Os egípcios queriam construir uma barragem no rio Nilo na região Núbia. Os arqueólogos puseram travão aos planos: inundar aquele território era atirar heranças históricas para debaixo de água onde se perderiam para sempre. Entre todas as antiguidades que ficariam submersas pela barragem estava o templo de Abu Simbel, cujas estátuas de homenagem a Ramsés II era iluminadas, uma a seguir a outra, em todos os equinócios da primavera. Era preciso fazer alguma coisa.

A partir de 1959, a UNESCO começou a pedir dinheiro para salvar o templo de Abu Simbel. Entre as doações recebidas estavam contribuições do governo egípcio e do Sudão, investidas em estudar ao pormenores os monumentos nesta região, acelerar investigações no local e por em prática um plano ambicioso e pioneiro: mudar o templo de lugar. E foi possível: 40 milhões de dólares depois, o monumento foi desmontado no local — agora chamado lago Nasser — e reerguido pedra por pedra, como peças de LEGO, no banco ocidental do rio Nilo entre 1963 e 1968. Mas houve um problema: desde então, e muitos cálculos matemáticos depois, nenhum cientista ou arqueólogo conseguiu que o Sol voltasse a iluminar as estátuas, uma após outra, no equinócio de primavera.

O depois de o antes de Abu Simbel

No continente asiático, a China parece ter aprendido a lição. Em finais dos anos 90, a Casa Yin Yu Tang — uma casa típica mercantil chinesa — foi retirada de Huizhou (província de Anhui) e levada para o Peabody Essex Museum em Salem, Massachussets (Estados Unidos). Era um modo de ganhar algum dinheiro com um edifício histórico que, caso não fosse salvo por este negócio, ia ser vendido por partes para outros projetos mais modernos. Na viragem do milénio, os chineses tinham feito destas mudança a sua especialidade. A arquitetura estava prestes a mudar por aquelas bandas.

Não há outro remédio, dizem alguns: o crescimento exponencial da população, o consequente nascimento de mais megacidades e arranha-céus, a par da urbanização do país obrigaram a China a repensar o seu ordenamento de território. Dezenas de milhares de monumentos históricos já mudaram de local à conta destes planos e escaparam assim à demolição. Mas noutros casos, tal como aconteceu com o templo de Abu Simbel, os edifícios não voltaram a ser os mesmos: muita herança histórica fica perdida no meio da construção de mais estradas, mais edifícios e mais cidades com milhões de pessoas.

Mas a China não é o único país onde este processo arquitetónico acontece: é um procedimento usado também nos Estados Unidos, no Chile ou em Inglaterra. O modo como é feito depende das características dos edifícios, mas por norma há duas formas de mover edifícios: depois de colocar proteções na parte de cima e de baixo dos monumentos, eles podem ser puxados por camiões ou então arrastados ao longo de carris construídos de propósito para estas operações. Ambas são mais baratas do que demolir e reconstruir, mas podem comprometer vestígios arqueológicos pouco estudados no local original.

Veja alguns exemplos de edifícios que foram movidos para novos locais na fotogaleria.