Se há aposta na qual vale a pena pôr dinheiro, é na improbabilidade de se encontrar um portuense com mais de 30 anos de idade que nunca tenha ouvido falar na icónica discoteca Twin’s. De casa elitista a pista de dança das festas mais badaladas da cidade, o número 1000 do Passeio Alegre, na Foz, tem tantos anos quanto a democracia portuguesa. E mais vidas do que os gatos, porque sete já lá vão. Este mês, começa a oitava vida, com a abertura do novo restaurante e bar Twins 19.74.

Já lá vamos. Primeiro, é preciso lembrar como o Twin’s causou impacto no Porto, quando abriu a 4 de janeiro de 1974. As discotecas chamavam-se boîtes e contavam-se pelos dedos. Na Invicta havia o Dona Urraca, que na viragem do século passou a chamar-se Pop e teve como dono o atual presidente da Câmara, Rui Moreira. Não muito longe, em Leça da Palmeira, havia também o Coutada, atual Batô. Era isto. Dada a escassez de concorrência e a localização em zona privilegiada, o negócio aberto por Rogério Azevedo e José Luís Kendall causou sensação entre as famílias ‘bem‘ do Porto.

A primeira vida do Twin’s foi cheia de bons momentos. Até que, em meados dos anos 80, a discoteca passa para as mãos do arquiteto Tomás Taveira e de José Manuel Simões. E passa também de moda, que os tempos áureos já lá iam. A terceira vida, então, é para esquecer. Em 2001, com os olhos postos na clientela estrangeira que chegaria para a Capital Europeia da Cultura, o espaço muda de nome e de ramo, passando a chamar-se Passerelle e a chamar clientela à procura de striptease. As famílias da Foz não gostaram, o presidente da junta muito menos e, juntos, pressionaram por várias vias. No final, o senhorio voltou atrás.

Pormenor do novo Twins 19.74. (foto: © Inês Cortez / Divulgação)

2004 trouxe o Campeonato Europeu de Futebol ao Porto e o regresso de Batata Cerqueira Gomes ao espaço, desta vez não como cliente, mas como proprietário, juntamente com Manuel Guedes. A energia, a criatividade e os conhecimentos dos dois sócios fizeram do Twin’s novamente discoteca da moda, numa quarta vida para a qual muitos olham com saudade.

Uma década depois, nova venda consumada. Em 2014, o Twin’s manteve o nome e o conceito pelas mãos de Amaro Sá e Tiago Pinto Leite, sob o nome Twins & Friends, dois pisos com música diferente e uma inauguração cheia de habitués das revistas do social. A promessa de devolver o glamour à noite do Porto passou a ser anunciada no ano seguinte por um novo proprietário e um novo nome: Crystal Club, também enquanto discoteca. Durou um ano. E já lá vão seis vidas.

A sétima não durou nem meio ano. Em agosto de 2016, Susana Dias Ramos e João Pedro Caldeira apostaram num conceito de bar e restaurante chamado Mil na Foz, pegando do número 1000 marcado na porta que, ao longo de 42 anos, somou inícios e fins. O chefe José Pedro Moreno (Foz Velha, Patuá e Sessenta Setenta) inspirava confiança no menu. No virar do novo ano, e sem explicação, o Mil na Foz apagou a página de Facebook e passou as chaves a outros interessados.

A sala de refeições do novo restaurante Twins.
(foto: © Alberto Alves / Divulgação)

A oitava vida do Twin’s começa agora, de olhos no futuro mas sem renegar o passado. O nome que os sócios Ivo Alves e Pedro Brites deram ao bar e restaurante é um tributo ao ano em que o espaço abriu pela primeira vez, 1974. O piano continua a dar as boas-vindas a quem entra. E José Pedro Moreno transita do projeto anterior, com uma nova carta que se apresenta como sendo de “cozinha tradicional de espírito contemporâneo”.

Há uma secção da carta que se chama Gula e onde se encontra um Fondue de Francesinha (10,50€). Para apetites menos vorazes, a salada de gambas, laranja e funcho (11,50€) surge um pouco mais abaixo. Passando para os mariscos, não faltam percebes, mexilhões de escabeche, sapateira recheada, cocktail de camarão, camarão tigre salteado em cognhaquec umas ameijoas à Twins e um rodízio de mariscos.

Nos pratos de peixe estão clássicos como o Bacalhau à Braga ou o polvo à lagareiro. A aposta nas carnes mostra que a tendência dos cortes como o chuletón ou ossobuco é para manter, sem esquecer clássicos como a posta à mirandesa (15€).

A refeição pode terminar com um souflé de licor de amêndoa (4€), com um chocolate belga em calda de malagueta e crumble de frutos secos (4,30€), ou com um “Ups, deixei cair os cornetos” — é surpresa –, entre outras opções.

Não faltam opções de marisco, como estes Mexilhões de Escabeche.
(foto: © Alberto Alves / Observador)

A acompanhar a carta existe uma lista de snacks e petiscos, disponível ao longo de todo o dia (o Twins 19.74 não encerra entre o almoço e o jantar). O encerramento também é tardio, para explorar a parte de bar. Nos snacks, as mini-sandes permitem provar um ossobuco com queijo de S. Jorge e rúcula (7€) e até uma gamba frita com molho e cocktail e salada (7,50€). Há ainda um petisco raro de se ver nas ementas portuenses: choco frito de Setúbal (4,70€).

Por enquanto, os clientes têm à disposição a sala principal, com 100 lugares. A partir de março inaugura a esplanada e, no andar superior, um espaço pensado para eventos como festas privadas e jantares de empresa. A carta de vinhos é extensa, há 23 referências de gin e três águas tónicas diferentes, scotch, irish e bourbon, e ainda 23 cocktails.

Não, não haverá discoteca. Mas que é tentador alugar a sala de eventos, combiná-la com a carta de bar e, por uma noite, recriar um dos estabelecimentos noturnos com mais história da cidade, lá isso é.

Tarte de maçã e amêndoa com gelado de baunilha, uma das sobremesas.
(foto: © Alberto Alves / Observador)

Nome: Twins 19.74
Morada: Rua do Passeio Alegre, 1000, Porto (Foz)
Telefone: 916654194
Horário: Terça e quarta-feira das 12h30 à 01h, de quinta a sábado das 12h30 às 02h, domingo das 12h30 às 00h. Encerra à segunda-feira
Reservas: Aceita
Preço médio: 20€ a 25€
Site: www.facebook.com/twinsporto19.74/?fref=ts