“Alice nas Cidades”

Da Califórnia à Alemanha do Rühr, passando por Nova Iorque, Philip Winter, um jornalista e fotógrafo alemão (Rüdiger Vogler) faz uma longa jornada acompanhado por Alice, uma menina de nove anos (Yella Röttlander), que a mãe abandonou nos EUA e ele quer entregar à família na Alemanha. Primeiro filme da chamada trilogia “On the Road” de Wim Wenders, a que se seguiriam “Movimento em Falso” (1975) “Ao Correr do Tempo” (1976), “Alice nas Cidades” surge como que o modelo cinematográfico, formal, estilístico e temático dos títulos seguintes do realizador alemão até “O Estado das Coisas” e “Paris, Texas”, descontando o desastroso interlúdio que foi “Hammett, Detective Privado”, tutelado por Francis Ford Coppola.

Lá estão as personagens vagas e deambulantes, em busca nem sabem elas de quê, o gosto da deriva contemplativa, a passagem do tempo, as paisagens atravessadas de carro ou de comboio e captadas em longos “travellings” (aqui, no preto e branco tristonho da câmara de Robby Müller), o binómio Europa/EUA e o misto de atracção e repulsa por estes, os tempos mortos e os diálogos escassos, o sentimento de alienação individual que se repercute no mundo em redor, um finíssimo fio condutor (a obrigação que o fotógrafo se impõe de deixar a miúda junto do seus), e a mediação das emoções e dos estados de espírito pelas imagens (as polaróides que Philip não pára de tirar). Como notou bem o falecido Philip French, crítico do “The Observer”, um filme como “Alice nas Cidades” seria hoje impossível de fazer, por causa dos telemóveis e da Internet, que proporcionam uma comunicação contínua e imediata, e pela obsessão com o perigo pedófilo, que imediatamente carregaria de controvérsia a relação da dupla de personagens. Exibição em cópia restaurada.

“Um Homem Chamado Ove”

Juntamente com “Toni Erdmann”, de Maren Ade, “Um Homem Chamado Ove”, de Hannes Holm, baseado no “best-seller” com o mesmo título do escritor sueco Fredrik Backman, foi um dos grande sucessos do cinema europeu de 2016 que teve expressão até nos EUA, um fenómeno que se dá quase todos os anos. Ambos foram popularíssimos e muito lucrativos nos seus respectivos países, premiados a nível do Velho Continente, e nomeados para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro (o filme sueco até teve uma segunda nomeação, para Melhor Maquilhagem), tendo-se “Um Homem Chamado Ove” portado mesmo muito bem nas bilheteiras americanas, já que foi um dos filmes estrangeiros mais lucrativos nos EUA no ano passado.

Reformado compulsivamente do emprego nos caminhos de ferro onde sucedeu ao pai, sem a mulher e incapaz de se conseguir suicidar em sossego, o Sr, Ove (Rolf Lassgard) dedica-se ao seu único passatempo: fazer a vida negra aos vizinhos, ele, que já não é presidente da Comissão de Moradores do bairro mas ainda se comporta como tal. Uma das principais razões – talvez mesmo a principal – do sucesso sem fronteiras de “Um Homem Chamado Ove” é o ser um filme “feel good”, feito para agradar ao maior número possível de pessoas mas que não se nega a ter momentos “feel bad”, tristes e deprimentes, e que consegue equilibrar o humor negro e os bons sentimentos, enquanto respeita as convenções do formato. “Um Homem Chamado Ove” foi escolhido como filme da semana do Observador, e pode ler a crítica aqui.