Na sua primeira proposta para o Orçamento do Estado enquanto Presidente dos EUA, Donald Trump deixa claro quais são as suas prioridades, investindo fortemente no setor militar e na defesa, ao mesmo tempo em que procura compensar esses gastos com cortes na investigação para a saúde, na educação, na diplomacia, nas ciências e nos media públicos.

Entre as agências mais afetadas pela proposta de Donald Trump, estão a Agência de Proteção do Ambiente, com um desinvestimento de 31%; o Departamento de Estado, que terá menos 29% no seu orçamento, que verá a maior parte dos cortes a incidirem nos programas de ajuda a países estrangeiros. Também o Departamento de Agricultura e o Departamento do Trabalho terão menos 21% em 2018, segundo o plano de Donald Trump, que foi apresentado esta quinta-feira sob o título “A América Primeiro”. Além disso, são defendidos cortes na ordem dos 14% na educação e o desinvestimento nos media públicos podem pôr em causa a viabilidade de centenas de rádios locais ou da televisão PBS.

Segundo o plano do Presidente dos EUA, estes cortes representam 54 mil milhões de dólares, que na sua totalidade servirão para compensar o investimento no setor militar e também na defesa das fronteiras dos EUA. Ao todo, está previsto um aumento de 6% no Departamento de Veteranos de Guerra, 7% no Departamento de Segurança Interna e 9% do Departamento de Defesa.

Além disso, Donald Trump escolheu não cortar na Segurança Social e no Medicaid, que juntos compõem cerca de dois terços das despesas do Orçamento do Estado norte-americano.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Já o muro entre o México e os EUA, uma das promessas eleitorais mais importantes de Donald Trump, não é contemplado no orçamento de 2018, uma vez que o projeto da Casa Branca é avançar esse projeto já em 2017 — mas ainda não é claro como é que este poderá ser financiado.

Republicanos vão querer alterar proposta de Trump

Os dados apresentados esta quinta-feira não representam nenhuma surpresa, tendo em conta aquilo que já tinha sido prometido por Donald Trump em campanha eleitoral. Ainda assim, este documento não vai valer de nada sem a aprovação do Congresso, que é o órgão responsável nos EUA por abrir ou fechar or cordões da bolsa. E tanto no Senado como na Câmara dos Representantes, as propostas de Donald Trump atraíram várias críticas. Algumas dessas críticas partiram de congressistas republicanos — e uma vez que precisa do apoio destes para aprovar o Orçamento do Estado, Donald Trump terá provavelmente de negociar com eles.

“Estou muito preocupado com a possibildiade de cortes profunos na nossa diplomacia poderem vir a prejudicar os esforços do combate ao terrorismo”, disse o republicano Ed Royce, que lidera o comité de relações externas da Câmara dos Representantes. Na mesma nota, Marco Rubio, senador republicano pela Florida e antigo adversário de Donald Trump nas primárias republicanas, disse num comunicado: “Não apoio o corte de 28% [sic] no orçamento das relações externas e no esforço diplomático liderado pelo Departamento de Estado”. Para Marco Rubio, esses programas são “essenciais” para a segurança dos EUA e cortes como os que Donald Trump propõe “prejudicam a capacidade da América de manter os seus cidadãos seguros”.

Sobre o corte de 5,8 mil milhões de dólares no National Institutes of Health (o que representa um corte de quase 20%), responsável na investigação na área da saúde, o congressista republicano Steve Womack, do Arkansas, escreveu que aquele organismo “tem potencial para, com um certo investimento, inverter os custos na luta contra muitas doenças” e disse que era “imprudente” fazer “este tipo de cortes”.

O congressista republicano Steve Stivers, do Ohio, que também é líder do Comité Nacional Republicano no Congresso, também reservou dúvidas quanto às contas de Donald Trump. “Eu acho que a proposta do Presidente não vai ser o nosso ponto de partida”, disse, em relação ao necessário trabalho do Congresso em torno do Orçamento do Estado. “Uma transferência de 54 mil milhões de dólares do orçamento para questões domésticas para a defesa — e eu até me considero um arauto da defesa — penso que há cortes um pouco drásticos nalguns sítios”, disse na quinta-feira.

“O Presidente queria enviar uma mensagem aos nossos aliados”

Numa conferência de imprensa na Casa Branca, o diretor do Organismo de Gestão do Orçamento, Mick Mulvaney, defendeu a proposta de Donald Trump como sendo um “orçamento de hard power“. “O Presidente queria enviar muito claramente uma mensagem aos nossos aliados e potenciais adversários de que esta é uma administração de fortes poderes”, disse, em relação ao investimento no setor militar.

Sobre o desinvestimento em vários programas estatais, que vão desde o combate ao aquecimento global a medidas de apoio alimentar aos mais carenciados, Mick Mulvaney disse: “Não podemos continuar a gastar dinheiro em programas só porque eles parecem bem”. “É um desperdício de dinheiro”, disse, em relação à questão particular do aquecimento global.

“A mensagem que o Presidente quer passar agora é de desinvestimento”, disse. “E hoje há razões completamente legítimas para isso. Eu coloco-me na posição de um metalúrgico no Ohio, de uma família de mineiros no West Virigina ou de uma mãe de dois filhos em Detroit. Eu tenho de dizer ‘okay, eu vou pedir dinheiro a estes senhores e tenho de dizer onde é que vou gastá-lo”, explicou, para depois pegar no exemplo específico do desinvestimento nos media públicos. “Será que eu posso ir ter com eles, olhá-los nos olhos e dizer que quero levar o dinheiro deles para dá-lo à Corporation for Public Broadcasting? É muito difícil convencê-los disso. E na verdade é algo que nós já não podemos defender”, acrescentou.