ordens a Flynn para que discutisse o levantamento das sanções com o embaixador russo. Mas há motivos para desconfiar, escreve a The Atlantic. Por exemplo, quando Trump foi questionado sobre uma reportagem do The Washington Post relativa ao assunto, já este mês, o presidente disse que não tinha conhecimento do que lhe estavam a perguntar. Spicer tentou defender Trump, garantindo que o presidente apenas desconhecia o artigo do jornal, apesar de estar inteirado da situação.