Vinte por cento dos adolescentes já se envolveu em atos de auto-mutilação pelo menos uma vez , concluiu um estudo realizado na Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra.

“Cerca de 20% dos adolescentes [inquiridos] reporta ter tido pelo menos uma vez na sua vida o envolvimento em comportamentos autolesivos” para “regular emoções difíceis e intensas”, disse à agência Lusa a investigadora Ana Xavier, que realizou o estudo ao longo de quatro anos, no âmbito do seu doutoramento.

Ao todo, foram 2.863 os adolescentes questionados, de ambos os sexos, entre os 12 e os 19 anos e a frequentar entre o 7º e o 12º anos de escolaridade, em várias escolas do distrito de Coimbra. As conclusões revelam que 573 deles admitiram que incorreram em “comportamentos autolesivos” pelo menos numa ocasião.

De acordo com a nota de imprensa enviada pela Universidade de Coimbra às redações, estes comportamentos “envolvem atos diretos e deliberados de destruição do tecido corporal do próprio, como, por exemplo, cortar-se, queimar-se, sem intenção de suicídio mas com o objetivo de magoar e para regular as emoções difíceis e intensas”.

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Graves e complexos, estes atos são sintomáticos de dificuldades psicológicas e exigem geralmente intervenção clínica, diz também o comunicado. A investigadora Ana Xavier acrescenta: os resultados do estudo, semelhantes aos reportados em investigações internacionais, chamam a atenção para a “necessidade de implementação de programas de prevenção e de intervenção nas escolas para melhorar a saúde mental dos adolescentes e jovens. A adolescência é um período de desenvolvimento que apresenta elevados riscos para a psicopatologia”.

De acordo com o estudo, desenvolvido no Centro de Investigação do Núcleo de Estudos e Intervenção Cognitivo-Comportamental (CINEICC), as raparigas reportam um “maior envolvimento” em comportamentos autolesivos, sendo também elas as que relatam “maiores níveis de sintomas depressivos” e tendem a “ser mais autocríticas e a relatar maiores problemas com o grupo de pares”.

Há também uma maior incidência de autolesões entre os 15 e 16 anos, faixa etária que “coincide com um maior desenvolvimento do pensamento abstrato e comparação social com os outros”, notou a investigadora do CINEICC.

De acordo com a responsável pela investigação, apesar de os comportamentos autolesivos não sugerirem “intencionalidade de suicídio”, a verdade é que representam “um fator de risco”.

Para a investigadora, seria fundamental a criação de programas de “prevenção e de intervenção para ajudar” os jovens a lidarem de “forma mais eficaz com experiências emocionais”, através de “processos de regulação emocional mais adaptativos”, como estratégias de autotranquilização e de autocompaixão.

O estudo demonstra ainda que há uma tendência dos adolescentes que são vitimizados pelos seus colegas a serem “mais autocríticos e, por sua vez, a experienciarem mais sintomas depressivos e a envolverem-se em comportamentos autolesivos”.

Em declarações à Lusa, Ana Xavier aponta também para o facto de os adolescentes que recordam “experiências de ameaça, de subordinação e desvalorização nas relações precoces com a sua família” tendem a experienciar “maiores níveis de sintomas de depressão” e a autolesarem-se.

“Estes adolescentes não recordam apenas as experiências negativas com a sua família. Relatam poucas experiências positivas de calor, de suporte de segurança”, constatou a investigadora.

O estudo da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação foi financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia.