Com os EUA à beira de mais uma subida dos juros e a inflação na zona euro a subir, Mario Draghi conseguiu um consenso no BCE para garantir que as taxas de juro não vão subir nos próximos tempos. No final da reunião periódica do Conselho do BCE, o presidente da autoridade monetária indicou que as taxas de juro serão mantidas “nos níveis atuais ou inferiores” até bem depois de terminarem as compras de dívida pública.

O programa de compra de dívida está marcado para terminar no final deste ano, mas a expectativa da maioria dos analistas é que este seja prolongado, ainda que a um ritmo mensal de compras mais lento. Oficialmente, Mario Draghi afirmou esta quinta-feira que se as condições económicas se deteriorarem, o BCE reserva o direito de prolongar o programa ou aumentar o ritmo das compras de dívida.

Em rigor, o BCE garante que os juros não irão subir antes de terminarem as compras de dívida em termos líquidos, ou seja, o BCE compromete-se a não subir os juros enquanto estiver a comprar mais dívida do que aquela que se vence (atinge a maturidade) a cada mês. Ou seja, fica a dúvida sobre se o BCE poderá estar ainda a comprar alguma dívida (ainda que menos do que a que está a vencer) e os juros subirem.

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A taxa de inflação já chegou aos 2%, o objetivo do BCE, mas Draghi justifica esse aumento com a variação dos preços da energia. Segundo o presidente do BCE, continua a haver uma inflação subjacente (mais ligada à subida dos salários, por exemplo) pouco robusta, pelo que se justifica a decisão do BCE de se comprometer com juros baixos por mais tempo.

Por outro lado, logo no comunicado que Draghi leu aos jornalistas ficou claro que o BCE retirou do comunicado (em relação à última edição) a frase que falava na possibilidade de o BCE usar “todos os instrumentos à disposição” para aplicar mais estímulos na economia. Mario Draghi explicou que essa frase foi retirada para “sinalizar que o BCE considera que o sentimento de urgência, que existia quando havia um risco de deflação, desapareceu”.

Esta declaração terá contribuído para levar o euro a valorizar-se em relação ao dólar. O euro-dólar está a subir cerca de meio ponto percentual, para mais de 1,06 dólares, depois de três dias consecutivos em queda ligeira.

O euro é irrevogável”, disse MarioDraghi.

Perto do final da conferência de imprensa, Mario Draghi foi questionado sobre as dificuldades técnicas que o BCE tem tido para comprar dívida de países como Portugal, já que o BCE já está “tapado” em muitas das linhas de obrigações já que não quer comprar mais de 33% de cada linha. Os analistas dizem que esse é o limite que está a levar a uma desaceleração das compras de dívida portuguesa nos últimos meses. Mas Mario Draghi respondeu com poucas palavras: “o programa está bem encaminhado, no calendário previsto”.

Inflação na zona euro atinge os 2% e pressiona Draghi a acabar com os estímulos

A taxa de juro do BCE está em 0% (isto é, os bancos vão buscar liquidez ao BCE sem pagar qualquer juro) e a taxa dos depósitos está negativa, em -0,4%, ou seja, os bancos pagam quando depositam liquidez no BCE. Além destes patamares de taxa de juro, o BCE está a comprar dívida pública e privada dos países da zona euro a um ritmo de 80 mil milhões de euros, um ritmo que vai descer para 60 mil milhões a partir de abril (até dezembro, termo do programa).

A reunião do Conselho do BCE desta quinta-feira coincidiu com a divulgação de novas projeções para o crescimento e para a inflação. O BCE está mais otimista: o PIB em 2018 deverá crescer 1,7%, mais uma décima em relação ao que se previa, e deverá crescer 1,6% em 2019 (sem alteração).

Já a inflação deverá ser de 1,7% em 2017 (contra os 1,3% anteriormente previstos), depois mantendo-se entre 1,6% e 1,7% nos próximos dois anos.