“Paris, Texas”

Um dos melhores filmes de Wim Wenders, agora reposto em cópia nova, “Paris, Texas”, beneficia imenso do argumento de Sam Shepard (com a colaboração de L.M. Kit Carson). Nele, o realizador alemão encontra uma alma gémea no fascínio pelas estradas abertas e pelos grandes espaços dos EUA, pelo seu simbolismo e ressonâncias míticas e cinematográficas, pelo “road movie” e pelas personagens devastadas e alienadas da sua circunstância e dos semelhantes, voluntariamente ou devido a tragédias pessoais ou familiares. A sombra de “A Desaparecida”, de John Ford, paira sobre “Paris, Texas”, onde um homem chamado Travis (Harry Dean Stanton), sai do deserto como se fosse o equivalente moderno de uma figura bíblica, de um eremita medieval ou da personagem de um velho “western”. Travis já teve um lar e uma família, perdeu tudo e agora, depois de se ter afastado do mundo, regressa para se reencontrar consigo mesmo, com a sociedade e procurar o filho e a mulher (Nastassja Kinski) . Em 1987, Wim Wenders rodaria o seu último grande filme, “As Asas do Desejo”, para nunca mais conseguir atingir as alturas deste, e de “Paris, Texas”.

“Lego Batman: O Filme”

Nada melhor para desanuviar daqueles filmes megalómanos, solenemente balofos e auto-importantes da série “O Cavaleiro das Trevas”, de Christopher Nolan, ou de “Batman V Super-Homem: O Despertar da Justiça”, do que esta jubilatória e garrida paródia animada digital em modo Lego, bem melhor que a sua antecessora, “O Filme Lego”. O realizador Chris McKay, vindo da anárquica série de televisão “Robot Chicken”, passa ao crivo da sátira, com uns pozinhos de psicanálise, a figura de Batman, caracterizado como um gabarola egocêntrico e associal, com pânico de “relações”, e leva na sua esteira o acervo televisivo, cinematográfico e iconográfico do Homem-Morcego e todo o universo de super-heróis e vilões da DC (e mais alguns de outras “franchises”, de “Harry Potter” aos “Gremlins”), para deleite quer dos seus aficionados, quer dos seus detractores – uma proeza muito difícil de conseguir. Tendo sempre em atenção que estamos a falar de duas das marcas mais poderosas do mundo, que se podem dar ao luxo de permitir o gozo a elas próprias, e ainda por cima lucrar com isso.

https://youtu.be/g3FOQjCgl9w

“Mulheres do Século XX”

Mike Mills, autor de “Chupa no Dedo” (2010), e de “Assim é o Amor” (2014), sobre um trintão a quem o pai, viúvo e septuagenário, revela que tem um cancro e é homossexual (a personagem baseia-se no próprio pai do realizador), inspirou-se na mãe para criar Dorothea (Annette Bening), a cinquentona com angústias da meia-idade protagonista deste filme passado na Califórnia no fim dos anos 70, com os EUA a afastarem-se dos anos da contracultura, da guerra do Vietname e da utopia “hippie”. Dorothea está a criar sozinha o filho adolescente (Lucas Zade Zumann) e tem como hóspedes uma fotógrafa “punk” (Greta Gerwig) e um faz-tudo engatatão (Billy Crudup), e como visita regular uma colega do filho, sexualmente promíscua (Elle Fanning). Mills retoma temas que lhe são queridos, como a família, a identidade feminina e masculina, a sexualidade e as interrogações e confusões da adolescência, mas “Mulheres do Século XX” é um filme aéreo, divagante e disperso, um punhado de personagens. situações e estados de alma em falta de cola narrativa. Para além de ser insuportavelmente afectado na sua panóplia de tiques e efeitos visuais: inserção de intertítulos e fotografias, imagens aceleradas, cores psicadélicas. E há um limite para aturar a conversa fiada feministóide sobre vaginas e menstruação.

“Toni Erdmann”

Esta realização de Maren Ade é uma rara comédia do embaraço feita fora do universo do cinema anglo-saxónico, e tinha tudo para passar totalmente despercebida fora do seu mercado natural. É um filme alemão, dura quase três horas, tem actores pouco ou nada conhecidos fora do espaço germânico e não cultiva o riso alvar, fácil, imediato. Apesar disso, transformou-se no filme mais falado do Festival de Cannes e numa das coqueluches europeias de 2016, ganhou uma pilha de prémios em todas as latitudes, está candidato ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro e vai ter um “remake” americano, com Jack Nicholson e Kristen Wiig. É a história de Winfried Conradi (Peter Simonischek), um professor de música viúvo, reformado e muito amigo de pregar partidas, que tem uma filha, Ines (Sandra Hüller), uma super-executiva solteira e viciada no trabalho, que se encontra em Bucareste. Winfried acha que a filha, da qual se afastou, leva uma vida triste, sem humor nem amor, e dominada pelo trabalho, e por isso ruma a Bucareste, activa o seu arsenal de acessórios cómicos, assume a identidade do Toni Erdmann do título e tenta recuperar Ines usando a arma do riso. “Toni Erdmann” foi escolhido como filme da semana pelo Observador, e pode ler a crítica aqui.