O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou, esta segunda-feira, que nunca pensou que o Governo PS com apoio dos partidos à esquerda (a chamada “geringonça”) fosse “tão resistente”. Em visita aos estúdios da TVI, no âmbito das comemorações do 24.º aniversário da estação de Queluz, Marcelo Rebelo de Sousa foi ainda questionado sobre a polémica da Caixa Geral de Depósitos (CGD) e justificou a sua posição em relação ao ministro das Finanças, lembrando o episódio da demissão de Vítor Gaspar que teve consequências graves para o país.

Fiquei surpreendido [com a resiliência da geringonça]. Quando entrei não pensei que conseguisse cumprir com os compromissos internacionais, que cumprisse com a trajetória do défice e também francamente lhe digo que não pensava que fosse tão resistente quanto se mostrou ao longo deste ano”, confessou Marcelo Rebelo de Sousa, dizendo que apoia este Governo como apoiará qualquer outro que venha a tomar posse durante o seu mandato.

Quanto à polémica do momento — relacionada com a entrega da declaração de rendimentos pela anterior administração da CGD e o alegado acordo que existiu entre o ministro das Finanças e António Domingues –, o Presidente da República referiu que houve “razões ponderosas de interesse nacional para ter aceitado a posição do senhor primeiro ministro” no que toca ao “exercício de funções pelo senhor ministro das finanças”. E lembrou a crise de 2013 para justificar a posição assumida.

Recordo que em 2013, num contexto menos agitado, o ministro das Finanças [Vítor Gaspar] pediu a demissão e isso provocou a demissão do líder do segundo partido do Governo [Paulo Portas], uma tentativa do Presidente da República de chegar a acordo com o líder da oposição, um longo período de crise e o eco nos mercados financeiros”.

O chefe de Estado voltou a dizer que, para ele o assunto está fechado sobretudo por uma questão de interesse nacional pois “há um conjunto de decisões para a estabilidade financeira num futuro próximo”. E sobre o facto de ter falado publicamente sobre a matéria e ter saído em defesa do ministro das Finanças, Marcelo afirmou que se “atravessa” por aquilo que “em cada momento parece que seja fundamental”.

E logo de início, o Presidente estabeleceu domínios fundamentais sobre os quais decidiu que interviria “para prevenir conflitos ou para ajudar quando sinto que é fundamental para o País”: a estabilização política, a consolidação do sistema bancário e o cumprimento da meta do défice são alguns desses domínios.

Marcelo Rebelo de Sousa sublinhou, porém, que “ao contrário do que as pessoas pensam eu tive momentos muito mais complicados que este ao longo do ano” como, por exemplo, a expectativa de dissolução ou não do Parlamento, mal tomou posse. Depois o Orçamento para 2016 e, mais tarde, o Orçamento para 2017, seguido da concertaçao social.

Aprendi a relativizar as questões porque aquilo que parece muito grave e importante não o é.”

“Proximidade tem custos”

Outro ponto que veio a baile nas observações feitas pelos quatro comentadores da TVI — José Miguel Júdice, Manuela Ferreira Leite, Fernando Medina e Constança Cunha e Sá — foi o da proximidade que o Presidente da República tem promovido junto dos portugueses e que é, de certa maneira, uma imagem de marca de Marcelo Rebelo de Sousa. Mas ao lado “aparentemente simpático e feliz da proximidade”, o Presidente contrapôs o “preço” a pagar por ela.

“A proximidade tem custos. Primeiro custos físicos”, começou por afirmar, apresentando a soma dos últimos três dias: “entre fotografias e selfies e foram mais de 1.500 e pessoas cumprimentadas aí três ou quatro mil”. E a esses juntam-se ainda “custos psicológicos porque há casos muito deprimentes”. “Parecendo que não, mesmo habituado, essas experiências, não deprimem mas cansam espiritualmente.”

E sobre as diferenças de postura em relação a outros chefes de Estado, Marcelo frisou que “cada Presidente é o que é como pessoa”. “Ninguém estaria a ver o Presidente Mário Soares fechado, distante, longínquo. Como ninguém estaria a ver o Presidente Cavaco Silva, nem o Presidente Eanes, a tirar selfies.”

Sobre a crítica que, muitas vezes, lhe é endereçada — de falar muito –, Marcelo respondeu que “parece que falo de tudo mas não falo de tudo”. “Não uso é aquela metodologia de recusar-me a enfrentar as câmaras. Agora, várias vezes digo: esperem que a procissão ainda vai no adro. Quanto menos for necessário intervir menos intervirei”.