Jonah Kipkemoi Chesum enganou tudo e todos. Até a nós, confessamos. Imagina aqueles jogos fora de horas em que a crónica está praticamente pronta, a ficha fechada, e de repente há um golo em período de compensação que nos coloca a carregar furiosamente no Delete? Foi mais ou menos isto que aconteceu, com a diferença que em vez do Delete ficou pelo Rascunho. Esta é a nova história da lebre e da tartaruga. Também foi uma fábula. Mas aqui ganhou a lebre.

Primeira curiosidade: é complicado sequer encontrar o nome pelo qual o queniano é conhecido. Uns chamam-lhe Jonah Kipkemoi, outros Jonah Chesum. Vamos então ficar pelo primeiro nome, num sinal de proximidade a quem nos voltou a fazer acreditar que não há impossíveis (e outra vez em Barcelona – o que tem esta cidade de especial?).

O atleta, que tinha competido nos Jogos Paralímpicos de 2012 em Londres, foi chamado para a maratona da cidade condal para puxar os atletas da frente para um tempo próximo do atual recorde do mundo. Era, como se diz no atletismo, a lebre. E devia fazer esse papel até aos 35 quilómetros – aí, como é habitual, encostava, dava lugar a outros e recebia o cachet alinhavado no início. Mas não, quis continuar. E continuar. E continuar. E continuar. E continuar. E continuar. E continuar. Assim, sete vezes, tantas como os quilómetros que fez a seguir ao que estava previamente combinado para cortar a linha da meta na frente.

“Estou realmente surpreendido”, confessou no final. Ele e todos. Afinal, estava apenas a fazer a sua primeira maratona aos 27 anos, depois de boas experiências em meias maratonas. “Não esperava esta marca”, acrescentou o atleta que, em pequeno, sofreu graves queimaduras na cara e no braço direito e que, agora, compete nas provas absolutas e paralímpicas.

Mas voltemos agora ao início – porquê esta finta ao que tínhamos preparado? Porque a semana passada foi marcada por um novo projeto, desta feita da Nike, que tem como grande objetivo preparar três atletas (Eliud Kipchoge, Lelisa Desisa e Zersenay Tadese) para tentarem fazer a maratona em duas horas. O recorde mundial está, nesta altura, em 2.02.57 (Dennis Kimetto, em 2014). Ou seja, têm de correr os 42,195 quilómetros quase em menos três minutos. E as atenções, neste caso as nossas, estavam focadas nessa (im)possibilidade.

Já antes tinha havido o Sub 2 Hrs, ideia concebida entre o antigo campeão Haile Gebrselassie e Yannis Pistsiladis, um investigador da Universidade de Brighton.