Bruno de Carvalho ainda alimentou o tabu da continuidade ou não no Sporting durante uns dias, mas anunciou a recandidatura ainda antes do final do ano, já depois de Pedro Madeira Rodrigues. Na altura, pensava até que o sufrágio teria mais listas. E apelou a tal, até para sentir o pulsar da nação leonina. No final, só avançou uma lista contra si. Em parte, isso até lhe foi prejudicial.

Olhando para o programa de Bruno de Carvalho e as 111 medidas que preconiza para um futuro mandato, seria fácil resumir tudo a uma ideia – melhorar o que foi feito e tentar ser campeão no futebol. Em tudo o resto, a criação da Sporting Rádio; a possibilidade venda de Jogos Santa Casa na Loja Verde e nos núcleos; os torneios de e-sports e futsal entre núcleos; e os relatórios periódicos da sustentabilidade do clube foram das poucas novidades definidas. E porquê? Porque na ótica do candidato da lista B, “o Sporting está no rumo certo”, como defende no slogan apresentado aquando da recandidatura.

A apresentação do relatório semestral da SAD do Sporting, que teve um lucro recorde de 46,5 milhões de euros, acabou por ser argumento para uma espécie de “conversa coletiva” de Bruno de Carvalho – o Observador pediu uma entrevista ao candidato, que resumiu as mesmas ao canal e jornal do clube e nada mais – para detalhar essas mesmas ideias. “Podemos finalmente colocar as questões desportivas acima das financeiras, pois atingimos um ponto de equilíbrio e criámos um clube sustentável. As coisas não estão a correr bem no futebol mas é uma questão de tempo. Anulámos a diferença para os nossos rivais e, mais cedo ou mais tarde, acreditando que será muito em breve, iniciaremos a nossa senda de vitórias no campeonato”, referiu.

Podemos finalmente colocar as questões desportivas acima das financeiras, pois atingimos um ponto de equilíbrio e criámos um clube sustentável. As coisas não estão a correr bem no futebol mas é uma questão de tempo.

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Como iria sublinhar depois, Bruno de Carvalho não quer “um Sporting campeão dos lucros mas sim do futebol”. Ainda assim, colocou o enfoque nas duas traves-mestras da gerência ao longo dos últimos quatro anos: a parte desportiva e a vertente financeira. A reestruturação financeira surge como uma das grandes bandeiras do mandato, até por ser algo que ninguém acreditava ser possível sem que o clube perdesse a maioria da SAD, o que permitiu também equilibrar as contas e cumprir o fair-play financeiro. Houve também, pela primeira vez, a apresentação de contas consolidadas, um assunto tabu que atravessou vários ex-líderes.

“A tal gravação de que se falou confirma o que digo: há quatro anos o Sporting estava em pré-falência, ia perder a maioria da SAD e estava em vias de um PER [Processo Especial de Revitalização]. Quando dizia em 2013 que era possível manter a maioria da SAD, chamavam-me criança, demagogo, populista e mentiroso. E se fossem perguntar aos “pseudo-experts” financeiros se iríamos conseguir o que conseguimos, chamavam-nos loucos”, defendeu.

No futebol, faltou o título. A época de 2015/16, com a contratação de Jorge Jesus ao Benfica e a permanência de todas as principais figuras, foi a grande aposta de Bruno de Carvalho. Apesar dos 86 pontos, o Benfica acabou por tornar-se tricampeão. Esta temporada está a ser a pior das quatro – a equipa está afastada de todas as provas e ocupa o terceiro lugar da Primeira Liga, a nove pontos do FC Porto e a dez do Benfica. Os custos com pessoal foram subindo, tal como as receitas, mas o investimento não trouxe frutos desportivos também por culpa de uma série de contratações falhadas que privaram a equipa de ter mais e melhores soluções. Ficou ainda assim a garantia que o fosso para os principais rivais é hoje bem mais diminuto.

Apesar dessa pecha na mola-real do clube, Bruno de Carvalho conseguiu ir marcando pontos noutras áreas que, para os sócios sportinguistas, são sempre importantes. A construção do pavilhão (está prestes a nascer), com todo o significado que terá a nível de clube; o aumento e reforço das modalidades e do projeto olímpico; e o aumento do número de associados e da média de assistências em Alvalade são exemplos paradigmáticos do salto que o clube deu de 2013 para cá, mesmo estando muitas vezes envolvido em guerras com rivais e instituições.

Numa primeira fase, a campanha foi marcada por um Bruno de Carvalho mais reservado, com uma postura mais estadista. Esse terá sido, aliás, um dos pontos menos conseguidos no único debate que teve com o adversário. Nesta última semana, sobretudo, o atual presidente jogou mais ao ataque. “Espero que não haja muitos indecisos nas eleições, até pela campanha a que estamos a assistir: zero ideias, zero projeto e orgulho por um debate que ficou marcado por mentiras e calúnias. Estamos a falar de alguém [referindo-se a Pedro Madeira Rodrigues] que tem Godinho Lopes e Paulo Pereira Cristóvão por trás”, argumentou na quarta-feira Bruno de Carvalho.

Espero que não haja muitos indecisos nas eleições, até pela campanha a que estamos a assistir: zero ideias, zero projeto e orgulho por um debate que ficou marcado por mentiras e calúnias.

Quatro anos depois, os papéis inverteram-se. Em 2013, Bruno de Carvalho queria sobretudo mostrar o que queria fazer; agora, em 2017, defende-se com aquilo que fez. Mesmo referindo que “todos os dias está tudo por fazer”. “Sou um insatisfeito por natureza”, diz.