Música

José Afonso. Foi Otelo quem escolheu o músico para “cantar” senha do 25 de Abril

Otelo Saraiva de Carvalho só conheceu e deu um "abraço emocionado" a José Afonso depois do 25 de Abril de 1974, o golpe que quis que tivesse como senha uma "canção do Zeca".

Autor
  • Agência Lusa

Otelo Saraiva de Carvalho só conheceu e deu um “abraço emocionado” a José Afonso depois do 25 de Abril de 1974, o golpe que quis que tivesse como senha uma “canção do Zeca”.

“Podia ser o ‘Venham mais cinco’ ou ‘Traz outro amigo também’. Acabou por ser a ‘Grândola’, porque as outras estavam no índex da censura”, recordou Otelo em entrevista à agência Lusa, em que fala sobre “o turbilhão de amizade” que o uniu ao cantor que o apoiou nas presidenciais de 1976, quando teve 16,46%, mais do que Octávio Pato, apoiado pelo PCP. Foram as canções de Zeca e o seu génio a cantar “música de intervenção de caráter político” que o “estimularam enormemente” na sua consciencialização política, conta na entrevista à Lusa, num café junto ao Tejo em que a música de fundo não era de José Afonso, mas sim dos Duran Duran e de Elton John.

Entrámos num turbilhão de amizade, de companheirismo muito grande”, lembrou, apelidando “o Zeca o irmão que gostaria de ter tido” e não teve.

Alguém que, disse, esteve sempre a seu lado, “independentemente de qualquer situação, da [sua] prisão”, numa referência aos cinco anos em que esteve preso, nos anos de 1980, acusado de liderar a organização armada no processo das FP-25. No tal “turbilhão de amizade”, José Afonso esteve “com grande generosidade” a seu lado nas presidenciais, nas de 1976 e nas de 1980, quando se sabia que não teria a votação de quatro anos antes e até o próprio Otelo confessou: “Eu próprio votei no Eanes para evitar a vitória do candidato da direita, Soares Carneiro…”

“Foi uma grande campanha e sempre com o Zeca ao meu lado. Ele foi um companheiro notável”, sintetizou, afirmando que também o ouvia como conselheiro político. O próprio músico recorda, na entrevista para livro biográfico de José António Salvador “O Rosto da Utopia” (Edições Afrontamento): “As propostas de Otelo foram uma alternativa revolucionária praticável para este país. Podia ter sido um caminho para evitar que este país seja um porta-aviões do imperialismo americano, do subimperislismo europeu (sobretudo o alemão).”

O militar de Abril emociona-se ao recordar a última vez que esteve com José Afonso. Otelo estava preso em Caxias, em 1986, e o cantor, já muito doente, foi “despedir-se” de si, meses antes de morrer. Como o compositor de “Venham Mais Cinco” não podia subir ao parlatório, o diretor da prisão autorizou que fosse o militar a vir, a sentar-se num carro — ele e Zeca nos bancos da frente, as duas companheiras atrás. José Afonso, o cantor, tinha dúvidas se teria valido a pena “a luta” desde os tempos da ditadura, e achava que o seu trabalho musical iria ser esquecido.

“Aí, quase me exaltei. ‘Ó Zeca, pá, nunca digas uma asneira dessas. Tu foste um gajo notável e o que fizeste vai perdurar, pá, até ao fim do mundo'”, recordou. “Tu disseste profundamente às pessoas coisas, aquilo com que elas alimentaram uma esperança grande numa alteração, numa renovação, numa liberdade. Isso é inapagável, é inapagável'”, concluiu Otelo.

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos nasceu a 02 de agosto de 1929, em Aveiro. Estudou em Coimbra, no curso de Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras, foi professor em vários pontos do país e também viveu em Moçambique. Ao longo da sua carreira como cantor e músico, interpretou o fado de Coimbra, mas ficou mais conhecido pelas suas canções de intervenção, contra o regime ditatorial. Morreu, aos 57 anos, a 23 de fevereiro de 1987, tendo o seu funeral reunido milhares de pessoas, em Setúbal.

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