O primeiro ano de Assunção Cristas na liderança do CDS-PP ficou marcado pela sua candidatura à Câmara de Lisboa, e pelo objetivo de vincar um estilo próprio, na mensagem política e na presença mediática e social.

Assunção Cristas tornou-se a sétima líder do CDS-PP, a primeira mulher nessa função, no Congresso de Gondomar, pondo fim a um ciclo de 16 anos da mais longa presidência centrista, a de Paulo Portas.

No Congresso, que se realizou entre 12 e 13 de fevereiro de 2016, Filipe Lobo D’Ávila encabeçou uma lista ao Conselho Nacional e quebrou o tom de unanimidade que parecia ter sido aberto pela desistência de Nuno Melo de uma candidatura à liderança.

Dessa lista saiu um grupo liderado por Lobo D’Ávila, que se reúne mensalmente em jantares, por vezes de cunho programático, envolvendo o antigo deputado por Aveiro Raúl Almeida, o ex-líder da distrital de Braga e antigo deputado Altino Bessa, o secretário de Estado da Educação do governo PSD/CDS-PP João Casanova de Almeida ou o anterior líder da Juventude Popular Miguel Pires da Silva.

A presidência de Cristas foi pontuada por um único momento de agitação interna visível, em agosto do ano passado, quando o partido historicamente alinhado na política angolana com a UNITA é convidado e resolve estar presente, pela primeira vez, no Congresso do MPLA.

Paulo Portas, que no discurso de despedida do partido no Congresso havia pedido que se evitasse a “tendência para judicialização das relações entre Portugal e Angola”, também foi à reunião magna do MPLA, a título pessoal.

Nessa altura, são verbalizadas críticas a Assunção Cristas que vão além da participação no congresso do partido do regime em Angola e Raúl de Almeida, apoiante de Lobo D’Ávila, acusa a líder de se comportar mediaticamente como uma “atriz de telenovelas” – numa referência à forma como tem escolhido exercer a sua presença mediática – enquanto no país os incêndios assolam concelhos governados pelo CDS, como Albergaria.

As críticas silenciam-se depois do anúncio, na ?rentrée’ do partido, da candidatura da líder à presidência da Câmara de Lisboa. Em setembro de 2016, em Oliveira do Bairro, Assunção Cristas diz que é candidata: “Tenho o vento de Lisboa colado à minha pele e a água do Tejo colada à minha alma”.

A líder centrista, que tem concentrado a sua pré-campanha em visitas a bairros sociais geridos pela empresa municipal Gebalis, e também a escolas e creches, posicionou-se na corrida à autarquia da capital tomando a dianteira ao PSD, que, seis meses depois, não apresentou o seu cabeça-de-lista.

Houve notícias sobre conversações entre os dois partidos para um eventual apoio do PSD, mas a questão foi esvaziada pelo líder social-democrata, Pedro Passos Coelho, em janeiro, que esclareceu que o partido terá um candidato próprio.

Ainda na frente autárquica, onde centristas têm a presidência de cinco câmaras municipais, numa das mais emblemáticas, Ponte de Lima, Cristas viu o ex-deputado Abel Baptista lançar uma candidatura independente, contra o atual autarca do CDS que se recandidata ao cargo.

Nas primeiras eleições da era Cristas, as regionais dos Açores, o partido aumentou o seu grupo parlamentar de três para quatro deputados, reelegendo mandatos pelas ilhas Terceira e São Jorge e reforçando o número de parlamentares eleitos pelo círculo de compensação de um para dois.

No parlamento, o CDS-PP tem corporizado a máxima da líder de fazer “política pela positiva”, com a apresentação de pacotes legislativos sobre educação, natalidade, o apoio a idosos e envelhecimento ativo, a segurança social, e 53 propostas de alteração ao Orçamento do Estado.

Nos debates quinzenais, a presidente centrista tem enfrentado o primeiro-ministro, António Costa, a quem acusa frequentemente de mentir, usando um registo que passa por fazer muitas perguntas curtas e sobre vários assuntos, mas também em oferecer ?presentes’.

Desde gráficos embrulhados num laço cor-de-rosa para contrariar os dados económicos do governo, óculos para ver a realidade e soros da verdade, a líder do CDS tem recorrido a inúmeras oferendas simbólicas.

Assunção Cristas inaugurou uma intensa presença nas redes sociais inédita entre os líderes partidários e tornou-se também a única dirigente máxima de um partido a ter um espaço de comentário semanal numa televisão, a CMTV, e também uma coluna no jornal Correio da Manhã.

A presidente do CDS levou ao parlamento a apresentadora de televisão Cristina Ferreira para uma conversa sobre empreendedorismo no feminino, esteve presente no programa televisivo de Júlia Pinheiro e deu entrevistas a publicações de grande tiragem ditas femininas, como recentemente, a propósito do Dia Internacional da Mulher, à revista Maria.

As múltiplas referências à sua família, mas também à sua fé católica, têm convivido na nova presidente do CDS-PP com manifestações de abertura à diversidade a outras vivências familiares diferentes da sua.

Dois dias depois do tiroteio em que morreram 50 pessoas numa discoteca ?gay’ em Orlando, Assunção Cristas usou as redes sociais para deixar uma mensagem de “condenação firme e inequívoca” a um “ataque vil e homofóbico à liberdade”, desde logo “à liberdade da comunidade LGBT, o primeiro atentado em que esta motivação homofóbica é evidente” e que ofende profundamente a liberdade de todas as mulheres e homens livres”.

O CDS de Assunção Cristas mantem-se contra a interrupção voluntária da gravidez, em cujo ativismo, durante a campanha pelo Não no referendo, a agora líder foi ?descoberta’ por Paulo Portas, e na recusa em despenalizar a morte assistida, sendo o único partido do hemiciclo português a recusar em bloco e à partida essa prática.