A polémica relativamente a encontros entre membros da administração Trump e o embaixador russo nos EUA continua a crescer. Esta sexta-feira, a Casa Branca confirmou o encontro entre o genro de Donald Trump, Jared Kushner, e Sergey Kislyak. A reunião, que ocorreu em dezembro, durante um encontro com empresários na Torre Trump (Nova Iorque), tinha como objetivo “estabelecer um canal de comunicação” entre Moscovo e Washington.

Nesse encontro, que durou 20 minutos, esteve também presente o antigo conselheiro para a Segurança Nacional, Michael Flynn. Flynn pediu a demissão do cargo a 13 de fevereiro após terem vindo a público informações de que teria enganado o vice-presidente, Mike Pence, ao dizer que o tema das sanções dos EUA à Rússia não foi debatido no encontro que teve com o diplomata russo — só mais tarde admitiu que essa questão possa ter sido abordada

Casa Branca confirma encontro entre genro de Trump e o embaixador russo

Há ainda mais um membro do governo envolvido nesta polémica: Jeff Sessions. O Procurador-geral dos EUA pediu ontem escusa das investigações sobre a possibilidade de interferências, por parte da Rússia, nas eleições presidenciais norte-americanas, depois de a Casa Branca ter confirmado dois encontros entre Sessions e Kislyak durante a campanha presidencial. O Procurador garantiu, sob juramento, que “não tinha tido quaisquer comunicações com os russos” e voltou a afirmar que nunca debateu a campanha de Trump com o embaixador russo.

“Inteligente”, experiente” e “leal à Rússia”

Mas quem é, afinal, este diplomata que se tem encontrado com diversos indivíduos da confiança de Donald Trump? Sergey Kislyak, de 66 anos, é licenciado em engenharia e entrou para o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo em 1977, lê-se no Guardian. Casado e com uma filha já em idade adulta, esteve entre 1985 e 1989 nos EUA como enviado de Moscovo com a pasta do controlo de armas. Foi embaixador da NATO entre 1998 e 2003, ano em que foi para o cargo de vice-ministro dos Negócios Estrangeiros até ter sido nomeado, em 2008, embaixador para os EUA.

É descrito por Steven Pifer, ex-embaixador dos EUA na Ucrânia, como um homem “inteligente”, que fala “muito bem inglês”, com “sentido de humor” e “leal à Rússia”. Ao New York Times, R. Nicholas Burns, funcionário do departamento de Estado norte-americano durante a administração de George W. Bush, e que negociou três resoluções para impor sanções ao Irão com Kislyak, não usa termos tão simpáticos para descrever o russo. Apesar de assumir que se trata de alguém “experiente e bem preparado”, considera-o “cínico e inflexível”. “Foi muito agressivo com os EUA”, acrescentou.

Kislyak é alguém “experiente e bem preparado”, mas “cínico e inflexível”. “Foi muito agressivo com os EUA”, comenta Nicholas Burns, antigo funcionário do departamento de Estado norte-americano durante a administração Bush.

Michael McFaul, ex-embaixador norte-americano em Moscovo, refere-se a Kislyak como alguém “eficaz e experiente”, que exerceu “todos os cargos importantes no Ministério dos Negócios Estrangeiros — exceto um”. “Nunca se duvida de que país está a representar”, disse o antigo diplomata, citado pela CNN, destacando ainda “os almoços fantásticos na sua casa” em Washington.

McFaul descreveu ainda ao New York Times um “jantar extraordinário” que teve em casa do embaixador, antes de partir para a Rússia, onde esteve entre 2012 e 2014. Uma refeição com cinco pratos de cozinha de fusão russa, onde estavam presentes 50 pessoas, todas elas funcionários do Governo envolvidos nas medidas tomadas pela administração de Obama para a Rússia.

Fiquei impressionado com o facto de ele estar a tentar aproximar-se do Governo para cultivar relações com todo o tipo de pessoas”, afirmou o ex-embaixador em 2011, destacando a sua capacidade de “sociabilizar” e “entreter”, mas “sempre com um objetivo político”.

Espião ou mero diplomata?

Destacado há nove anos nos EUA, só recentemente começou a dar nas vistas, em particular quando o ex-Presidente dos EUA, Barack Obama, expulsou 35 agentes dos serviços de inteligência russos do país. “Fomos capazes de pôr fim à Guerra Fria, mas muito provavelmente não conseguimos construir uma relação pacífica pós-Guerra Fria”, afirmou Kislyak, numa conferência de imprensa no fim do ano passado.

Antes desta situação, em novembro do ano passado, quando confrontado com as alegações da interferências por parte da Rússia nas eleições norte-americanas, Kislyak defendeu que Moscovo nada tinha a ver com os casos de hacking. Argumentou ainda ser natural que os diplomatas estejam presentes em convenções políticas feitas por candidatos presidenciais — o diplomata russo foi apresentado a Donald Trump em abril de 2016, durante um discurso sobre política internacional no Mayflower Hotel, em Washington.

“Faz parte do nosso trabalho compreender, conhecer as pessoas, tanto do Partido Republicano como dos Democratas. Eu trabalho nos EUA há tanto tempo que conheço quase toda a gente”, afirmou o embaixador, citado pelo New York Times.

Recentemente, foi acusado de ser um espião russo e recrutador de espiões. Ideia veementemente contrariada por Moscovo. “Ninguém ouviu qualquer declaração por parte de representantes dos serviços secretos dos Estados Unidos sobre o nosso embaixador”, afirmou porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov. A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo foi mais longe: “Vou revelar-vos um segredo militar: os diplomatas trabalham e o seu trabalho consiste em fazer contactos no país em que estão. Se eles não fizerem esses contactos, se não participarem em negociações, não são diplomatas”, disse Maria Zakharova.

Além da atenção à gastronomia — diz-se que Kislyak tem um dos melhores chefs do universo diplomata em Washington –, a cultura é também uma das suas áreas de foco. Segundo o Guardian, fez a ponte entre companhias de bailado russa e o Kennedy Center for the Performing Arts, tendo mesmo organizado concertos na própria embaixada.