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Arte Contemporânea

Exposições, inéditos e uma lápide para Cesariny no Largo da Oliveirinha

A relação do poeta-pintor com a cidade de Lisboa será reconhecida através de uma lápide a descerrar em agosto. A novidade foi divulgada esta terça feira, na apresentação de um tributo a Cesariny.

Autor
  • Bruno Horta

O poeta que dizia nunca ter escrito um verso em casa, apenas nas ruas ou nos cafés de Lisboa, vai ver imortalizada a ligação que sempre manteve com a cidade. A data e o local já estão escolhidos. A 9 de agosto será descerrada uma lápide no Largo da Oliveirinha, entre o miradouro de São Pedro de Alcântara e o Elevador da Glória, a dois passos da Avenida da Liberdade.

A novidade foi divulgada nesta terça-feira de manhã, no Centro Cultural de Belém (CCB), durante a apresentação à imprensa do programa cultural que assinala os dez anos da morte do poeta-pintor. O programa inicia-se com a exposição “Mário Cesariny – de Cor e Salteado”, no Centro de Congressos do CCB, e prolonga-se até novembro, com concertos, leitura de poesia, debates e edição de livros, alguns com documentos inéditos. A iniciativa partiu de José Manuel dos Santos, programador cultural e amigo de Cesariny.

Ele dizia que quando um dia morresse não queria uma rua com o seu nome, mas uma placa, com um verso seu, no Largo da Oliveirinha, de que ele gostava muito”, explicou José Manuel dos Santos ao Observador. “Não se safou da rua, a rua já existe [na zona de Entre Campos], mas para além disso podemos acrescentar esta placa e cumprir o desejo dele.”

A vereadora da Cultura da Câmara de Lisboa, Catarina Vaz Pinto, já se mostrou interessada na ideia, referiu José Manuel dos Santos – que exerceu funções de assessor cultural dos presidentes da República Mário Soares e Jorge Sampaio e atualmente trabalha na administração da Fundação EDP.

O largo ainda precisa de umas obras, que estarão prontas até 9 de agosto, penso eu, e para esse dia vamos imaginar uma festa simpática, com poemas ou música. O que é fundamental é pormos lá uma placa com um poema ou um verso dele e a dizer que Mário Cesariny gostava muito daquele largo”, acrescentou.

Para antes e depois daquela data – que é a do aniversário do nascimento do poeta-pintor, em 1923 – muitas outras atividades estão pensadas. Desde logo a 25 de março, Dia Mundial da Poesia. Das 14h00 às 19h00, no CCB, terá lugar a leitura de poesia por alunos da Casa Pia e a execução de peças de Ravel, Händel e Bach. Cesariny tinha forte empatia para com os alunos da Casa Pia e legou em testamento um milhão de euros a esta instituição que apoia crianças e jovens pobres.

No mesmo dia será exibido o documentário biográfico Autografia, de Miguel Gonçalves Mendes; a Orquestra Sinfónica Juvenil irá apresentar pela primeira vez uma composição do maestro Christopher Bochmann feita a partir de versos do poeta; e uma tertúlia sobre ele terá com convidados José Manuel dos Santos, a pintora Ilda David, o editor Manuel Rosa e o presidente do CCB, Elísio Summavielle.

A 27 de abril será inaugurada na livraria Sistema Solar, no Chiado, uma mostra de manuscritos e provas editoriais dos livros que Cesariny publicou pela Assírio & Alvim a partir de 1980. Em outubro, a mesma editora vai dar à estampa o primeiro volume (ainda não se sabe quantos se seguirão) da edição crítica da obra de Cesariny, “Poesia Reunida”.

Pela editora Documenta, ainda em outubro, sairá o volume de inéditos “Cartas de Mário Cesariny para Frida e Laurens Vancrevel”, poeta e pintor surrealista holandês. Segundo o editor Manuel Rosa, o livro mostra “a constante qualidade literária de Cesariny, fosse numa carta ou num simples postal” e revela “com muito pormenor a situação portuguesa literária e também política” de antes do 25 de Abril.

Livre e pessoal

Quanto à exposição “Mário Cesariny – de Cor e Salteado”, que abriu esta terça, dia 7, e pode ser vista até 16 de abril, reúne 30 dezenas de pinturas, esculturas, colagens e desenhos da autoria de Cesariny, pertencentes à Fundação Cupertino de Miranda, em Famalicão, que detém o espólio do artista.

Apesar de breve, a mostra tenta abarcar as principais técnicas usadas, ou criadas, por Cesariny: as “sismofiguras”, as “soprofiguras” e as composições “aquamoto”. “São termos aplicados pelo próprio para descrever técnicas muitos simples”, disse aos jornalistas António Gonçalves, diretor artístico da Fundação Cupertino de Miranda.

A forma como ele usou estas técnicas dá-nos um registo muito precioso. As ‘sismofiguras’ eram feitas por Cesariny quando andava de elétrico. À medida que o elétrico andava, o lápis ou a caneta iam fazendo o desenho. As ‘soprofiguras’ eram obtidas pelo sopro na tinta-da-china. E o ‘aquamoto’ resulta também da utilização da tinta-da-china. A água já não a consegue diluir depois da secagem, mas, quando uma parte ainda não estava completamente seca, ele molhava o papel em água e expandia, diluía o desenho, criando figuras do acaso. Este acaso é relevante, porque Cesariny agarra-o, não espera apenas pelo acaso, faz desse acaso um momento poético”, explicou o mesmo responsável.

Mário Cesariny é um dos principais nomes do movimento Surrealista em Portugal e nas últimas décadas tornou-se uma figura pop, símbolo de criatividade e liberdade – em parte pela forma aberta como viveu a sua homossexualidade durante os anos da ditadura.

Mais reconhecido como poeta do que como artista plástico, “tem vindo a ser reavaliado” neste último campo, segundo José Manuel dos Santos. Sobretudo desde 2002, quando venceu o Grande Prémio EDP Artes Plásticas e teve direito a uma grande retrospetiva em 2004 no Museu da Cidade, em Lisboa.

Passou a ser olhado de outra maneira. Era visto como um poeta que fazia umas coisas como artista plástico. Foi desvalorizado pelo cânone, achava-se que ele não desenhava como desenha o Pomar, por exemplo. Mas o Álvaro Lapa também não e não deixa de ser um grande artista, e nem isso é um indicativo na arte moderna e contemporânea”, defendeu o administrador da Fundação EDP.

“Em termos plásticos, o Cesariny tem uma voz muito livre e pessoal. Nos anos 40, naquele país completamente fechado, ele que nunca tinha saído daqui estava a fazer coisas absolutamente extraordinárias”, resumiu.

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