São poucos, ou nenhuns, os clubes que o admitem, mas a verdade é que muitas contratações têm sempre um outro lado da moeda além do desportivo – o comercial. Captar investidores ou novos nichos de mercado é um jogo que se joga fora das quatro linhas a qualquer momento. E acontece, sobretudo com os jogadores asiáticos que chegam à Europa. Mas, pelos vistos, também pode acontecer o contrário. E o culpado é Bruno, o “maior vilão” do futebol brasileiro que foi apresentado esta terça-feira.

O Boa Esporte decidiu apostar na contratação do guarda-redes. Olhando apenas para o seu currículo, seria uma boa aposta – afinal, passou e foi titular em clubes como o Atlético Mineiro ou o Flamengo. No entanto, o jogador caiu em desgraça após ter sido condenado, a 22 anos e três meses de prisão pelos crimes de homicídio qualificado da namorada, ocultação de cadáver e sequestro de um filho que ambos tinham. No último mês, e após recurso, Bruno foi libertado de forma provisória pelo Supremo Tribunal Federal, por estar preso há seis anos e sete meses sem ter sido condenado em segunda instância.

O que parecia “bom” em termos desportivos tornou-se um autêntico caos sem que o jogador se tenha sequer estreado – os principais patrocinadores do clube rescindiram todos com o Boa Esporte. A Nutrends (suplementos alimentares) foi a primeira a debandar, ainda antes da primeira imagem oficial do jogador, seguindo-se a Kanxa (material desportivo), a Magsul (clínica de ressonância magnética) e o Grupo Góis & Silva, que tinha a publicidade na parte da frente das camisolas. “Ficou acordado consensualmente um período operacional para o clube apresentar o novo uniforme sem as marcas do Grupo Góis & Silva”, acrescentou em comunicado.

A conferência de imprensa que terminou há minutos começou com uma nota por parte do gabinete de comunicação: não seria respondida e terminaria de imediato a conversa se fosse feita alguma pergunta extra-futebol. “Acha que merece uma nova chance?”, foi a primeira questão. “Não te vou responder a isso”, foi a primeira resposta.

Começou mal, mas o guarda-redes lá conseguiu dar algumas respostas entre a nítida tensão que se vivia na sala. “Estou muito feliz pela oportunidade que me deram. Venho-me preparando há alguns anos para isto. As pessoas correm de mim pelo que aconteceu no passado mas o Boa Esporte está a abrir-me as portas. Estou muito feliz e motivado, só tenho de agradecer. Deus está a abrir as portas para nós, tenho a certeza que é Deus. A primeira coisa a fazer é preparar-me para jogar, Deus vai guiar os meus passos”, referiu. Ainda assim, foram muitas as perguntas sem resposta porque, numa expressão brasileira, “fugiam da pauta”.

“Corpo a corpo o Bruno está sendo muito bem recebido. O Bruno fica triste com a saída dos patrocinadores, mas tenho a certeza que virá um mais forte ainda”, comentou Lúcio Mauro, o empresário do jogador, em declarações à Folha de São Paulo.

De acordo com a publicação, também os moradores da cidade de Varginha, no sul de Minas Gerais, estão divididos em relação à contratação do guarda-redes.

A estreia pelo Boa Esporte, que está na Série B do Brasileiração e na 2.ª Divisão do Campeonato Mineiro, trará a sentença final em relação à aceitação ou não que Bruno terá neste regresso aos relvados. Desta vez, sem recurso.