A ida a votos de Bruno de Carvalho era um dado adquirido apesar das dúvidas que andavam a ser instaladas, mas a verdade é que Pedro Madeira Rodrigues, de 45 anos, sócio número 10.668, foi o primeiro a apresentar-se como candidato à presidência do Sporting. Começou de forma cautelosa, sem grandes alaridos, com uma ou duas ideias. Depois, foi tentando explicar o seu projeto. A partir de certa altura, endureceu o discurso e começaram as trocas de acusações. Afinal, o que quer o líder da lista A para o futuro do clube de Alvalade?

Comecemos por aquilo que mais atenções atrai: o futebol. No programa divulgado em termos oficiais após a apresentação, Madeira Rodrigues prometeu desde logo uma nova estrutura, tendo apresentado Juande Ramos como treinador, Laszlo Bölöni como coordenador técnico e Delfim como team manager, no papel que um dia coube a Manolo Vidal. Em tudo o resto, as ideias deixadas são semelhantes às que, na teoria, todos admitem ser o melhor para o clube: um maior rigor nas contratações; aproveitamento da formação; plantel principal com máximo de 23 elementos; aumento da componente dos objetivos nos contratos etc. O conteúdo é igual, mas a forma difere. O objetivo, único, é ganhar – o Sporting necessita a breve prazo do título. E tanto é assim que o próprio candidato já garantiu que o técnico espanhol sai caso não seja campeão nos dois anos de contrato que tem à espera em caso de vitória nas eleições.

Interligado com o futebol está o aspeto financeiro, um dos pontos de maior picardia durante esta última semana de campanha. Após a apresentação do relatório semestral da SAD, com o maior lucro de sempre, Pedro Madeira Rodrigues fez questão de sublinhar que o dinheiro ganho nas transferências de João Mário e Slimani (as duas maiores de sempre) seria “torrado” num ápice, apontando para a escalada galopante dos custos com pessoal como um problema a resolver em caso de eleição. Para isso, o candidato da lista A aponta para orçamentos nunca acima dos 50 milhões de euros, até por forma a estar mais ajustado às receitas. Os gastos com serviços e fornecimentos externos também devem ser reduzidos.

Outra questão premente para o gestor é a academia, que na sua ótica não pertence ao Sporting e deve ser recomprada. A entrada de investidores e novos parceiros foi quase sempre abordada numa perspetiva de naming de estádio, academia e pavilhão, bem como de outras fontes de receitas novas a explorar como a pala de Alvalade ou a colocação de vídeo-screens dentro e fora do recinto. Ponto fulcral será a manutenção da maioria do capital social da SAD. No incremento de receitas, nota também para o alargamento de locais e ofertas da Loja Verde, numa vertente de reforço da marca que deve chegar lá fora, nomeadamente aos PALOP.

Entre o regresso do basquetebol ou a criação de um clube naval, nas modalidades (além do reforço do Projeto Olímpico e uma melhor estruturação de jogos em termos de horários), e a criação das figuras de sócio-filho, sócio-claque e sócio-internacional, no clube, Pedro Madeira Rodrigues assenta a grande diferença em relação a Bruno de Carvalho na liderança. E é aí que mais vezes tem apontado o dedo ao adversário, acusando-o de isolamento e egocentrismo.

Como refere no programa eleitoral, o candidato da lista A pretende garantir a pluralidade das diferentes sensibilidades no clube, ao mesmo tempo que defende a ideia de autonomia e responsabilização das lideranças nas mais variadas áreas do Sporting – algo que diz não ocorrer hoje em dia. Madeira Rodrigues argumenta também que os leões deixaram de estar nos centros de decisão, estando longe de cumprir a conduta e os valores que os fundadores veiculavam. Por fim, num ponto que causou também polémica no debate, assumiu que os presidentes do Sporting devem ser obrigados a apresentar as suas declarações de rendimentos e património antes e depois de assumirem a liderança do clube.

“Só houve equilíbrio derivado da reestruturação desenhada por Nobre Guedes”

Em cinco perguntas respondidas ao Observador, Pedro Madeira Rodrigues criticou a atual estrutura de custos, ao mesmo tempo que defendeu o papel dos ex-presidentes Soares Franco e José Eduardo Bettencourt na concretização do pavilhão. “Vamos voltar a viver os dias à Sporting que tantos de nós vivemos no passado”, garante.

Tem apostado muito no reforço da estrutura do futebol, com a apresentação de Juande Ramos, Laszlo Bölöni e Delfim. Considera que é esse o reforço que falta para quebrar o jejum de títulos?
Mais do que o reforço de uma estrutura vamos apostar na criação de uma estrutura que continua a não existir no Sporting depois de quatro anos. Laszlo Bölöni e Delfim (e Ricardo Pina Cabral) são o que precisamos no nosso clube: campeões, competentes, sérios e com uma vontade grande de servir o clube no âmbito dum projeto ambicioso e ganhador.

Como avalia a situação financeira do Sporting? E como pensa abordar a recompra das VMOC para que o clube mantenha a maioria da SAD?
Infelizmente, a situação tem vindo a agravar-se depois de um primeiro/segundo ano de algum equilíbrio derivado da reestruturação financeira desenhada por Nobre Guedes. Agora já estamos com receitas correntes bem acima das despesas correntes, dependendo de vendas extraordinárias, como a de Montero, que limitam a competitividade das nossas equipas, ou da antecipação de receitas, como é o caso do contrato da NOS ou da situação impensável da renovação do contrato com a marca de equipamentos a escassos dias das eleições. Desde o primeiro dia, iremos trabalhar no sentido de reequilibrar as contas, aumentando a competitividade das nossas equipas. Por exemplo, deixando de comprar jogadores “às carradas” e apostando em contratações cirúrgicas e na formação. Assim, seremos capazes de ir guardando verbas para fazer essa recompra das VMOC e ultrapassar este risco que veio com a reestruturação de perda da maioria do capital da SAD.

Desde o primeiro dia, iremos trabalhar no sentido de reequilibrar as contas, aumentando a competitividade das nossas equipas. Por exemplo, deixando de comprar jogadores “às carradas” e apostando em contratações cirúrgicas e na formação.

Qual é a importância do novo pavilhão para a vida do clube e até que ponto tem relevância para uma nova era das modalidades do Sporting?
Foi um erro inaceitável não termos construído um pavilhão logo em 2002/03. Felizmente, Filipe Soares Franco e José Eduardo Bettencourt fizeram o mais difícil, que foi a negociação com a Câmara Municipal de Lisboa em relação aos terrenos e, seguindo os prazos normais, o pavilhão foi construído na presidência de Bruno Carvalho (depois das habituais trapalhadas dele e novos processos legais). Irei inaugurar esta obra de todos os sportinguistas mas terei que a pagar (na forma da dívida que temos à Doyen). Vamos voltar a ter aqueles dias à Sporting que tantos de nós vivemos no passado, incluindo os jogos de basquetebol que connosco voltará.

Falou na possibilidade de haver investidores interessados na recompra da Academia ou no naming do estádio. Que outras fontes de receita poderá promover em caso de vitória nas eleições?
O naming tantas vezes prometido por Bruno de Carvalho será uma realidade connosco. E de forma simbólica, a Academia deixará de ser do BCP e passará a ser propriedade nossa. Temos investidores em Portugal e no estrangeiro que estão interessados em entrar no Sporting, desde que entre uma equipa séria e competente como a nossa. Vamos ter de fazer mais para termos mais assistências (e menos números “martelados”), apostar no”merchandising com Lojas Verdes por todo o país e trazer muito mais sócios (teremos nesta altura apenas cerca de 70.000 pagantes). Sabemos que isso passa por termos equipas competitivas e uma liderança como a nossa, que viva os valores do Sporting e na qual todos os sportinguistas se podem rever. A publicidade na pala, tal como o encerramento do fosso, a introdução do “safe-standing” para as claques, os ecrãs LED à volta do estádio e as cadeiras verdes serão uma realidade em breve.

O naming tantas vezes prometido por Bruno de Carvalho será uma realidade connosco. E de forma simbólica, a Academia deixará de ser do BCP e passará a ser propriedade nossa. Temos investidores em Portugal e no estrangeiro que estão interessados em entrar no Sporting, desde que entre uma equipa séria e competente como a nossa.

Que tipo de comunicação tentará promover para defender os interesses do Sporting e ao mesmo tempo normalizar relações com os rivais e colocar o clube nos centros de decisão do futebol português, como deseja?
Iremos estar mais preocupados connosco do que com os outros, defendendo intransigentemente os interesses do nosso clube. Não faremos quaisquer alianças mas trabalharemos em conjunto nas matérias que interessam a todo o desporto, nomeadamente a questão fiscal. Depois de mais quatro anos perdidos nesta matéria, sempre com mais queixas do que ação, iremos voltar a estar nos principais órgãos de decisão por forma a garantir que não sejamos prejudicados como historicamente temos sido.