O presidente do grupo parlamentar da UNITA, maior partido da oposição em Angola, desafiou esta terça-feira o Ministério Público angolano a investigar as acusações relacionadas com a corrupção e branqueamento de capitais, que surgem em Portugal a dirigentes angolanos. “O conjunto de indicadores que algumas dessas reportagens que vêm de Portugal trouxeram, obrigam a Procuradoria-Geral da República de Angola a investigar. Ou então estará a desviar o seu olhar daquilo que é a sua responsabilidade”, afirmou Adalberto da Costa Júnior.

O líder parlamentar da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) falava em Luanda, em conferência de imprensa, tendo comentado notícias publicadas em Portugal, nomeadamente sobre o caso do Banco Espírito Santo Angola (BESA) e envolvimento de altos responsáveis do regime, considerando que tais abordagens afetam a imagem do país.

“Algumas dessas reportagens conformam gravíssimas violações à lei, saídas milionárias do Banco Nacional de Angola, absolutamente ilegais que criam pobrezas, sofrimentos, danos e que maltratam a imagem do país, com puro silêncio das instituições. Isto não pode continuar no futuro, porque estas ações atentam efetivamente a todos nós”, observou o deputado da UNITA.

Esta posição surge igualmente depois de o Ministério Público português ter acusado formalmente, em fevereiro, entre outros, o vice-Presidente de Angola (e ex-presidente da petrolífera Sonangol) Manuel Vicente, no âmbito da “Operação Fizz”, relacionada com corrupção e branqueamento de capitais, quando ainda estava na petrolífera estatal.

Na ocasião, o Governo angolano classificou como “inamistosa e despropositada” a forma como as autoridades portuguesas divulgaram a acusação do Ministério Público de Portugal ao vice-Presidente de Angola e alertou que essa acusação ameaça as relações bilaterais. “Hoje temos fora do país valores financeiros saídos ilegalmente, superiores às reservas que o país oficialmente tem para responder as necessidades de gestão nacional. Isto é muito grave e deve-se pôr um ponto final nesta matéria”, criticou ainda.

Questionado sobre a atuação dos órgãos judiciais angolanos, o líder parlamentar da UNITA considerou que os mesmos estão “absolutamente corrompidos, fora do prazo” e com “falta de legitimidade”. “O que faz o Tribunal de Contas? O Tribunal Supremo fala mas não age. O Tribunal de Contas e o Tribunal Constitucional estão fora do prazo, não têm falta de legalidade, mas sim de legitimidade. O nosso sistema judicial está absolutamente corrompido do topo à base, não só na visão da UNITA mas na visão de qualquer cidadão isento. Temos dirigentes com bens que não justificam o seu rendimento legal”, acusou.

Adalberto da Costa Júnior aproveitou o momento para tecer duras críticas sobre a atuação do parlamento angolano, considerando mesmo que “não serve o interesse do cidadão”, até porque as transmissões das reuniões plenárias que são apresentadas à comunicação social – que acompanha o evento numa sala à parte dentro da Assembleia Nacional – serão censuradas.

“Nós descobrimos que aquilo que vocês [jornalistas] veem na sala é uma transmissão censurada e não é uma realidade da plenária. Porque há questões que se passam na sala e que vocês não veem, por existirem quatro filtros em áudio e vídeo, que censuram toda informação que é passada à comunicação social que vai à cobertura das atividades parlamentares”, concluiu o deputado da UNITA.