Aquele casaco novo, com um corte fora do habitual, mais ousado e/ou divertido; a saia plissada que nunca pensámos ter coragem de vestir ou os sapatos de salto alto comprados para uma ocasião especial que nunca mais chega. O mais provável é que a leitora (mas também o leitor) tenha uma ou mais destas peças no armário. Casacos, saias ou sapatos que, por algum motivo, foram comprados mas nunca usados e que permanecem no fundo do roupeiro — às vezes ainda com a etiqueta por arrancar. Afinal, porque é que compramos roupa que depois não chegamos a usar?

À partida a resposta parece óbvia mas, na verdade, a problemática — que, mesmo sem citar um qualquer estudo científico, podemos afirmar ser recorrente nos armários femininos — é mais complexa do que isso. E basta procurar no motor de pesquisa Google pela pergunta “porque compramos coisas que não usamos?” para aparecerem cerca de nove milhões de resultados (alguns deles deverão remeter-nos para o filme de 2009, “Louca por Compras” — o título diz mesmo tudo).

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Madalena Ferreira, 29 anos, também já deu por si a interrogar-se sobre o assunto. Não que tenha por hábito comprar roupa que acaba por não usar, mas há uma peça ou outra no armário que são o reflexo desse mesmo ponto de interrogação. “Tenho umas calças com flores que, sempre que tento vestir, parece que estou prestes a sair à rua de pijama… E um casaco que estava com 70% de desconto e que ainda não usei”.

Os motivos que nos levam a adquirir coisas para, depois, caírem em esquecimento são muitos. Um deles ocorre, por exemplo, quando no processo de compra ignoramos informação que não serve de suporte aos nossos desejos, tal como escreve a psicóloga especializada em hábitos de consumo Kit Yarrow na publicação Time. Falamos daquela vozinha, vinda do subconsciente, que nos diz baixinho que essa camisa não conjuga com o resto da roupa, ou que esses sapatos não são mesmos precisos (e não são!).

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Outra das razões está relacionada com a perceção errada que podemos ter de nós próprios — aqui, o foco não é necessariamente o objeto, antes a ideia que uma pessoa tem de si mesma. É também Yarrow quem argumenta que, quando vamos às compras e ponderamos levar uma determinada peça de roupa, entra em ação a capacidade de imaginarmos o nosso futuro eu — é por isso que há quem goste tanto de ir às compras. O problema existe quando, neste processo, imaginamos um estilo de vida que não corresponde ao nosso. Isto é, quando compramos algo a pensar na fantasia e não na vida real, a pensar na nossa versão mais magra ou na nossa versão mais aventureira e festiva, por exemplo.

É o que acontece a Inês Almeida, de 23 anos, cada vez que compra um vestido nos saldos. A ideia é poupar dinheiro e ter o que vestir em ocasiões mais festivas, mas não é bem isso o que acontece. “A maior parte das coisas que compro são para festas. Mas quando as tenho acabo por comprar outras peças.” A roupa formal é também uma das “vítimas”, uma vez que acaba por perder utilidade no dia a dia. Inês admite que não raras vezes compra coisas que, no fundo, sabe que não vai usar, pelo que em última análise sobra-lhe uma mão cheia de remorsos.

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Mas há ainda quem não use uma peça de roupa por gostar demasiado dela. Kit Yarrow relaciona esta realidade com pessoas que já se sentiram privadas de algo ou que sofreram perdas na infância. E nestes casos de não usar a peça por amor à camisola (literalmente), há ainda quem compre aquela roupa ou aquele acessório em duplicado, não vá uma das peças estragar-se… Sobre o assunto, o jornal The Huffington Post assinala ainda mais dois motivos: há quem não use as peças por culpa, por ter gasto muito dinheiro, como se não usar aquela roupa fosse uma espécie de punição; ou ainda, quem, com o avançar da idade, não se ache digno de usar algumas coisas.

Mas há que ter em conta o contexto em que vivemos, carregado de estímulos. Prova disso são as estratégias de marketing usadas online, tal como recorda a psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva: basta pesquisar”litle black dress” numa segunda-feira que até sexta vão aparecer anúncios de vestidos pretos em todas as redes sociais e mais algumas. São estas estratégias que nos fazem comprar aquilo que nos apetece mas de que não precisamos e que, de alguma forma, ajudam a moldar o nosso padrão de consumo de cada vez que o impulso cede em detrimento da ponderação.

“Esta é a era do eu sou aquilo que tenho”, conclui a psicóloga, ao mesmo tempo que reforça que muitas vezes compramos coisas para nos tornarmos nas pessoas que queremos ser.