O relógio já tinha batido as 10h da manhã quando José Pereira passava na Travessa de São Sebastião em Tamel de São Veríssimo, uma freguesia do concelho de Barcelos (Braga) com pouco mais de 3 mil pessoas. Saído de uma das casas da vizinhança, viu Adelino Briote dirigir-se a ele: “Oh Pereira, faz-me um favor e chama a GNR para virem falar comigo”. Adelino, com 63 anos, estava calmo e não demonstrava ter cometido nenhum ato irrefletido. Vivia ali perto, na casa ao lado de onde tinha acabado de sair para ir ao encontro do vizinho com quem “tinha confiança”. José Pereira não podia adivinhar que tinha acabado de degolar um homem e três mulheres, uma das quais grávida de sete meses. Mas o perfil de Adelino está longe de ser desconhecido de quem estuda crimes há muitos anos.

Aos olhos do Federal Bureau of Investigation (FBI), Adelino Briote é considerado um assassino em série porque matou mais do que três pessoas de forma cadenciada. Aos olhos da psicologia criminal, e tendo em conta apenas os dados transmitidos até agora pelas autoridades, Adelino Briote pode ser um homem com um distúrbio de personalidade: de acordo com Paulo Sargento, diretor da Escola Superior de Saúde Ribeiro Sanches e docente na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, a extrema violência do caso sugere que estamos perante um homem que “não teve travão”, que não tem capacidade de empatia nem de prever ou interpretar a dor, o sofrimento e o medo alheio. Pelo contrário, a dor que inflige aos outros podem ser-lhe satisfatórias.

A extrema violência do caso sugere que estamos perante um homem que “não teve travão”, que não tem capacidade de empatia nem de prever ou interpretar a dor, o sofrimento e o medo alheio. Pelo contrário, a dor que inflige aos outros podem ser-lhe satisfatórias.

Paulo Sargento, diretor da Escola Superior de Saúde Ribeiro Sanches e docente na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias

José Pereira, o vizinho e primo do casal assassinado, a quem Adelino Briote se dirigiu a seguir ao crime. Créditos: Gonçalo Delgado/Global Imagens

Vingança? Só isso?

O cenário, diz quem viu o local do crime antes da chegada das autoridades, era de extrema violência: havia sangue nos muros e no chão e quatro corpos. Quando a polícia chegou, a vizinhança foi afastada para a Rua de São Sebastião. Dali só podiam ver a casa verde, que ficava mesmo ao lado do local do crime, e uns arvoredos que escondiam o que estava a acontecer. Diz José Pereira que Adelino Briote ficou a conversar com as autoridades e que, passado uns minutos, saiu com eles. Voltou pouco depois, desta vez já acompanhado por agentes descaracterizados da Polícia Judiciária, e só saiu de Barcelos já depois da hora de almoço. Durante esse tempo esteve a vaguear pela casa e pelo jardim, explicando à polícia como e porque é que tinha assassinado quatro pessoas da vizinhança.

Marisa Rodrigues foi a primeira vítima. Estava grávida de sete meses e estaria a aspirar quando Adelino Briote a matou ainda dentro de casa. A seguir atacou um casal na casa dos oitenta anos, António Vale e Maria Glória, que ainda conseguiu sair da casa. Mas não conseguiram salvar-se: Adelino apanhou-os na rua e voltou a esfaqueá-los até à morte. Entretanto, Maria de Sameiro, uma vizinha de 66 anos, saiu de casa para perceber de onde vinham os gritos que ouvia ali perto. Foi apanhada e também ela foi degolada. Um testemunha fala da presença de uma quinta pessoa que conseguiu escapar, mas esta informação não foi confirmada ainda pelas autoridades.

Ao Observador, Paulo Sargento explica que indivíduos neste quadro “desvalorizam a vida alheia e sentem que o mal que fazem aos outros é de algum modo justificável”.

A justificação que Adelino Briote parece encontrar para os seus atos podem ter acontecido em 2013. A 25 de março de 2015, precisamente há dois anos, o homem de 63 anos foi detido por agredir à paulada com um ferro a sogra e a filha, que também estava grávida de 17 semanas. O processo judicial começou pouco depois e, em novembro de 2016, Adelino foi condenado a uma pena de três anos e dois meses de pena suspensa. Marisa Rodrigues e o casal António Vale e Maria Glória, três da vítimas, tinham recusado depor como testemunhas abonatórias nesse caso de violência. E apesar de Adelino ter negado ter morto aquelas quatro pessoas por vingança, esta é a teoria mais consistente. Até porque Adelino não conseguiu dar outra explicação.

Num quadro onde a violência parece ser habitual, “podemos estar perante uma personalidade insensível, impulsiva, que não entende os sentimentos dos outros, nem consegue muitas vezes exprimir as suas próprias emoções”. Isto é o que nos explica a psicóloga criminal Marina Carvalho: em teoria, pessoas com estas características tendem a agir em função de um objetivo imediato e as consequências dos seus atos não lhes servem de travão.

“Podemos estar perante uma personalidade insensível, impulsiva, que não entende os sentimentos dos outros, nem consegue muitas vezes exprimir as suas próprias emoções”

Marina Carvalho, psicóloga criminal

Na verdade, pode acontecer que nada chame estas pessoas à razão, ressalva ainda o psicólogo Paulo Sargento: nem o facto de estar perante pessoas aparentemente mais fracas ou frágeis — um casal mais velho e uma grávida, atacados de surpresa — e suas conhecidas são suficientes para travar o seu plano. Isso pode até servir de reforço ao ato. Daí o facto de ter morto a vizinha que tenta socorrer as pessoas atacadas primeiro: Adelino Briote quis eliminá-la, mesmo sem ter tido nenhum contacto negativo prévio com ela, pelo simples facto de Maria do Sameiro se ter atravessado no seu caminho.

A família e os amigos das vítimas estiveram próximos do local do crime durante a tarde. Créditos: Gonçalo Delgado/Global Imagens

A arma do crime também pode ser simbólica do que se passa na estrutura psicológica de Adelino. Quem mata com uma faca por ter um distúrbio psicológico sabe que o crime será mais violento e mais eficaz porque o risco de errar é menor: é mais provável falhar o alvo quando se usa uma arma de fogo, por exemplo, do que quando se atinge com precisão e consciência os órgãos vitais do outro, dizem os especialistas. Neste caso, Adelino atacou-as diretamente na jugular, degolando as quatro vítimas. Sem margem para que sobrevivessem.

O uso da faca pode também ser mais um sinal de um distanciamento frio em relação às vítimas: o crime exige uma maior proximidade física e, portanto, uma ausência de remorso perante o ato. Além disso, é uma arma mais prática: está mais disponível que uma pistola, por exemplo, e exige menos perda de tempo no planeamento do crime, acrescentam ainda outros estudos criminais.

A maldade aniquiladora

Isso transparece outra característica que Adelino Briote parece ter: “a personalidade aniquiladora”. Em pessoas com estas características psicológicas assiste-se a uma “desumanização” do outro: o psicólogo criminal Carlos Poiares explica ao Observador que estes indivíduos “tendem a usar o outro como instrumentos, como se fossem donos deles e pudessem assumir controlo da sua vida”.

Em pessoas com estas características psicológicas assiste-se a uma “desumanização” do outro: estes indivíduos “tendem a usar o outro como instrumentos, como se fossem donos deles e pudessem assumir controlo da sua vida”

Carlos Poiares, psicólogo criminal

Estudos neurológicos feitos a pessoas com distúrbios de personalidade deste tipo sugerem que há um funcionamento anormal do lóbulo frontal que não permite ao seu aparelho mental processar informação de modo saudável. No entanto, não se assiste necessariamente a algum problema do intelecto: na verdade, neste caso de perturbação de personalidade, não se costuma assistir a um défice das faculdades cognitivas. Elas costumam funcionar plenamente e, em alguns casos, até acima da média.

É aqui que se estabelece a diferença entre aquele que pode ser o caso de Adelino Briote e o de um surto psicótico, que acontece quando a pessoa não está consciente dos seus atos e atua impulsivamente. Marina Carvalho explica-nos que “só estamos perante um surto psicótico se a pessoa estiver descompensada e desligada da realidade” e, atendendo às estatísticas, a grande maioria dos atos de muita violência não é perpetrado por pessoas nessas condições.

Normalmente, diz, “esses atos acontecem em contexto de distúrbios de personalidade, em que as características psicológicas de insensibilidade, falta de empatia e frieza saem de controlo”. Ainda assim, o indivíduo está sempre consciente do que fez. E muito dificilmente sente remorsos. Também é difícil teorizar que Adelino Briote estivesse deprimido: “À partida, uma pessoa que está a passar por uma depressão não mata. Mata-se. Porque sente que a sua vida não tem valor”, sublinha Marina Carvalho.

A polícia em Tamel de São Veríssimo (Barcelos, Braga) junto ao local do crime. Créditos: Ricardo Castelo/Observador

O que parece acontecer, isso sim, é que as pessoas naquela que parece ser a situação de Adelino começam a seguir comportamentos mais instintivos. Tornam-se seres predatórios que seguem as instruções mais animalescas que ainda temos e que contrastam com o recalcamento de atitudes e comportamentos que a consciência nos confere. Isso não prevê um quadro psicótico, conta Paulo Sargento: “Um surto psicótico vem acompanhado de episódios de alucinações e delírios. Quando eles ocorrem, a pessoa não compreende o que está a acontecer”. Adelino Briote parecia estar ciente do que tinha acontecido. E isso pode ser provado pelo “arrefecimento emocional” que demonstrou a seguir a cometer os crimes quando se dirigiu ao vizinho para conversar com a polícia e até quando reconstitui o crime. E também na forma como o premeditou.

Eles estão no meio de nós

Mas Paulo Sargento vai mais longe: Adelino Briote pode ser também “um indivíduo narcisista, com um fundo antissocial que é disfarçável e sem capacidade para lidar com a frustração e com a perda ou falta de apoio”. Estas são as personalidades “mais perigosas” com que podemos ligar, alerta-nos o psicólogo: “a maior parte das pessoas que lidam com pessoas com estas características descrevem-nos como sendo pacatos, sociáveis e simpáticos”. Costumam parecer sedutoras e muitas vezes são difíceis de identificar, mesmo perante uma situação de extremo stress. Podemos nunca dar por elas. Mas nenhuma destas características pode ser considerada uma doença: ter um distúrbio de personalidade não significa ser doente, alerta a psicóloga Marina Carvalho, porque não a torna inimputável.

“A maior parte das pessoas que lidam com pessoas com estas características descrevem-nos como sendo pacatos, sociáveis e simpáticos”. Costumam parecer sedutoras e muitas vezes são difíceis de identificar

Marina Carvalho, psicóloga criminal

As fronteiras entre ter uma doença psicológica ou ter um distúrbio de personalidade que não é incapacitante foi explicada ao Observador por Íris Almeida, professora auxiliar do Instituto Superior de Ciências Sociais Egas Moniz e diretora do Gabinete de Psicologia Forense do Laboratório de Ciências Forenses e Psicológicas do mesmo instituto, em outubro do ano passado. Um estudo que teve por objeto o comportamento criminal associado aos homicídios em Portugal conseguiu traçar quatro perfis criminais. A investigação permitiu concluir que na hora de matar outra pessoa há dois tipos de motivação: a expressiva e a instrumental.

A motivação expressiva funciona como resposta a situações de raiva, tem como objetivo fazer sofrer o outro e é típico em homicídios em contexto familiar ou de relações íntimas. Parece ser esse o caso de Adelino. Em caso de motivação instrumental, o objetivo não é fazer sofrer o outro: a morte é apenas um meio para alcançar o fim e o sofrimento alheio é um dano colateral porque a vítima é um problema secundário. Ou seja, podia matar-se aquela pessoa ou qualquer outra que se tenha atravessado no caminho e dificultado uma determinada ação. É o que se observa em casos de crimes sexuais, de roubos ou de tráfico de droga, por exemplo.

A GNR junto ao local onde Adelino Briote matou quatro pessoas, três mulheres (uma delas grávida) e um homem em Barcelos. Créditos: Hugo Delgado/LUSA

Um problema na sociedade

Todas estas questões terão sido abordadas há dois anos em testes psicológicos feitos a Adelino Briote quando agrediu duas pessoas da sua família. Mas Bruno Brito, psicólogo da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), diz que “a perigosidade do indivíduo não foi devidamente avaliada na altura da condenação e da decisão da pena suspensa”. Carlos Poiares diz mesmo que “o mal é a pena suspensa”: grande parte das pessoas condenadas a pena suspensa na sequência de um caso de violência doméstica não interioriza a interdição a que ficam obrigadas, nem entendem a gravidade dos seus atos. “Se perguntar a muitos violentadores condenados a penas suspensas o que aconteceu, a maior vai responder que não aconteceu nada. Ficam com uma sensação de impunidade“, conta o psicólogo criminal ao Observador.

A lei acaba por refletir aquilo que observamos no próprio contexto sociocultural, afirma Paulo Sargento: “A lei é permissiva. E vai ao encontro da ideia de que o direito familiar não é uma coisa pública, é uma coisa privada em que não nos devemos meter demais. É uma ideia enraizada na nossa sociedade“.

Durante esta tarde, Adelino Briote esteve com a Polícia Judiciária a fazer a reconstituição do crime. Explicou como atacou as vítimas e para onde atirou a faca com que as matou, algures para o telhado da casa de Marisa, a mulher grávida. Agora será sujeito a uma entrevista pelas autoridades e a testes psicológicos que ajudem a entender o envolvimento de Adelino nos crimes e ajudará a determinar que pena lhe será aplicada.