A acusação a José Sócrates vai mesmo ficar fechada a 17 de março, com a procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal, a mostrar-se inflexível quanto à hipótese de voltar a alargar o prazo. Segundo o semanário Expresso, Joana Marques Vidal deu instruções precisas para a acusação estar pronta na data prevista — que era indicativa — apesar dos desenvolvimentos do processo ocorridos nos últimos dias, nomeadamente com a constituição de Zeinal Bava e Henrique Granadeiro como novos arguidos.

Esta pressão da PGR em concluir a acusação, contudo, está a causar tensão no Ministério Público, por, segundo o semanário Sol, deixar de fora nomes como o do homem-forte de Lula da Silva, José Dirceu, que assim não deverá ser constituído arguido apesar dos fortes indícios de que recebeu 1,2 milhões de euros do Grupo Espírito Santo. Segundo aquele jornal, com os prazos a apertarem, nem chegou a ser enviada uma carta para as autoridades brasileiras para que José Dirceu fosse ouvido, no Brasil, no âmbito da investigação portuguesa.

Segundo o Sol, a pressão da PGR em concluir a acusação está mesmo a causar tensão no Ministério Público já que o DCIAP pode ter de abdicar de várias linhas de investigação.

É que, com a acusação a ser formalizada na data indicada pela investigação, os desenvolvimentos dos últimos dias podem não ter as diligências que os procuradores consideram ser necessárias. É o caso das denúncias de Hélder Bataglia contra Ricardo Salgado, do interrogatório e envolvimento do ex-presidente do BES, e da constituição de Zeinal Brava e Henrique Granadeiro, ex-líderes do Grupo PT, como novos arguidos. Isto numa altura em que o DCIAP, depois das revelações de Hélder Bataglia, considera estar a fechar-se o ciclo de alegadas luvas pagas pelo Grupo Espírito Santo.

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No interrogatório a que foi sujeito em janeiro, Hélder Batalha declarou ter depositado, a pedido de Ricardo Salgado, 12 milhões de euros em contas controladas por Carlos Santos Silva. Para o Ministério Público, o destino final da maior parte do dinheiro seria o ex-primeiro-ministro José Sócrates. Bataglia declarou ainda ter emprestado oito milhões de dólares a José Paulo Pinto de Sousa, primo de Sócrates.

Dois anos depois do início do inquérito, a investigação do Ministério Público continua sem que exista acusação ou arquivamento. As primeiras detenções no âmbito da Operação Marquês, que conta atualmente com 23 arguidos, ocorreram a 20 de novembro de 2014. O primo de José Sócrates será o 24º arguido, se ainda for notificado. Entre os arguidos encontram-se o ex-ministro socialista Armando Vara, a ex-mulher de Sócrates, Sofia Fava, Joaquim Barroca, do grupo Lena, o ex-responsável da farmacêutica Octapharma, Lalanda e Castro, e Diogo Gaspar Ferreira, responsável da empresa gestora do empreendimento Vale do Lobo (Algarve). José Sócrates, que esteve preso preventivamente mais de nove meses, está indiciado por fraude fiscal qualificada, branqueamento de capitais e corrupção passiva para ato ilícito.