Antes do início do jogo, o muro mais famoso da Europa levantou uma tarja gigante que dizia “Amanhã os jornais vão escrever: B. Dortmund esmaga Benfica”. Foi a imagem do encontro. E valeu mais do que 1.000 palavras – acertaram quase na mouche, recordando o 5-0 de 1963. Falharam por um. Mas temos de fazer o exercício de tentar explicar o porquê para uma queda tão abrupta na prova. E começamos pelo mais evidente: o mundo deixou de estar do avesso como no estádio da Luz, na primeira mão (1-0 para as águias).

Vamos retomar a crónica da primeira mão do B. Dortmund-Benfica: Ederson defendia o mais complicado, Aubameyang falhava o mais fácil. De pé direito, de pé esquerdo. De bola corrida, de bola parada. Até uma grande penalidade. No entanto, o azar não tocou duas vezes e o gabonês precisou apenas de quatro minutos para, de cabeça (a única forma que ainda não tinha experimentado para bater o guarda-redes encarnado), empatar a eliminatória na primeira ação do jogo.

Ficha de jogo

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B. Dortmund-Benfica, 4-0

2.ª mão dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões

Westfalenstadion, em Dortmund

Árbitro: Martin Atkinson (Inglaterra)

B. Dortmund: Bürki; Piszczek, Sokratis (Ginter, 88′), Bartra; Durm, Gonzalo Castro, Weigl, Schmelzer; Dembélé (Kagawa, 81′), Pulisic e Aubameyang (Schürrle, 86′)

Treinador: Thomas Tuchel

Suplentes não utilizados: Weidenfeller, Raphaël Guerreiro, Passlack e Mikel Merino

Benfica: Ederson; Nélson Semedo, Luisão, Lindelöf, Eliseu; Samaris (Zivkovic, 74′), André Almeida; Salvio (Jonas, 64′), Pizzi, Cervi (Raúl Jiménez, 82′) e Mitroglou

Treinador: Rui Vitória

Suplentes não utilizados: Júlio César, Jardel, André Horta e Carrillo

Golos: Aubameyang (4′, 61′ e 85′) e Pulisic (59′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Gonzalo Castro (31′), Samaris (33′), Dembélé (38′) e Piszczek (65′)

Na antevisão do encontro, Rui Vitória tinha destacado que, apesar de ser normal a equipa visitada entrar forte, o Benfica teria de dizer “Alto que estamos cá”. Mas nunca disse. Ou quando disse foi de uma forma tão tímida que mal se ouviu. E só não perdeu ainda mais o pio porque o cabeceamento de Bartra (9′) e um remate em jeito de fora da área de Dembelé (11′) passaram ao lado da baliza de Ederson. O que falhava? Sobretudo as transições ofensivas. Com tanta gente acantonada entre defesa e meio-campo, era preciso velocidade na frente para deixar o aviso aaos visitados mas essa parecia restrita a Dembélé, Pulisic e Aubameyang.

A meio da primeira parte, os encarnados ganharam alguma qualidade de circulação e, logo aí, tentaram dar o toque aos germânicos de que a eliminatória não era nem à vontade, nem à vontadinha. E foi do pé de Cervi (por azar, o direito) que surgiu o primeiro remate, para defesa fácil de Bürki. Oito minutos mais tarde, Luisão saltou mais alto na sequência de um livre lateral mas cabeceou à figura do guarda-redes alemão. Desta vez com perigo. Aliás, como se percebeu pelas bancadas, onde apenas se ouviam os cânticos em bom português. E curiosamente com uma nuance tática que os germânicos demoraram a ler: as deslocações de Salvio e Cervi para dentro com a subida de Nélson Semedo à direita e a passagem de Pizzi para a esquerda. Só perto do intervalo o Borussia Dortmund voltou a dar sinais na frente, com Aubameyang a cabecear para defesa apertada de Ederson após cruzamento de Schmelzer (42′).

O segundo tempo começou com uma oportunidade de bandeja para Cervi, que aproveitou um corte para zona frontal após cruzamento de Nélson Semedo para disparar forte, mas contra uma muralha amarela e preta que se tinha entretanto erguido, enquanto o argentino preparava o remate com o melhor pé (47′). Parecia melhor o Benfica. Pelo menos mais calmo e a aproximar-se do que consegue fazer. Mas era só isso, uma mera aparência. E tanta descontração correu mal: algumas bolas perdidas na zona de primeira fase de construção devolveram o nervosismo aos encarnados, que foram perdendo a sua identidade entre erros próprios sem necessidade.

Ederson ainda evitou o pior com uma defesa fantástica aos pés de Aubameyang, mas em dois minutos toda a estratégia das águias ruiu: primeiro foi Pulisic, desmarcado numa diagonal no espaço entre Lindelöf e Eliseu a picar por cima do brasileiro (59′); depois foi o suspeito do costume, Aubameyang, a encostar de primeira no coração da área um cruzamento tenso de Schmelzer após um passe a rasgar da direita para a esquerda (61′). Dois grandes golos que colocaram a nu as diferenças de argumentos ofensivos entre as duas equipas.

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Aubameyang subiu ao terceiro lugar da lista dos melhores marcadores da Liga dos Campeões com sete golos, os mesmos de Lewandowski (só Messi e Cavani têm mais). E mais de metade desses golos foram contra equipa portuguesas: três contra o Benfica, um com o Sporting

O jogo acabou aí. Rui Vitória ainda lançou Jonas, Zivkovic e Raúl Jiménez mas o mal estava feito. O Benfica desapareceu, por completo. E mais uma vez, coincidência ou não, com dois pivots defensivos em vez de Pizzi à frente do ‘6’ (já tinha sido assim em Nápoles e nos últimos 15 minutos na Turquia). Não mais voltou sequer a criar uma oportunidade na frente. E foi o Borussia Dortmund, que já tinha atirado uma bola ao poste por Bartra, a aumentar a vantagem com um hat-trick de Aubameyang, a encostar após nova situação de superioridade criada pelas laaterais.

O Benfica caiu com estrondo da Champions, de novo frente a um conjunto alemão. Mas a verdade é que não foi o 4-0 de hoje a enganar mas sim o 1-0 na Luz: o Borussia Dortmund, quando quer, é uma das melhores equipas da Europa. E não dá margem para dizer “Alto que estamos cá”.

P.S. Mitroglou, que aparece sempre nos títulos de quase todos os textos de jogos do Benfica, jogou. 90 minutos. Ainda para mais num encontro especial, por ser no país onde vive a família. Mas ao longo de hora e meia praticamente não tocou na bola. Nem ela lhe chegou como é costume.