A versão da história de Pocahontas contada na animação da Disney, feita em 1995, foi a que se generalizou, mas está longe de ser a mais fiel. Pocahontas morreu com 21 anos e o inglês John Smith, pelo qual se apaixona no filme, mentiu sobre o contexto em que conheceu a princesa. Esta segunda-feira, comemoram-se 400 anos desde a sua morte.

A lenda da princesa nativo-americana começou a ser construída quando tinha ainda 12 anos de idade. De nome original Matoaka, era filha do chefe dos povos Powhatan, localizados na Virgínia, nos Estados Unidos, mas desconhece-se a identidade da sua mãe. Pocahontas passou a infância no meio dos conflitos com colonizadores ingleses. Um deles, John Smith, chegou a Virgínia de navio, em 1607, com outros 100 colonizadores.

Pocahontas terá impedido o seu pai de executar John Smith, mas o relato deste episódio só foi feito pelo próprio após a morte da princesa, por escrito, numa publicação intitulada Generall Historie: “No minuto de minha execução, ela [Pocahontas] arriscou o espancamento do seu próprio cérebro para salvar o meu”. Os historiadores preferem acreditar na versão de que, na verdade, não aconteceu nenhum episódio de tentativa de execução dos colonizadores. Pelo contrário, John Smith terá sido até bem recebido pelos povos Powhatan.

Do sequestro ao primeiro casamento entre um europeu e uma americana

Aos 17 anos de idade, Pocahontas fazia visitas frequentes à região de Jamestown a fim de auxiliar e cuidar dos colonizadores europeus. Em 1613, numa dessas visitas, Pocahontas foi sequestrada pelo oficial da marinha Samuel Argall que pedia, em troca, alguns prisioneiros mantidos pelo seu pai, o chefe dos povos Powhatan. O sequestro da jovem prolongou-se por mais de um ano.

O momento em que Pocahontas salva John Smith, em 1617, umas das versões da história. (Fotografia de Three Lions/Getty Images)

E também não foi com John Smith que a bela índia acabou por ficar. Durante aquele período, John Rolfe, um plantador de tabaco, interessou-se por Pocahontas. O viúvo de 28 anos, tomando o casamento por garantido, influenciou a sua libertação e conseguiu. Em 1614, Pocahontas casou-se com John Rolfe, foi convertida ao cristianismo e batizada com um novo nome. Passou a chamar-se Rebecca Rolfe. Celebrou-se, assim, o primeiro casamento registado entre um europeu e um nativo americano. Do matrimónio, resultou um filho, Thomas Rolfe, que ficou conhecido por “Red Rolfe”, devido à cor de pele dos nativos-americanos.

Partida para Inglaterra sem retorno

Em 1616, o casal partiu para Inglaterra. Rebeca foi usada como símbolo das relações pacíficas entre os ingleses e nativos americanos, tendo sido vista como uma selvagem civilizada. O seu marido foi elogiado. A adaptação da princesa índia à sociedade inglesa foi de tal forma impressionante que o casal chegou a ser recebido pela corte e pelo próprio rei Jaime I. Nos relatos escritos por John Smith, o colonizador inglês que acabou também por regressar a Inglaterra, descreve um encontro que terá tido com o casal Rolfe: “Sem palavras, ela [Pocahontas] virou-se, obscureceu o rosto, não parecendo bem contente”.

Em março do ano seguinte, o casal decide voltar para a Virgínia mas, durante a viagem, Rebeca ficou doente. Ao ver-se obrigada a sair do navio, foi deixada em Gravesend, no noroeste de Inglaterra para voltar para casa. Tal não aconteceu. Pocahontas acabou por morrer no local, aos 21 anos de idade. Apesar de serem desconhecidas as causas da sua morte, varíola, pneumonia, tuberculose ou, até, envenenamento são algumas das teorias.

Estátua de Pocahontas no largo da igreja de S.George, em Gravesend, Inglaterra (Fotografia de DiamondGezeer/Flickr)

De acordo com os registos existentes, Pocahontas morreu e foi enterrada a 21 de março de 1617 mas não se conhece o local onde está sepultada. Em 1727, a igreja original de Gravesend foi destruída na sequência de um fogo, pelo que se tornou impossível saber o local exato da sepultura de Pocahontas. Ainda assim, o reverendo de Gravesend garante que o corpo da princesa está exatamente por baixo do altar da Igreja de S.George. É no largo dessa igreja que foi colocada uma estátua de Pocahontas, na celebração dos 400 anos da sua morte.