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Em contra-ciclo com vários políticos portugueses, o antigo presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, defendeu esta quinta-feira que é preciso “reconhecer” que Jeroen Dijsselbloem “foi um bom presidente do Eurogrupo e levou a sério essa função e essa tarefa“. No Conversas à Quinta — programa semanal que será esta quinta-feira emitido no Observador — Jaime Gama defende que “há que distinguir entre o que é uma boutade infeliz” — que foi aproveitada para “exprimir e libertar tensões sobre a realidade das coisas, a coberto da irrealidade das frases sonantes” — daquilo que foi o trabalho do ainda ministro das Finanças holandês.

Na conversa com Jaime Nogueira Pinto (moderada por José Manuel Fernandes), Jaime Gama critica ainda a “ilusão” que os responsáveis políticos preferem dar aos eleitores, em detrimento de defenderem reformas que são necessárias. O antigo presidente da Assembleia da República, deixou ainda críticas a um ciclo vicioso da economia portuguesa, o triângulo crescimento ilusório/clientelismo/intervenção externa.

Para Jaime Gama “o modelo económico português é um modelo económico triangular assente em crescimento frágil, estimulado pelo exterior; com um segundo pilar é, em sequência, apropriação das administrações públicas para si próprias ou para redistribuições feitas numa lógica política e eleitoral e, a seguir, a intervenção externa“.

O histórico do PS explica que esta “triangulação” é “o modelo de crescimento que nos conduz ao isolamento, à periferização e à não razoabilidade e recuperação consistente”. Acrescenta ainda que “muitas vezes a reclamação anti-alemã dos europeus menos desenvolvidos” tem “por trás uma confissão de culpa da incapacidade de agir de forma rigorosa para trilhar um caminho em que se melhore o padrão de funcionamento e que se possa subir no ranking desse espaço.”

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“Opinião pública está anestesiada”

Também esta quinta-feira, em entrevista à Antena 1, Jaime Gama deixou críticas indiretas à solução governativa, embora nunca visando diretamente o Governo de António Costa. O antigo presidente da Assembleia da República, considera que a opinião pública está “anestesiada” porque “lhe é escamoteada a compreensão do problema [da dívida] e lhe é permanentemente afirmada a oferta ilusória de uma solução impraticável”.

Para Jaime Gama o atual peso da dívida é “impraticável” e terá, no futuro, “consequências absolutamente desastrosas no plano económico e social”. Para o histórico do Partido Socialista, há “um intervalo agora suscetível de ser entretido porque há um crescimento da economia”, mas “a realidade far-se-á sentir na altura própria”. Gama destaca ainda que o país não está melhor devido ao plano macroeconómico de António Costa já que, acredita que o “crescimento da economia deriva da articulação internacional de Portugal, mais do que do próprio mérito de qualquer programa económico.”

Na mesma entrevista Gama sugeria ainda que o “otimismo” — característica atribuída ao primeiro-ministro — não resolve a situação. “Há outro caminho, que também me parece um caminho bastante ilusório, que é o de julgar que sozinhos podemos tudo contra o mundo”, começa por dizer o ex-presidente do Parlamento. O socialista considera ainda uma “ingenuidade enorme” os responsáveis políticos portugueses considerarem que sozinhos têm a capacidade de “como devedores, de limpar o nosso próprio passivo com um aplauso geral, com a condescendência geral daqueles que foram os nosso credores.” O antigo presidente da Assembleia da República adverte que estes “são discursos sempre apetecíveis e populares” e que esta é “uma matéria sobre a qual é possível fazer toda a espécie de demagogia, mentindo e salvando a sua imagem com propostas absolutamente ilusórias.