Giorgio Marchetti. O nome diz qualquer coisa. Quando começa a falar, até mesmo para os mais distraídos, a campainha começa a tocar – “ah, o senhor dos sorteios da UEFA”. O inglês a esconder o italiano por trás não engana. Mas é mais do que isso: é o diretor de provas da UEFA. E comecemos pelo fim: quando questionado se existem bolas quentes ou frias no sorteio, pergunta ele próprio se é uma brincadeira. “A sério, como é que poderíamos ter isso? Ainda para mais com convidados do gabarito que temos, antigos internacionais colocados nessa situação… É uma brincadeira, só pode. É impensável acontecer uma coisa dessas“, asseverou.

Mas não foi de bolas nem bolinhas que Marchetti falou no Football Talks, a mega organização da Federação Portuguesa de Futebol que juntou os melhores dos melhores no Centro de Congressos do Estoril. Falou de provas. De Champions. E das alterações às competições europeias. No final, perguntamos: será a UEFA uma espécie de Robin dos Bosques, que desvia dos mais ricos para dar aos que menos têm? Fiquemos pelo ‘nim’.

Entre agosto e dezembro de 2016 estivemos a estudar as provas europeias para o triénio 2018-2012 a três níveis: lista de entrada, coeficiente e distribuição de receitas. E estudámos a partir de quatro pontos: a qualidade dos jogos na fase de grupos tem vindo a cair; o risco do interesse dos media na Champions cair é maior; em paralelo, as ligas nacionais têm vindo também a desenvolver-se; e as receitas correm o risco de estagnar. Mas não mexemos naquilo que é o número de equipas: 32 na Liga dos Campeões, 48 na Liga Europa”, começou por definir.

Enquanto ia explicando as mudanças, o diretor de competições da UEFA tentava em paralelo rebater aquilo que alguém, alguma pessoa, poderia questionar. Exemplo prático: “As quatro melhores equipas dos quatro países que lideram o ranking passarão a ter entrada direta na fase de grupos”. “Ah, mas 75% passam o playoff, por isso a diferença não será assim tão grande”, completou. “A Champions passará a ter 15 países representados, a Liga Europa passará de 17 para 22. No mínimo 12 campeões nacionais entrarão na Liga Europa, quando nesta altura são entre cinco e nove“, prosseguiu. Números são números, resta saber utilizar como dá mais jeito. Pensávamos nós.

Marchetti quase parecia ter lido o nosso raciocínio: então e para países como Portugal, que caíram do quarto para o quinto, do quinto para o sexto, e do sexto para o sétimo lugar do ranking? “Tenho aqui o exemplo de Inglaterra e Itália. Em 2010/11, tinham uma vantagem de mais de 25 pontos; hoje, é apenas de 2,797. E isto com Inglaterra a ter quatro países na Champions, contra dois ou três de Itália. Como podem ver, tudo é possível“. Toma, para não pensares mal. Mas não ficou por aqui. “Introduzimos também novas fórmulas para calcular o coeficiente, que dariam mais 19 pontos ao Ludogorets e menos 20 ao Málaga, por exemplo“. Toma outra vez.

FC Porto e Benfica a receber mais do dobro?

O diretor de competições da UEFA abordou de seguida a distribuição do dinheiro (e é muito, muito mesmo) que as provas europeias angariam. E um novo modelo de cálculo: ao contrário do que acontecia, o peso dos direitos televisivos passou de 40% para 15% do total, a que se acrescenta 25% pela entrada na fase de grupos, 30% pelo coeficiente e outros 30% pela performance conseguida. E é aqui que entram FC Porto (155,6%) e Benfica (111,7%), dois dos cinco clubes que, de acordo com os novos cálculos, mais iriam beneficiar.

Por fim, e no último golpe para os mais céticos, Marchetti apresentou ainda o impacto das receitas conseguidas pelas cinco principais ligas europeias (Inglaterra, Espanha, Alemanha, Itália e França, que acolhem 86% do bolo total conseguido), pelas ligas entre o sexto e o 11.º lugar (onde se encontra também Portugal, 11%) e os outros (3%). À partida, poderíamos pensar que aquele quadro mostrava, sobretudo, a discrepância de mundos entre existe entre o top-5 e os restantes. Mas não: serviu para evidenciar como a UEFA, em termos percentuais, consegue ajudar muito mais quem menos tem, sobretudo no plano de solidariedade. Case closed. Final de jogo. Para aqueles que defendem a necessidade de uma Superliga europeia e para os outros que argumentam ainda receber muito pouco.

Progredir em busca da perfeição que não existe

Admitindo que o “fair-play financeiro foi uma ideia que deu resultados“, Marchetti salientou de novo que “as alterações foram feitas no sentido de ir progredindo e melhorando, sabendo que a perfeição não existe”. “A Superliga europeia é uma ideia fechada, não existe. Rummenigge mostrou-se favorável? Parece-me que não, ainda na semana passada disse o contrário… Além disso, temos um bom diálogo com a ECA, que tem todos os grandes clubes da Europa”, destacou, antes de abordar especificamente a queda de Portugal no ranking.

Devido ao agregado de resultados acabou por cair mas acredito que tem todas as condições para voltar a subir e ocupar o lugar onde já esteve, mesmo havendo uma competitividade cada vez maior“, comentou.